Paternidade e horror em O Iluminado, Algo sinistro vem por aí e Changeling


Durante minha leitura de Dança Macabra, meu livro de cabeceira do Stephen King, que eu leio já faz três anos e tento acompanhar as referências que ele cita, me deparei com Algo sinistro vem por aí, livro de Ray Bradbury lançado em 1962. Na hora me senti atraída e queria muito ler o livro. Enfim, o momento chegou.

Na parte traseira da capa, uma das citações era de Seth Grahame-Smith, que escreveu Orgulho e Preconceito e Zumbis e Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos e fez algumas outras coisas divertidas, e que me chamou atenção:

Se O Iluminado me aterrorizava com a possibilidade de que meu próprio pai pudesse me matar, Algo sinistro vem por aí postulou algo muito mais assustador e muito mais provável: que ele não seria capaz de me salvar se alguém o tentasse.

Por ironia do destino ou não, o livro que tinha lido antes dele era o próprio O Iluminado, então não posso negar que essa citação mexeu comigo. Sabia que estava no rumo certo quando me preparei para essa leitura.

Something Wicked...

Em Algo sinistro vem por aí conhecemos dois jovens, Jim Nightshade e William Halloway, vizinhos e amigos desde sempre, que nasceram com poucos minutos de diferença. Jim vive somente com a mãe, enquanto William vive com a mãe e o pai. Mas há algo interessante no livro: nós sabemos pouquíssimo sobre as mães dos garotos. Toda a ação e aventura é focada nos dois jovens, e no pai de Will. O pai de Will, Charles Halloway, zelador da biblioteca da cidadezinha, sofre muito para criar o filho pois é um homem mais velho, e acredita ser velho demais para conseguir acompanhar o crescimento do jovem. Quando um estranho circo chega na cidade, Will e Jim precisam lutar com o que puderem para vencer um horrível plano do dono do circo: O Homem Ilustrado, um personagem recorrente de Bradbury — que aqui utiliza o conceito para o Sr. Dark, mestre de picadeiro e cerimônias, e um homem que carrega todos os pecadores em sua pele.

O pai de Will faz o possível para ajudar o garoto e o amigo, e procura de todas as formas lidar com essa diferença enorme de idade. O livro acaba sendo uma grande campanha sobre o relacionamento entre pais e filhos (homens, deixando bem claro, poucas são as menções sobre mulheres na história, e o sentimento é um pouco de "clube do bolinha"), sobre apoiar suas crianças, protegê-las da melhor forma que puder. Charles é um homem que tem uma família mas se acostumou muito a ficar sozinho, sempre esperando pelo melhor, e quando percebe que seu filho está em perigo e precisa agir, acaba descobrindo muito sobre si mesmo.

Algo sinistro vem por aí mostra realmente que é difícil um pai proteger seu filho de todos os perigos que estão lá fora, como bem disse Grahame-Smith na citação que expus no início do texto, mas ele pode tentar e aprender muito no processo.

O que é que há, velhinho?

Já em O Iluminado, livro de Stephen King lançado em 1977 nos Estados Unidos, nós acompanhamos um tipo totalmente diferente de paternidade. Jack Torrance está bem distante do pai de Will Halloway. Escritor com problemas com bebida, Jack até tenta e se mostra um pai amoroso, mas o Overlook é forte demais para ele. Não podemos negar, entretanto, a predisposição de Jack em ser violento e aterrorizante com Danny e Wendy. Mais do que uma obra sobre a assombração de um hotel assustador, O Iluminado trata muito da questão do alcoolismo, de erros que podem destruir um relacionamento familiar, e até mesmo de masculinidade tóxica. Jack Torrance é, sobretudo, um homem criado com um pensamento antiquado. A ideia de provedor, de sucesso, tudo isso era dele antes mesmo do Hotel entrar em cena.

Em O Iluminado o perigo esteve esperando muito próximo, mesmo quando a família Torrance não estava no hotel: Jack é uma bomba pronta para explodir. E explode (de diversas maneiras, veja bem). Levando em consideração o final do filme e o final do próprio livro, sabemos que o resto da vida de Danny Torrance foi sem o pai fisicamente, mas uma sombra ainda pairava sobre ele. E, em Doutor Sono, podemos ter um vislumbre das consequências daqueles episódios violentos de sua infância. O ciclo, enfim, o medo, não terminou junto de Jack.

