Pequenas Realidades, de Tabitha King: como nossas obsessões podem nos destruir



As mulheres sempre estiveram presentes no terror. As vezes apagadas, as vezes esquecidas, as vezes ignoradas, mas sempre fizemos parte desse universo. Em grande parte, as obras de mulheres no terror atingem o patamar de grandes clássicos, grandes autoras e diretoras que, mesmo com um enorme esforço masculino para que sejam deixadas de lado, acabam sendo lembradas hora ou outra.


Tabitha King é, infelizmente, uma dessas mulheres. Uma escritora com narrativas interessantes, que explora alguns lugares e temas que poucos tentaram, foi por muitos anos ignorada aqui no Brasil. Sua única obra publicada no país, nos anos 1980, foi o livro As Miniaturas do Terror (Small World), da Editora Francisco Alves, com uma edição infelizmente não muito boa.

Aguardamos muito para que Tabi King fosse recuperada e republicada no Brasil. Stephen King, seu marido, tem diversos livros publicados e é um fenômeno de vendas; seus filhos, Owen King e Joe Hill também tem diversos livros publicados no Brasil. Estava na hora de Tabitha King voltar às prateleiras.



E ela está de volta, em sua nova casa, na DarkSide Books.

Sob o título de “Pequenas Realidades", com tradução de Regiane Winarski, a DarkSide Books nos traz esse enorme nome do terror contemporâneo.

Pequenas Realidades é um livro fascinante. Acompanhamos a história de Roger, um ex empregado do governo que acaba descobrindo o “miniaturizador”, que consegue transformar em miniaturas qualquer objeto que ele aponte a máquina; de Dolly, uma viúva e filha de um ex presidente dos Estados Unidos; de Lucy, uma viúva mãe de dois filhos, nora de Dolly, que trabalha construindo miniaturas; e de  um homem, curador de museu.
Todas essas vidas acabam sendo entrelaçadas em uma história digna de Twilight Zone, com um toque aterrorizante e tenso.

Muito pode ser dito pelas personalidades desses personagens. Roger é um homem hipócrita em diversos níveis, Dolly é uma mulher muitíssimo egoísta e amarga, Lucy é uma jovem que teve a vida acontecendo muito rapidamente, mas que é esperta e muito forte, e Nick é um homem que sempre teve tudo que quis, mas que precisa aprender a deixar de se colocar em primeiro lugar. Cada personagem possui algumas particularidades, e você vai odiá-los ou amá-los com intensidade. Tabitha King escreve personagens muito humanos, com necessidades humanas e decisões muito honestas com a individualidade de cada uma delas. Seus personagens não se perdem em suas ações.



Para quem gosta de narrativas mais diretas e objetivas, um defeito, talvez, é que sua narrativa começa confusa. De início, com a apresentação dos personagens, talvez seja difícil encontrar onde cada peça se encaixa. Mas, assim como um quebra cabeça, você monta o panorama geral e consegue se encontrar na história, e acaba encantado e preso à ela, precisando descobrir até onde isso vai dar, como essa história poderia terminar (e, assim como é da família King, não se apegue demais aos personagens).

Precisamos celebrar quando uma autora dessas volta a ser publicada no Brasil. O terror escrito e produzido por mulheres tem, cada vez mais, tomando de volta seu lugar, o lugar que merece. A linha DarkLove, da DarkSide, tem trazido livros incríveis que ajudam nessa luta, como Geek Love. A Suma, ao trazer Shirley Jackson, também contribui para que o público conheça um pouco mais sobre essas autoras.

Para comprar o livro: Loja DarkSide | Amazon

Este livro foi recebido da DarkSide como parceria. 

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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