Shirley Jackson, Sempre Vivemos no Castelo, e a falta de interesse nas obras femininas


Gostando ou não das narrativas de Shirley Jackson, a importância da autora para a ficção de terror é imensurável. Tendo influenciado autores como Stephen King, que sempre a menciona em suas memórias ou livros de não ficção ou prólogos e epígrafes, é assustadora também a falta de divulgação, interesse e busca por suas obras.

Ao longo da vida desse site publiquei três resenhas da autora, que foi tudo que saiu dela aqui no Brasil nos últimos anos: Sempre Vivemos no Castelo, A Assombração da Casa da Colina e A Loteria, conto que saiu na coletânea Contos Clássicos de Terror (cujo livro comprei somente pelo nome da autora, sim).

Quando a série A Maldição da Residência Hill saiu, imaginei que, talvez, fossemos ter uma maior visibilidade no nome da autora. Afinal, a série foi um sucesso. Mas não foi o que aconteceu. Mais ou menos ao mesmo tempo em que A Maldição da Residência Hill saiu, estava sendo lançado por festivais a adaptação cinematográfica de Sempre Vivemos no Castelo. A parte engraçada, ou nem tanto, é que é um daqueles filmes que é lançado, ninguém fica sabendo, não tem divulgação, ninguém se importa.


E você pode estar se perguntando se não é porque o filme é ruim, certo? Pois não, não é.

Protagonizado por Alexandra Daddario como Constance Blackwood e Taissa Farmiga como Merrycat Blackwood, o filme ainda conta com a participação de Crispin Glover como o tio Julian, e Sebastian Stan como primo Charles. A direção fica por conta de Stacie Passon, e o roteiro por Mark Kruger. Pelo elenco pode-se imaginar que o filme teria pelo menos um pouco de divulgação, mas não, não teve.

Então, talvez, a história seja ruim?

Também não. Shirley Jackson escreveu Sempre Vivemos no Castelo em 1962, um dos seus últimos romances. A história acompanha as duas irmãs, Constance e Merrycat, que vivem em uma casa afastada da cidade, com seu tio Julian, isoladas da convivência pois, após um terrível acontecimento em que todos os familiares morreram, Constance foi considerada culpada. Desde então, a cidade transformou as Blackwood restantes em párias, causando desconforto sempre que Merrycat vai até a cidade (já que Constance tem agorafobia). A narrativa de Jackson é envolvente, questiona o papel dessas personagens, levanta dúvidas sobre a inocência ou culpa de Constance, reflete anseios e vontades de uma mente perturbada como de Merrycat, que narra o livro em primeira pessoa, e tem um dos primeiros parágrafos mais fascinantes de narrativas de terror do século XX:

Meu nome é Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e moro com a minha irmã Constance. Volta e meia penso que se tivesse sorte teria nascido lobisomem, porque os dois dedos das minhas mãos são do mesmo tamanho, mas tenho de me contentar com o que tenho. Não gosto de tomar banho, nem de cachorros nem de barulho. Gosto da minha irmã Constance, e de Richard Plantagenet, e de Amanita phalloides, o cogumelo chapéu-da-morte. Todo o resto da minha família morreu. 

Esse primeiro parágrafo não só deixa uma informação importante pro livro, de que a família Blackwood está morta, como também já demonstra boa parte da consciência estranha e do fluxo de pensamentos de Merrycat, confusos, até desconexos. Isso já deixa bem claro o tipo de narrativa que vamos acompanhar dali pra frente. Shirley Jackson sempre soube agarrar o leitor pelo colarinho e arrastá-lo para dentro de suas histórias.

A adaptação é bastante próxima da obra original. As atuações ficaram ótimas. Todas as adaptações para que a história funcionasse em uma tela e não em um livro transformaram o filme em uma experiência incrível, funcionando de forma excelente para os que gostam do livro, gostam da autora, gostaram de A Residência Hill, ou que gostam de uma boa história assustadora e tensa. Taissa Farmiga entrega uma Merrycat espetacular, da forma como muitos imaginaram a personagem: ausente da realidade, com todos os seus rituais de encantamento e tentando fugir daquilo que a trouxesse de volta, que a tirasse de seu castelo e da vida que tem com Constance e tio Julian.


Em tempos em que o terror está tão em alta quanto parece, que diretoras tem feito trabalhos brilhantes, que narrativas femininas são incentivadas por, pelo menos, uma parte da população, que se percebe a necessidade de conhecer outros pontos de vista, é uma pena que não houve sequer um burburinho sobre a obra. Conhecer autoras, filmes que foram inspirados nas obras dessas autoras, ler sobre mulheres que foram apagadas e esquecidas, descobrir e revelar que essas mulheres moldaram e ainda moldam o gênero de terror e tantos outros, é algo importante a ser feito. É um trabalho que precisa ser feito diariamente.

Na mesma situação em que se encontra Sempre Vivemos no Castelo, também temos Estranha Presença, de Sarah Waters, que foi adaptado para o cinema como The Little Stranger, com Domhnall Gleeson e Ruth Wilson, com direção de Lenny Abrahamson e roteiro de Lucinda Coxon; e tantas outras obras que não chegam até nós, ou que acreditam que não sejam importantes. 

Sempre Vivemos no Castelo é uma adaptação incrível de um livro incrível. Infelizmente, nenhum streaming trouxe a obra para o Brasil, e me surpreenderia muito se trouxesse.

Esse texto é um convite para conhecer a obra da Shirley Jackson, em todas as suas formas: livros, adaptações cinematográficas, adaptações em série, da forma que for. Um grande nome do terror, que merece destaque, merece estar ao lado dos grandes nomes da ficção de terror, merece ser lembrada como a excelente autora que foi.





Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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