Destrua os ricos e o patriarcado: Ready or Not e Satanic Panic



O horror social está em alta. E muitos virão me dizer "mas sempre esteve, não podemos retirar a carga política de uma obra", e eu concordo, isso nem tem que ser discutido. Entretanto, é importante perceber como um tipo de atenção nesse contexto foi reforçado nos últimos anos, até que chegamos em um ponto altíssimo durante 2019. Temos uma lista extensa dos filmes que foram lançados esse ano (e até nos últimos dois ou três anos, certo, principalmente no Ocidente/Estados Unidos — visto que essa tendência no Oriente já é mais antiga) que se seguram nisso, utilizam essa força, para contar suas histórias.


Novamente: eu não estou dizendo que isso é novo. E preciso deixar isso claro aqui, porque sempre é um argumento quando tentamos falar da importância do horror atual. "Esses filmes existem desde sempre! Você nunca viu O Bebê de Rosemary?" Vi. Vi bastante. Não é sobre isso. Não é só sobre a mensagem subjetiva desses filmes. É sobre como isso se tornou ainda mais forte nos últimos anos. O contexto atual ajuda muito, é claro, e a inserção de certos nomes na indústria do gênero ajudam também.

Nesse sentido, e ainda sobre essa força/tendência do horror atual, este ano tivemos dois lançamentos que chamam a atenção pela situação semelhante da qual suas protagonistas se encontram: Satanic Panic, dirigido por Chelsea Stardust, e Ready or Not, dirigido por  Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett.

Os filmes

Satanic Panic conta a história de Sam (Hayley Griffith), uma entregadora de pizza que gostaria de fazer umas boas gorjetas, mas acaba entrando em uma fria quando é enviada para um bairro bem rico de sua cidade. A garota não esperava que os ricos são ricos porque fizeram pacto com uma entidade maligna, e acaba sendo empurrada para a situação de quem será a sacrificada para o ritual acontecer.
Imagine você, sair de casa para o seu trabalho, quando um grupo de pessoas ricas e alucinadas resolvem te sequestrar e fazer picadinho (no sentido figurado, nesse caso)?



Ready or Not conta uma história semelhante. Grace (Samara Weaving) se casa com o homem que tanto ama, e precisa passar por uma tradição de família, um jogo, para que possa se sentir em casa e ser completamente aceita. O que é ótimo, todos gostamos de jogos. Mas, ao sortear que jogo seria, Grace por azar retira esconde-esconde, mas um esconde-esconde bastante absurdo. Grace precisa sobreviver a noite com a família do noivo tentando derrubá-la, para usá-la em um ritual (e dessa vez sem sentido figurado na questão do picadinho), pois há muitos anos fizeram um pacto com um tipo de demônio para prosperarem.



Se esconda se puder

Em ambos os filmes a figura principal precisa fugir e se esconder, caso contrário, vai acabar fazendo parte de um ritual para que as pessoas ricas fiquem ainda mais ricas. Em ambos os casos, as protagonistas são duas garotas, de classe mais baixa, que passaram já por alguns maus bocados na vida, e que estão tentando de alguma forma mudar seu futuro. E estamos falando de duas mulheres que desafiam aquilo que, tecnicamente, elas nasceram para ser: uma delas casada, e assim ascender; a outra mãe, e fazer com que os outros ascendam. E, spoiler, as duas conseguem escapar desse destino.

São duas jovens garotas que estão lutando para salvar suas vidas contra a tradição de enriquecimento de uma camada que já tem muito dinheiro. Sem subjetividade alguma, é um discurso bastante cru, é uma mensagem bastante objetiva.
Grace e Sam fazem parte da tradição antiga de final girl, mas que apresentam questões um pouco diferentes de suas antecessoras. Se antes a moral era algo que deveria ser observada antes de colocar um maníaco correndo atrás de uma mocinha virginal, nesses dois casos temos uma moça de origem "inferior" sendo perseguida por um sistema inteiro que quer matá-la e engoli-la. Cada vez mais a visão da antiga final girl tem se desenvolvido e se preocupado com algumas situações diferentes (como já dialoguei nos textos Dana, O Segredo da Cabana e alguns elementos comuns dos slashers e A Bruxa, Midsommar e vingança), para além da moral, subvertendo a si mesma, e cada vez ficamos mais felizes de ver esse desenvolvimento.

Mas, algo também tem que ser observado, pois estamos falando de desigualdade e machismo, mas a questão de raça não é questionada em ambas as obras. São duas garotas brancas, e isso tem que ser levado em consideração. A quantidade de pessoas não-brancas no filme deixa a desejar quanto a uma crítica mais aprofundada sobre desigualdade.

Satanic Panic e Ready or Not são dois filmes importantes, cujo lançamento no Brasil nós não temos previsão. Mas, de toda a forma, apresentam discussões interessantes. É significativo ver os dois filmes, acompanhar a história de ambas as protagonistas, ver como elas conseguem escapar desse terror, cada uma de sua forma.
Em momentos como o que estamos vivendo, é extremamente feliz ver como o cinema de horror pode trabalhar. Ele opera através de nossos anseios. E temos hoje em dia uma das maiores levas de cineastas que compreendem esses anseios e entregam filmes deliciosos, divertidos, provocativos e que conseguem, em nível profundo, debater questões que precisamos ficar atentos.


Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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