A Sombria Queda de Elizabeth Frankenstein, de Kiersten White.



Reimaginar uma história icônica e tão fortemente marcada na cultura pop pode ser um desafio apavorante. Ainda mais quando estamos falando de Frankenstein, obra de peso enorme criada por Mary Shelley e lançada em 1818, sendo hoje considerada a obra que deu impulso ao terror e ficção científica.

 Frankenstein narra a história de um jovem, Victor Frankenstein, que resolve desafiar a morte (não no sentido sobrenatural, mas no sentido físico da coisa). Decide, então, montar uma criatura a partir de cadáveres, costurando partes de corpos mortos, torcendo para que a eletricidade fizesse o resto do trabalho: dar a vida ao corpo inanimado. Victor consegue, uma criatura nasce desse experimento, mas sua repulsa é grande demais para que pudesse cuidar de sua criação.
Após anos que essa história saiu, e depois de muitas interpretações no cinema ou em livros que fazem paródia com essa ideia, começamos a prestar atenção maior na Criatura e no que a levou até ali, e o que antes, talvez, pudesse ser considerado um vilão, tornou-se símbolo de admiração. A Criatura é, afinal de contas, um ser inocente, jogado novamente nas garras de um mundo cruel, sem apoio, sem amor, sem caridade, sem compaixão.



Oscar Wilde escreveu em De Profundis, sua história enquanto esteve preso por ser um homem "subversivo" e ter um relacionamento com outro homem, em pleno século XIX, que a sociedade vira as costas para seus filhos, e ignoram suas necessidades quando lhe convém. Mary Shelley nos mostrou isso de forma extremamente objetiva em seu romance Frankenstein. A Criatura seria uma ideia anterior e bastante próxima a esse texto que Wilde escreveu tantos anos depois.

Mesmo sendo uma tarefa complicada e difícil, manter a chama original de Frankenstein em suas reimaginações pode ser feito. Já falei aqui sobre o quadrinho nacional, especial de 200 anos, Frankenstein 200, falei também sobre o poder do filme A Noiva de Frankenstein, e hoje falo sobre A Sombria Queda de Elizabeth Frankenstein, de Kierstein White, publicado no Brasil pela Plataforma21, com tradução de Lavínia Fávero.

"Ela adorava porque eu só contava para ela. Não era bem verdade. Mas tão pouco do que eu dizia para os outros era... Eu parara de me sentir culpada havia muito tempo. Palavras e histórias eram ferramentas para suscitar as reações desejadas nas pessoas, e eu era uma artesã experiente."

Para aqueles que leram o livro e assistiram as produções da Universal dos anos 1930, devem se lembrar do nome Elizabeth. Noiva de Victor, fadada a morrer pelas mãos do monstro em sua noite de núpcias, Elizabeth é uma figura sequer secundária na história de Criador vs Criatura que acontece na obra original de Mary Shelley.
Mas Kiersten White resolve dar voz a ela, dar personalidade, dar espaço, e contar a história de uma forma nova e muito interessante.

Desde o início do livro nós vemos a história se desenrolar a partir da visão de Elizabeth, na época Lavenza e não Frankenstein. O livro é narrado em primeira pessoa, e conta como Elizabeth conseguiu controlar a personalidade forte e absurda do jovem Frankenstein.
Temos um desenrolar dos fatos diferentes dos que conhecemos a partir do livro, focando na vida de Elizabeth na mansão da família que a acolheu, da vida dela enquanto Victor esteve estudando, dos esforços que fez para encontrá-lo, sempre estando presente, mesmo como um fantasma, mesmo quando a história original não mostrava que ela esteve lá.
E isso é uma das partes mais interessantes da versão de White. Ela nos mostra uma personagem completamente invisível. Na versão original sabemos pouquíssimo sobre Elizabeth e sobre os desdobramentos que as atividades de Victor tiveram em sua vida. Mas White dá profundidade, dá sentido à existência dela.



Algumas coisas podem incomodar um pouco, como algumas vezes em que Elizabeth chega até as respostas que procura de uma forma pouco natural, mas isso não chega a ser um defeito que tire a fluidez do texto ou o ritmo da leitura.

A personalidade escolhida para Elizabeth por White é outro ponto alto do livro. Ela pode chegar a parecer maligna, se importando somente com Victor e seu futuro, mas é um contraste muito interessante do que era (ou poderia ser considerado) o comum para uma dama do século XIX. Elizabeth é muito prática, objetiva, sempre com um sorriso no rosto para agradar a todos, mas porque sua vida depende daquilo. Em sua cabeça, por onde acompanhamos a história, ela é uma mulher fria e calculista, que maquina a melhor forma de se manter em segurança e não ter que voltar para a pobreza e miséria de onde foi "resgatada".

É uma leitura mesmo muito interessante, que é recomendada para aqueles que gostam da obra original e querem se aventurar por outras possibilidades.

A Sombria Queda de Elizabeth Frankenstein: Amazon.

Livro recebido em parceria com a Plataforma21.


Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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