O desconforto no terror não precisa ser contra as mulheres


Já escrevi anteriormente que sua preferencia no terror não torna a preferencia dos outros inválida. E acho que é algo que falta ser entendido por uma enorme parte do pessoal que gosta de terror. Principalmente quando estamos falando de coisas que nos prejudicam enquanto consumidores do gênero e que não aguentamos mais certas narrativas.

Dia desses eu vi Mal Nosso, filme nacional de 2017, dirigido por Samuel Galli e que entrou recentemente para o catálogo da Netflix. O filme não funcionou comigo. Adorei algumas coisas, algumas cenas são ótimas, mas o começo me deixou realmente desinteressada: o filme opta por mostrar que o vilão é vilão mesmo porque gosta de assistir e cometer violência com mulheres. E, na minha concepção, eu entendo que é um tipo de escolha que eu não sou obrigada a gostar. Não é de hoje que eu tenho me colocado a refletir essas escolhas, e sei que essas reflexões tem feito outras pessoas refletirem também.

É algo que eu escolhi não compactuar. E por mais que eu tenha gostado do resto do filme, de início ele já não funcionou para mim. Mas isso não tem nada a ver com não apoiar os filmes de terror, ou com não apoiar os filmes de terror nacionais. Também não estou falando aqui que o diretor é horrível ou que todos que gostaram do filme vão sair agredindo suas namoradas, como alguém do twitter resolveu argumentar (e ainda me mandou assistir novelas, já que o terror era violento demais pra mim).

Isso tem a ver com não apoiar a repetição de escolhas de roteiro que não representam uma grande parte de quem consome terror, que somos nós, mulheres. Não quer dizer também que o filme não tenha pontos positivos, tem. Mas é necessário ressaltar algumas coisas negativas, visando que outras pessoas observem mais atentamente esses pontos em outros filmes, até que não tenhamos mais esse problema (que é uma enorme utopia, mas seguimos na luta).

Tecnicamente o terror é um gênero que lida com o desconforto. É feito pra te tirar do seu local de conforto, é fazer refletir sobre convenções sociais e te forçar a ver coisas de outra forma (enquanto ele não age como agente da norma, claro, e é aí que existe uma divisão interessante no terror, mas eu já falei disso aqui: O terror socialmente consciente).

"Se é pra gerar desconforto, por que então as cenas de abuso e violência em Mal Nosso não funcionaram com você, Jéssica?"

Porque é algo já gasto no terror. É uma escolha muito óbvia, é apelar para "o elo mais fraco da corrente", sendo que nós não somos esse elo. Estamos cansadas de ser usadas como impulso para que o vilão seja vilão, para que o anti-herói se redima, para que o herói continue sendo o exemplo de homem que ele precisa ser. O cinema de terror evoluiu. Ele não precisa desse tipo de narrativa. Ele precisa de escolhas melhores, e um pouco mais conscientes. O problema não é usar violência nem clichê. O problema é não perceber que nem só de violência vive o terror e alguns clichês precisam ser abandonados.

Enquanto alguns argumentam que o filme foge da mesmice que chega até nós pelo mainstream internacional, eu me vejo na posição de pensar essa mesmice e pensar se ele foge mesmo. E não, ele não foge. Ele tem escolhas ótimas, cenas incríveis, mas começa com uma escolha muito comum em muitos dos filmes do gênero: um homem que comete violência contra mulheres e que vai receber vingança por isso.

O mainstream internacional, inclusive, tem feito um trabalho interessante e alguns avanços em alguns desses aspectos. O terror nacional também. Animal Cordial, A Sombra do Pai, As Boas Maneiras, fogem de muitas mesmices. Percebo as pessoas jogando pedras no mainstream como se ele fosse toda a podridão contida no terror, e ele não é. O mainstream muitas vezes tem sido utilizado como sinônimo para jumpscare. E, nesse sentido, o mainstream funciona porque as pessoas gostam dessa tendência, gostam desse tipo de filme, e não há nada de errado nisso.

Um lembrete importante é que: gostar do terror mainstream ou do terror underground não te faz melhor que ninguém. Mas se recusar a entender as críticas que são feitas quando um filme sai, por mais que ele seja bom, e por mais que nós gostemos dele, é um negócio complicado.

Novamente: minha única crítica ao filme são as escolhas do início, que considerei desnecessárias. Não estou dizendo que o filme não deve ser visto, não estou dizendo que o filme é ruim, como se deu a entender esses dias atrás quando me mandaram ir assistir novela. Estou questionando a escolha da primeira meia hora de filme, que se for retirada praticamente não faz diferença em seu desenvolvimento. É necessário que isso seja compreendido se quisermos que o terror saia do lugar comum que esteve já durante os últimos 70 anos.




Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Um comentário:

  1. faço da minha opinião a sua. sempre sou otimista com produções nacionais... temos um mundo de motivos para se construir história ótimas, mas como disse a diretora de Animal Cordial, Gabriela Amaral, "não reconhecemos nossa história e nossos monstros" então como construir histórias realmente assustadoras sem apelar pra essa mesmice da violência ou invocação do capiroto... sei lá, como os coreanos por ex. estão reinventando o cinema de gênero por lá e sem querer reinventar a roda, só usando da própria cultura

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