Home Invasion e, de novo, a vulnerabilidade da mulher como produto


Eu gosto de filmes do subgênero home invasion. Antes que digam que eu não gosto, eu gosto. Home invasion é aquele subgênero em que pessoas ficam presas em uma casa e são perseguidas por algum assassino, psicopata, maníaco, qualquer coisa dessas. Um dos filmes que mais gosto, inclusive, é desse subgênero. Hush, dirigido por Mike Flanagan, é um dos meus filmes preferidos do diretor e um dos filmes que eu sempre recomendo por aí.

Mas eu proponho uma reflexão: esses filmes geralmente apelam para uma mulher, ou sozinha ou com seus filhos, sendo perseguida dentro de casa por algum (ou alguns) maníacos.

Hush é um desses filmes. A protagonista é uma mulher, escritora, que vive sozinha, e é surda. Durante um dia normal, um sádico, sem nenhuma motivação aparente, senão querer destruir coisas, a persegue em sua própria casa. Como comentou a Michelle, do Feminist Horror, em uma de nossas muitas conversas sobre o gênero, isso é algo bastante comum. É comum vender a vulnerabilidade feminina, disfarçada de força, nesses gêneros. Quando acompanhado dos filhos e da família, essas mulheres nos mostram como mães podem fazer de tudo por aqueles que amam.

"Jéssica, mas você não acha que vocês estão sendo exageradas?"


Bom, não sei, vamos ver.


Um Estranho em Minha Porta (1993): uma babá é atormentada por um psicopata
Mensageiro da Morte (1979): outra babá é perseguida por outro psicopata
Violência Gratuita (2007): uma família é perseguida por dois psicopatas — que tem duas versões de pôsteres, uma dos próprios psicopatas e um da mulher.
Medo (1996): uma mulher se apaixona por um cara mas, bem, ele é mais um psicopata.


Quarto do Pânico (2002): uma mãe e sua filha ficam presas em sua casa com um grupo de assaltantes.
Um Clarão nas Trevas (1967): uma mulher recentemente cega acaba presa com uma dupla de assaltantes.
O Intruso (2014): um homem instável aterroriza uma mãe e suas duas crianças.
Hush (2016): já citado anteriormente, uma mulher surda é perseguida em sua casa por um maníaco.


O Homem nas Trevas, de 2016, de Fede Alvarez é um caso interessante. Na verdade, a mulher é uma das invasoras da casa de um veterano de guerra, com outros dois amigos, mas sofre o diabo nas mãos desse maluco. Ele não só a rapta, como a mantém presa e quer que ela gere um filho dele (pois ela acabou soltando a mulher presa anteriormente, então percebam onde eu quero chegar).

Com isso eu não quero afirmar que todos os filmes de home invasion são sobre mulheres vulneráveis ou que dão a volta por cima e sobrevivem ou que são levadas até extremo desespero e despertam uma fúria descontrolada. Mas observem os pôsteres. Procurem listas desses filmes e deem uma olhada por si próprios.

Ano passado, 2018, James McTeigue, o diretor de V de Vingança e O Corvo (o do Edgar Allan Poe), dirigiu um filme chamado Invasão. O filme tem como protagonista Gabrielle Union, que está excelente em seu papel. E observem o pôster:


Em determinado momento do filme, o vilão, Eddie, interpretado por Billy Burke, diz à Shaun, a personagem de Gabrielle, que ela é uma mulher impressionante. Shaun responde que ela é somente uma mãe. Isso não só reduz a personagem a somente mãe como também passa aquela mensagem: uma mãe é capaz de fazer tudo por seus filhos. E seria uma mensagem positiva, não fosse a necessidade de empurrar a mulher, a mãe, até o pior de seus extremos somente para que ela reaja.

É compreensível, sem dúvida, o que pode parecer: "nossa, olha que foda, ela é uma mãe muito foda", mas pensem mais um minutinho sobre uma outra ideia encaixada aí: "ela é só uma mãe, ela não é nada impressionante porque todas as mães são fodas desse jeito". Entendem?

"Mas Jéssica, o filme de horror deve causar desconforto, e isso é bastante comum."

