O Beijo do Deus Sombrio, C. L. Moore

O Beijo do Deus Sombrio, C. L. Moore

Quando pensamos em Weird Fiction, pensamos em nomes como H.P. Lovecraft, Ambrose Bierce, Algernon Blackwood, entre tantos outros autores que publicaram em revistas como a própria Weird Tales, etc. São os nomes que mais chegam até nós quando jogamos a palavra "weird fiction" no google. O que por vezes nos esquecemos, ou acabamos ignorando, assim como em todos os outros subgêneros dentro do horror ou ficção científica, é a presença feminina nesse meio.

C. L. Moore, ou Catherine Lucille, foi uma dessas mulheres que escreveu no subgênero de weird fiction, uma das pioneiras do chamado subgênero espada e feitiçaria, e que pouco se ouve falar hoje em dia.

Sua única obra lançada no Brasil com tiragem ainda hoje é O Beijo do Deus Sombrio, que saiu pela editora Arte e Letra, com tradução de Ana Cristina Rodrigues. A história faz parte do ciclo de Jirel de Joiry, uma governante e guerreira do reino de Joiry, que, como conta no posfácio escrito pela tradutora, uma região que poderia ser parte da França Medieval. Nessa obra, Jirel se vê capturada por um homem tenebroso chamado Guillaume, e resolve descer até um estranho local, algo semelhante ao inferno, em busca de uma arma para derrotá-lo.

Este espaço descrito pela autora poderia facilmente ser um lugar das histórias de Lovecraft. Não por parecer uma cópia, mas pelo seu nível de estranheza enquanto em comparação com os cenários humanos ou sobrenaturais que por vezes são descritos em obras de terror. O próprio Lovecraft escreveu para a Weird Tales, quando a história de Moore foi publicada, para elogiar seu trabalho. A comparação entre os dois, aqui, é para podermos ter uma dimensão da escrita de Moore, dos detalhes apresentados em sua ambientação, do terror diante dos olhos da personagem. Mas, diferente de Lovecraft, Moore nos traz uma mulher protagonista disposta a lutar e vencer uma batalha para que seu reino seja salvo, uma mulher presa em crenças católicas, que teme por sua alma mortal mas mesmo assim percebe que precisa ir a lugares terríveis, precisa vencer.

A história é envolvente e interessante. Acompanhamos Jirel pela descida do túnel que a leva até esse estranho reino, nas profundezas do palácio de Joiry, encontrado por acidente por ela e pelo padre Gervase. O túnel parece ficar em uma dimensão além da nossa própria realidade, o que nos leva a lembrar de outra autora que surgiu anos depois. Na descrição de Moore, a descida para o túnel é estranha, tortuosa, da qual sente tonturas: "era como se as linhas exatas e peculiares do túnel tivessem sido reguladas com cuidado para atravessar o espaço polidimensional além de atravessar o subterrâneo (p. 22) e "pareciam desafiar a gravidade de forma estranha, ou talvez fossem levados por uma força fora do seu poder" (p. 23).

Se você leu Assombração da Casa da Colina talvez se lembre como Shirley Jackson descreve sua casa: como se todos os cantos estivessem errados. A noção de que esse locais não são normais, não seguem as leis da física da forma que conhecemos, são "tortos", demonstram uma ideia de que o estranho, nessas pequenas coisas, pode ser absolutamente aterrorizante. Se Jackson conheceu o trabalho de Moore e isso a inspirou, não sabemos. Mas percebemos como essas obras podem dialogar de certa forma, e de como essas mulheres, muitas vezes esquecidas, possuem uma coerência interessante dentro de suas narrativas, nesses pequenos detalhes.


Ao chegar nesse local de estranhezas, com criaturas terríveis rondando sua passagem, Jirel encontra uma figura que lhe dá um presente para derrotar Guillaume. Jirel consegue pegar esse presente ao beijar uma estranha estátua "alienígena", encontrada em um palácio dessa região. A sua volta para a superfície é ainda mais terrível que a descida, pois Jirel começa a perceber que sua sanidade pode estar por um fio se o amanhecer chegar, em que ela possa ver todas as figuras aterrorizantes que habitam o local.

O final pode parecer estranho ao que estamos acostumados hoje, mas seria difícil julgar sobre a atitude de Jirel sem conhecer o resto de sua história. Ao derrotar Guillaume com um beijo fatal, o mesmo cedido pela estátua do Deus Sombrio, Jirel não se sente satisfeita, e acaba entrando em um estado de terror por si mesma. Se uso muito a palavra "estranho" e seus derivados é porque a obra é permeada por essa sensação. Tudo é muito estranho, bizarro, é uma narrativa que se encaixa perfeitamente no weird fiction. Como escrito no livro Monster, She Wrote:

(...) para Lovecraft, uma história de weird fiction tem uma qualidade etérea porque lida com coisas além do mundo físico. Incorpora o medo cósmico, ou o medo do desconhecido e do desconhecimento.

(em tradução livre)

Catherine Lucille Moore se tornou C. L. Moore para continuar escrevendo e manter seu emprego, para que seus empregadores não imaginassem que ela mantinha uma outra vida como escritora de ficção especulativa. Nascida em 1911, Moore começou a publicar na Weird Tales em 1933. Trabalhou em colaboração com seu primeiro marido, Henry Kuttner, até a morte dele em 1958 em diversas obras literários. Após 1958. deixou a escrita literária, mas continuou lecionando em seu curso de escrita pela Universidade do Sul da Califórnia, e fez alguns trabalhos de roteirista para a Warner Bros. sob o nome de Catherine Kuttner, mas parou em 1963. Moore faleceu em 1987.

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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