Circo Mecânico Tresaulti, de Genevieve Valentine



Histórias ambientadas em circos tem uma grande possibilidade de serem mágicas e incríveis, ou de serem assustadoras e terríveis. Mesmo que nunca tenha sido fã de circos, é fascinante pensar na configuração dos participantes das tendas, na vida pessoal daqueles que compõe as atrações. Passando 24h juntos, como uma família, as vezes imaginamos como seria morar em trailers, viajando e se preparando para mais uma apresentação.

Em Circo Mecânico Tresaulti conhecemos uma terra devastada pela guerra, uma chefe de picadeiro com dons maravilhosos, e uma "família" tensa e assustada com a possibilidade de perseguição por meio de "homens de governo". O livro foi escrito por Genevieve Valentine, e traduzido por Dalton Caldas.


Boss, a chefe de picadeiro, tem um talento, dom, poder ou algo semelhante, um pouco estranho: ela consegue acrescentar partes mecânicas em pessoas que perderam membros ou outras partes do corpo, e as mantém vivas, trabalhando no circo. Mas claramente esse dom chamaria atenções indesejadas. Pessoas do governo, homens que buscam se manter no poder e que fariam qualquer coisa para vencer as guerras, conhecem os segredos de Boss, e ela não tem mais paz. Então, Boss e sua trupe precisam de toda a forma sobreviver e se esconder, ainda sim fazendo suas apresentações, noite após noite, pois o show não pode parar.

O livro não é narrado de forma cronológica. Cheio de flashbacks, conseguimos conhecer um pouco melhor os personagens incríveis que Genevieve Valentine escreve.Todos muito humanos, todos sofreram muito com um mundo em ruínas e perderam quase tudo, até encontrarem um lugar, no circo, para chamar de lar. Fizeram ali algumas "amizades", mesmo que não da forma convencional, mas que são capazes de evitar a solidão e recuperar, cada vez mais, um pouco de paz de espírito para almas atormentadas pela guerra.
Ao aceitar essas pessoas no circo, Boss troca seus nomes reais por seus nomes novos, como se renascessem para uma nova vida.



Temos dois tipos de narração: uma narração em terceira pessoa, e a narração de Little George, um personagem importantíssimo para a trama, mas que Boss não quis "consertar". Little George nunca esteve quebrado, como afirma Boss, e por isso ela tem outros planos para ele.

O livro é emocionante. Você se apega aos personagens mais difíceis e complicados, como Bird, uma acrobata que chegou ao circo como trapezista, mas que caiu, e quando caiu descobriu que não queria mais pertencer ao chão. Bird é tratada durante toda a história como louca, mas acaba sendo uma personagem maravilhosa de se conhecer. Temos também Elena, outra personagem com uma personalidade complicada, mas que conforme as histórias são contadas, conseguimos conhecer melhor e compreender suas escolhas e suas ideias. As intrigas entre Bird e Elena, bem como todas as desconfianças entre as duas e entre todo o resto dos personagens, são bem explicadas e conseguimos compreender seus problemas conforme os flashbacks avançam e conhecemos mais suas vidas anteriores ao circo ou do início do livro.

Genevieve Valentine nos traz uma história incrível sobre amizade e permanecer do lado daqueles que você ama, mesmo que a forma que você os ame não seja exatamente convencional. Conhecemos personagens interessantes, bem escritos, profundos, com uma melancolia e uma tristeza tangente, mas capazes de aproveitar a vida como podem, mesmo que falte algo a eles.

Se você gostou de Geek Love, de Katherine Dunn, Circo Mecânico Tresaulti é uma excelente leitura a ser feita a seguir. Histórias muito diferentes, mas que são ambientadas em circos e tem personagens femininas muito bem construídas, além de uma clara mensagem de compreender que o diferente pode ser apreciado, e que amizades devem ser mantidas em tempos difíceis.
Além disso, a edição da DarkSide é lindamente ilustrada por Wesley Rodrigues. A versão em brochura esgotou, mas a editora fez uma edição em capa dura em seguida.

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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