Jack Torrance está bem longe de um pai dos sonhos. O personagem foi desenhado de forma assustadora para mostrar o terror familiar de forma mais pura, novamente utilizando a citação de Grahame-Smith: não estamos falando de um assassinato somente, e sim de um homem que tenta matar o próprio filho. Ele é um homem terrível, e a bebida tem muita culpa nisso, e o hotel tem sua parte nessa destruição toda também, mas principalmente Jack Torrance e ele mesmo foram determinantes para que tudo fosse para os ares.

Apollo Kagwa se sentiu solitário pra caralho

E chegamos em Changeling. Lançamento recente da editora Morro Branco aqui no Brasil, o livro de Victor LaValle (que escreveu A Balada de Black Tom, que já comentei aqui) é uma obra incrível também sobre paternidade, e foi o terceiro livro em sequência que li com o tema. Mas, ele é diferente dos outros dois.

Lançado em 2017 nos Estados Unidos, Changeling já pega uma nova noção de paternidade: os novos pais. É bastante comentado no livro a questão desses homens que tentam compartilhar as tarefas com as mães, que levam seus filhos para passear, que tiram dezenas de fotos das crianças para postar em suas redes sociais (e há também uma forte crítica a isso no livro).

Changeling acompanha a história de Apollo Kagwa, desde antes de seu nascimento até 10 meses depois do nascimento de seu filho. Conta como sua mãe chegou aos Estados Unidos, sozinha, emigrante da Uganda, como conheceu o homem de seus sonhos, como ele acabou sumindo de casa, como ela acabou o criando sozinho, como ele cresceu e se tornou um famoso colecionador e revendedor de livros, como conheceu sua esposa, e como se meteu em uma teia de loucura e seres mágicos no meio de Nova York.

E Apollo se esforça muito para ser um bom pai. Acaba magoando sua mãe, dizendo que queria que seu pai o tivesse levado com ele quando foi embora (e depois descobrimos o enorme erro que é esse pedido), magoa sua esposa dizendo que ela é que é o problema na possível destruição de sua família (quando, visivelmente ela está com problemas gigantescos pós-parto), e acaba aprendendo algumas valiosas lições durante sua busca por respostas.

Changeling acaba nos apresentando uma nova realidade, uma nova noção de paternidade, uma ideia muito mais próxima de nós: como o próprio LaValle fala tanto durante o livro, a questão de que os pais hoje, em um bom número, tentam ser melhores que seus pais foram para eles. Para além disso, LaValle apresenta um homem negro no papel de pai, ele mesmo sendo um homem negro escritor de terror, e isso é importante: é uma voz diferente das outras duas, não somente pelo tempo, mas pela questão da própria raça.

E Apollo Kagwa não é um personagem perfeito. Sabemos e vemos os erros que ele comete, notamos a insegurança que ele carrega consigo. Sendo, assim, um personagem extremamente bem escrito.

O mistério da paternidade

Por que esses livros acabaram me chamando a atenção?

Veja bem: existe um incontável número de filmes e livros que falam sobre as relações das mulheres com a maternidade, sobre como uma criança problema pode ser causa de uma mãe problema, ou que quem deve ser culpada, responsabilizada e tem que correr atrás de seus filhos são as mulheres. A paternidade precisa ser trabalhada, na ficção ou não, é verdade, mas na ficção de terror ainda mais. Esses três exemplos citados, de épocas diferentes, que trabalham a paternidade de uma forma diferente, são não só importantes para compreendermos ideias de paternidade daqueles momentos, como formas de entendermos e responsabilizarmos esses pais, até a refletirmos sobre pais melhores.

É importante observarmos como as obras lidam com os temas que se dispõem a tratar, ainda mais temas que são caros para nós. Os três livros, de três homens cujos nomes são importantes para a ficção de horror, lidam diretamente com a paternidade, e alguns outros podem ser citados numa lista dessas (como o Cemitério Maldito, também de King), e sem dúvida existem alguns outros exemplos de paternidade por aí, mas me peguei pensando nesses três, em particular, por serem os últimos livros que li.

O terror, como um todo, também nos ajuda a questionar nossas noções e nossos exemplos de relações. Não digo que existam tantos Jack Torrances e Apollos Kagwas por aí, que ou irão pegar um machado e correr atrás do filho ou vão adentrar a floresta de Nova York e, bem, não darei spoilers. Mas essas histórias contém subtextos, e esses subtextos nos ajudam a compreender muitas coisas, sobre nós e sobre a sociedade.



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Changeling: Amazon



Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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