A Menina Submersa, de Caitlín R. Kiernan


Tem alguns livros que compramos e demoramos alguns anos para lê-los, que ficam na nossa estante nos encarando, esperando o momento em que vamos pegá-los finalmente. Comprei A Menina Submersa em 2015 e ele ia completar cinco anos esse ano, quando achei que já era hora de enfrentar essa história. Uma vez tinha começado, mas acho que não estava no momento certo, no clima certo, então nada melhor do que fazer dele meu primeiro livro de 2020.

A questão é que A Menina Submersa é uma obra difícil. Incrível, mas muito difícil. Ao longo do livro, narrado em primeira pessoa, conhecemos Imp, ou India Morgan Phelps, uma mulher com esquizofrenia, que toma remédios, e tem vários casos de suicídio na família. Então, claro, o assunto não é fácil. Mas a forma como Kiernan nos conta essa história nos faz seguir adiante. A narrativa é conturbada e cheia de desencontros. A própria narradora afirma como é difícil para ela se manter numa narrativa linear, o que só auxilia na confusão, mas nada que um pouquinho de concentração e esforço não ajudem.

Imp é uma mulher com problemas. Quando pequena, encontrou um quadro em uma galeria que entraria em sua vida de forma que ela não esperava: o quadro se chamava A Menina Submersa, e tinha sido pintado por Philip George Saltonstal. A partir desse dia, talvez, podemos dizer que a vida de Imp mudou. Já adulta, Imp é pintora e escritora (apesar de não se considerar escritora), e afirma estar cercada de assombrações desses momentos assustadores que passou ao conhecer Eva, uma mulher que ela encontrou nua na rodovia e levou para casa, onde vivia com sua namorada Abalyn. Abalyn também havia sido encontrada, tinha acabado de ser despejada de casa quando Imp a encontrou e lhe deu um lar.

Fantasmas são essas lembranças fortes demais para serem esquecidas, ecoando ao longo dos anos e se recusando a serem apagadas pelo tempo.

E durante a narrativa de Imp, por mais complicada que seja, e por mais que ela não seja uma narradora confiável, como logo percebemos, já que ela mesma nos conta suas mentiras, percebemos que as coisas acontecem na vida de Imp de uma forma um tanto quanto estranha, sempre. As ligações entre os acontecimentos, coisas que aconteceram com distâncias de anos e acabam se mostrando semelhantes depois. Estaria Imp presa mesmo nessas assombrações ou tudo é culpa da doença? Talvez não importe, mesmo. O que importa é a história que ela conta. Como conheceu Abalyn, como encontrou Eva, e como Eva entrou em sua mente e começou a destruir sua vida, e como mesmo assim ela amava Abalyn e Eva. Todos nós, afinal, temos algumas assombrações. E lidar com elas nunca é fácil.

Eu sempre poderia chamar algo de uma coisa quando, na verdade, ela é seu exato oposto. Muita gente faz isso e parece funcionar para elas, então por que diabos não funcionaria para mim?

Imp nos conta sua história com o coração aberto. Sua relação com Abalyn, sua relação com Eva, sua relação com sua própria cabeça e seu cansaço e seus remédios, e como é viver com tudo isso ao mesmo tempo.

Ao longo do livro Kiernan utiliza de muitas referências para trabalhar a mente dessa personagem, uma mente caótica mas ao mesmo tempo bastante organizada, e o leitor é levado até o mais fundo dela. De Lewis Carroll e Alice no País das Maravilhas, até as lendas das sereias com seus inícios na Grécia Antiga, passando pela Floresta do Suicídio, Aokigahara, no Japão, a construção de Kiernan para Imp é bastante natural, orgânica, e por mais estranha que seja a forma não-linear que essa história, tudo se encaixa e faz sentido.

A Menina Submersa, de Caitlín R. Kiernan

A Menina Submersa foi uma grande e feliz surpresa, que estava presa na minha estante e acabou se tornando um livro enorme para mim. Se esse texto não elucidou completamente o porquê, é porque é uma sensação meio abstrata, até um pouco difícil de se colocar em palavras, e dizer qualquer coisa a mais do livro pode dar spoilers que seriam melhores se fossem descobertos pelo leitor.

A edição brasileira tem a tradução de Ana Resende e Carolina Caires Coelhos, e foi lançada pela editora DarkSide.

Você pode adquirir o livro aqui: Amazon | DarkSide

E o próximo lançamento da autora, O Mundo Invisível Entre Nós, já está em pré-venda: Amazon | DarkSide




Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Um comentário:

  1. É... esse livro foi uma porrada pra mim. Comprei quando lançou, era ainda a edição de capa comum, e foi uma viagem de ácido essa leitura. Não é um livro fácil e você termina meio sem saber o que leu. Tem que digerir aos poucos. E é um livro muito bom, apesar de ser uma leitura muito doida.

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