Byzantium e a reformulação e reutilização de elementos dos mitos de vampiros


O mito do vampiro está aí na humanidade faz umas boas centenas de anos. Desde, no mínimo, a Grécia Antiga temos registros de histórias sobre criaturas mortas-vivas que se alimentam de sangue, ou de vida, independente de qual forma. E um dos motivos de ter sobrevivido por tanto tempo é sua facilidade de alegoria, sua facilidade de mudança, e sua facilidade de adequação.
Se um dos maiores medos humanos é a morte, uma das grandes criaturas aterrorizantes da humanidade é o vampiro. Ele morreu, mas retornou, e agora se alimenta da morte de outras pessoas. Ele é um amálgama desse terror da morte.


Byzantium é um filme de 2012, dirigido por Neil Jordan e escrito por Moira Buffini (que também escreveu o filme de Jane Eyre, de 2011). O filme acompanha Clara (Gemma Arterton) e Eleanor (Saoirse Ronan), mãe e filha, vampiras, que fogem de cidade em cidade tentando encontrar um pouco de paz durante seus muitos anos de sobrevivência.
Ao longo do filme também descobrimos elementos do passado de ambas, e são esses elementos que transformam o filme em algo realmente interessante.

Veja bem, acompanhar filmes de vampiros, ainda mais filmes de vampiros que tentam ser mais delicados e trabalham com sensibilidades e a questão mais filosófica de vampiros, nem sempre dão certo. Temos destaques de sucesso, como Amores Eternos (2013) e Kiss of the Damned (2012) (que escrevi sobre aqui), mas é muito fácil que esses filmes deem errado.
E se você gosta dessa face do vampiro, talvez Byzantium seja uma boa escolha para você. Além de trazer essa ideia mais sensível do vampiro e todas as dificuldades, ainda tem alguns detalhes que transformam o filme como uma bela homenagem aos fãs das histórias de vampiros.


A história de Eleanor e Clara começou durante as guerras Napoleônicas. Clara foi cortejada por um jovem chamado Darvell (Sam Riley), mas acabou escolhendo ir com Ruthven (Jonny Lee Miller), capitão de um navio. Mas as coisas dão errado, bem errado. Ruthven é um cretino, que acaba levando Clara para um bordel. Desse relacionamento, nasce Eleanor, que é deixada em um orfanato. Clara descobre um imenso segredo de Darvell e Ruthven: ambos são vampiros, e fazem parte de uma ordem secreta chamada Brethren.
Clara rouba o segredo deles de como se transformar em vampira, mas a ordem não aceita mulheres. É a partir daí que a perseguição começa.
O detalhe do nome desses personagens é interessante, pois Darvell é o nome do personagem principal de Fragmento de um Relato, de Lord Byron, escrito por volta de 1816, um pedaço de algo que narra a história de um vampiro. Por volta de 1818, Polidori, que era secretário e faz tudo de Byron, escreveu O Vampiro, que tinha como protagonista Lord Ruthven, personagem baseado no próprio Byron. O Vampiro, ao que tudo indica, seria um aperfeiçoamento e melhora desse pedaço de algo que Byron escreveu. Byron e Polidori, depois de um tempo trabalhando juntos, começaram a se odiar, e Polidori utilizou Ruthven, que era um apelido antigo de Byron, como forma de expressar todos esses sentimentos negativos.
E isso seria só a questão de um nome e uma homenagem, se não fossem outros elementos, como o roubo de um anel de Darvell, e também o roubo de um mapa, que acabam aproximando ambas as histórias desses contos. São essas pequenas coisas que acabam tornando Byzantium um filme interessante pra você, se assim como eu, gosta de histórias de vampiros e histórias dos vampiros.


Eleanor acaba se apaixonando por Frank (Caleb Landry Jones), um rapaz que tem leucemia, e é através dela e seus sofrimentos enquanto uma jovem de 206 anos que entra a parte da dor de ser uma criatura centenária. Assim como os personagens de Amores Eternos, acabamos tendo um vislumbre dos questionamentos que envolvem estar viva por tanto tempo. A questão de "benção ou maldição" é respondida de forma muito óbvia "maldição" quando Eleanor começa a contar sua história, desesperada por ser ouvida, desesperada para que acreditem nela.

Mas, claro, nem tudo são flores. O filme conta com problemas. Estupro é usado como recurso narrativo, e sem necessidade, tendo infinitas outras saídas para que Ruthven se vingasse de Clara, e não sendo por meio da Eleanor.
Clara é uma mulher que tenta sobreviver e prover para sua filha, que considera ainda uma garotinha. Suas escolhas para isso são questionáveis, é uma mulher irresponsável, mesmo tendo sobrevivido por tanto tempo. Novamente, o filme cai naquela questão do esforço feminino pela maternidade, como mencionado no texto Home Invasion e, de novo, a vulnerabilidade feminina como produto.
Em contraponto, o filme deixa bastante perceptível como o mundo é um local agressivo para uma mãe solteira com uma jovem adolescente. Tenta passar, como já foi dito, que é necessário violência e fuga para sobreviver nele.
Dito isso, Clara e Eleanor são personagens que fazem com que queiramos acompanhar ao longo de quase duas horas de filme. A relação das duas funciona e ambas as atrizes fazem trabalhos bons.

Com todas as ressalvas feitas, Byzantium ainda é um filme interessante. A transformação de vampiros não é feita através da mordida, e como essa transformação acontece não é muito bem explicada, mas é uma adição interessante ao mito. Além disso, tem momentos e cenas incríveis de serem vistos.

Até a publicação desse texto, o filme estava no catálogo da Netflix.

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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