Sim, mas nós não vemos pais nesse papel, somente mãe, sempre mães. Ou babás. Ou mulheres solitárias, que escolheram, por qualquer motivo, viverem sozinhas. Os pais, quando estão nos filmes, tem pouco destaque. No caso de Violência Gratuita, por exemplo, quem está no pôster não é a família: é a mãe. A mulher do filme. Por que o desconforto precisa sempre vir da figura feminina? É uma pergunta que venho repetindo faz um tempo, e não encontro uma resposta plausível.

"Jéssica, mas assim você quer destruir os filmes de terror!!!! não vão sobrar filmes de terror sem esses elementos!!! você quer acabar com o gênero!!!"

Será mesmo?

Eu ofereço uma opção, que trabalha muito bem com o subgênero e não tem esses problemas.


Nós, lançado esse ano, dirigido por Jordan Peele, talvez seja o filme mais perfeito ao tratar de home invasion. Nós temos uma família presa em uma casa com seus doppelgangers, e temos uma mãe, com dois filhos, e um pai meio bobalhão, e até aqui tudo isso poderia ser igual a qualquer outro filme de home invasion. Mas Peele vai além, ele coloca ali uma camada a mais, e essa camada nos apresenta 1) uma mulher que não teme só pelos seus filhos, ela tem outros problemas com o que se preocupar; 2) o sofrimento ali é muito bem equilibrado e todas as suas explicações ultrapassam DEMAIS a ideia de que "nossa, uma família ali frágil, vamos atrás deles". Foi somente um elemento ali que foi colocado e fez com que o filme não caísse no lugar comum de home invasion, e ainda é um filme de home invasion: existe a família, existe a casa, e existem perseguidores, e a família é presa na casa pelos perseguidores.

E eu realmente poderia falar por horas de todos os acertos do Peele em criar tensão, domínio de gênero, lidar com questões que precisamos ainda bater na mesma tecla e que ele faz tão bem, mas esse não é um texto sobre o Peele.

A questão aqui é que existem saídas e existem formas de se fazer filmes sem que tenhamos a necessidade de apelar para, novamente, a vulnerabilidade da mulher disfarçada de força. Não acreditamos mais nisso. Assim como todos os outros textos, esse texto é um questionamento, um pedido de reflexão sobre o que se consome e sobre narrativas que se repetem. Repensar essas narrativas e refletir sobre elas pode fazer com que velhos hábitos morram e possam descansar de uma vez por todas.




Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Um comentário:

  1. Esse subgênero é um dos que menos me atraem justamente por essas características. Pra mim é sempre a mesma mensagem: uma mulher sozinha nunca está segura então vamos explorar isso já que a pretensa dificuldade de sua sobrevivência será comprada mais fácil pelo telespectador. É curioso - nem tanto na verdade - como a visão de superação é bem aquela coisa masculina de poder pela violência. O mundo vai atacar essas mulheres e se elas querem viver terão que superar fisicamente os homens. A sobrevivente é essa mulher espetacular que fez por merecer seu espaço e venceu a "superioridade biológica" masculina, porém ao mesmo tempo essas mulheres só são autorizadas à violência quando protegem algo - a casa, ou alguém- os filhos. Detestei O Homem nas trevas justamente por isso. O filme tem pontos interessantes, mas vende o verniz de diferentão sem entregar nenhuma novidade real. O que movimenta a personagem central é o elemento materno em relação à irmã, e ao homem vítima não é dada vulnerabilidade real. O homem é um super heroi que dá um baile em três adultos jovens e perfeitamente capazes e o filme ainda tira aquele enredo misógino e desnecessário da cartola, afinal uma mulher que não tem a integridade sexual ameaçada não está realmente em perigo, não é mesmo? Por que não é uma mulher nessa posição do antagonista? Por que o homem de Homem nas trevas é crível pra tanta gente? Por que esses homens sempre são capazes e ameaçadores, mesmo quando 'debilitados'pela velhice, diferença numérica e alguma deficiência física?
    Desculpa ai o desabafo, mas tava guardando isso tinha tempo.

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