[DICA DE FILME] Final Girl: erra mais que acerta, mas não é totalmente descartável


Final Girl é um filme de 2015, dirigido por Tyler Shields e escrito por Johnny Silver e Stephen Scarlata. O filme se concentra em um homem que passa a treinar uma garotinha por vários anos até que ela tenha idade suficiente para se vingar de um grupo de garotos que perseguem e matam mulheres loiras, sem motivo aparente.


O filme, em si, tem uma configuração interessante. William (Wes Bentley) perdeu a esposa e o filho para "um homem muito mau", e começa a treinar Veronica (Abigail Breslin) para combater esse tipo de "pessoas más", como uma justiceira, uma vingadora, uma garota treinada para matar, lutar, suportar dor e tudo o mais.
Isso, em si, poderia ser legal. Temos um incontável número de filmes de garotos treinados para serem heróis e se vingarem de algo horrível que aconteceu em seu passado. Bem conduzido, o filme poderia ter situações interessantes.
Mas escorrega em algumas questões bem básicas ao longo dos seus 90 minutos.
O texto abaixo contém spoilers, então é recomendável assistir ao filme antes da leitura. O filme está disponível na plataforma de streaming Netflix.

Começamos, por exemplo, com as próprias motivações de William. Um homem que parece dispor de dinheiro, e só conta que uma pessoa muito malvada assassinou sua mulher e filho, e, de repente, ele está disposto a treinar uma garota por 12 anos, para que ela encontre esse grupo de rapazes, que não são os rapazes que assassinaram sua esposa. Se ele planeja, de alguma forma, acabar com o mal do mundo, não se sabe, pois antes dos garotos caçadores de mulheres só há uma vítima nas mãos de Veronica, e a vítima só sofre um breve desmaio.
Então, você pode estar se perguntando "qual seria a real motivação desse homem tão bondoso?" eu não sei realmente, leitor, e acho que nem ele.

Não fosse só esse lapso de motivação, nós caímos naquele velho tropo que ninguém aguenta mais: a mulher do cara morreu, e agora ele busca vingança contra tudo e contra todos. Porque não existe nada mais que lance um ser humano pra frente. Só a morte de uma mulher próxima. Esse recurso é utilizado um incontável número de vezes, tendo até um nome pra isso: mulher na geladeira. Existem outras motivações, esse recurso é ultrapassado, e cada vez fica mais difícil de encarar, ainda mais em um filme que se chama Final Girl e tem uma protagonista feminina.



Se, a essa altura, você imagina que esse é um filme que brinca com tropos e estereótipos, e isso é proposital e poderia ser usado para o bem, eu não queria te decepcionar. Seria realmente muito legal. Mas não é essa a proposta do filme.

Temos então nossa heroína, nossa protagonista, Veronica. Sua relação com William não é das mais saudáveis.
Verônica, de forma romântica ou não, acaba se apaixonada por seu treinador. Ela foi criada dentro daquelas paredes, então é complicado dizer que é um amor puramente romântico ou se foi o único tipo de amor que ela conhece. Mas, para piorar a situação, em determinado ponto do filme Veronica tenta fazer com que seu treinador se atraia por ela, deita a seu lado, o "seduz", e isso acaba mostrando ela como uma mulher em busca de sexo enquanto ele é o homem forte que o nega, que não é seduzido pois "aquilo é errado".
A gente cai aqui em outro problema de "olhar masculino". Por que, afinal de contas, uma mulher PRECISA se atrair por um homem? Ela não pode ser só a máquina de briga que ele criou? Se fosse um filme com um protagonista masculino, ele também se apaixonaria pelo treinador? Provavelmente não. Veronica não poderia, então, manter uma relação até fraternal por William, já que ele começou a treiná-la tão cedo?
São questões que precisam ser feitas com filmes com protagonistas mulheres: se fosse um cara, seria a mesma coisa? A configuração seria diferente?
Não que não possa haver romance entre homens e mulheres em filmes de ação, mas não era a proposta desse filme, e não sei se tinha essa necessidade.

Entretanto, é necessário abrir um parêntese aqui sobre como é a relação de Veronica com as outras mulheres que aparecem (de forma muito rápida, é verdade) no filme. Ao se encontrar com uma das garotas que acompanha o grupo de rapazes caçadores, sendo namorada de um deles, Veronica conversa com ela enquanto toma milk shakes. Vai até lá "tirar informações" dela, mas acaba lhe dando conselhos importantes sobre como ela precisa de algo melhor, como ela pode ir embora se quiser, como ela não precisa esperar por migalhas. E é um diálogo interessante, até importante, mas são alguns poucos minutos do filme.



O filme se passa nos anos 1960, o que se torna bastante perceptível durante as cenas em que os rapazes são mostrados, antes da "caçada" de Veronica.
Durante a narrativa dos garotos, há uma aura de estranheza. Todos eles se vestem de terno. Luzes fortes são apontadas nos cenários, onde uma namorada e uma mãe estranhas/superficiais/quase plásticas que são deixadas em casa são mostradas para o público. É tudo muito artificial, e isso é algo interessante na construção do filme, como se toda a força e poder daquele grupo fosse construído em uma mentira.

A parte artística é interessante, e tem escolhas interessantes. Cenários são poucos: uma lanchonete estilo antigo, uma floresta, os lugares onde Verônica é treinada, as salas onde os garotos estão e são mostradas as relações fora da caçada.

Final Girl erra em muitos momentos. Os produtores deveriam ter se perguntado "se fosse um protagonista homem, as escolhas seriam as mesmas?" e talvez metade dos problemas seriam resolvidos. Mas, apesar de todos os pontos negativos e das questões que abordei no texto, sobre como os estereótipos são usados de formas que não deveriam, existem coisas que são legais de serem vistas. Veronica é uma personagem muito humana, e William também. É um filme muito didático sobre como não ser um adolescente mimado e crescer sendo um adulto que odeia mulheres. Entretanto, reforço: haviam outras formas de se contar essa história e dar esses exemplos.



Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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