Southern Gothic: o movimento baseado na descrença humana e nas tradições religiosas do sul americano

Elegy for Moss Land, de Clarence John Laughlin

O passado da maioria (senão todos) os países colonizados é de guerras, sangue, tristeza, perda, e seres humanos subjugados. O sistema de escravidão deixou e ainda deixa muitas cicatrizes (e, sem dúvidas, muitas feridas abertas) na história da humanidade, principalmente da história negra, que sofreu e ainda sofre com uma série de horrores, tratamentos desumanos, entre tantas barbaridades.

No Ocidente, a maioria dos países tem um passado desses. Nos lembramos muito de duas situações específicas, que é o caso do Brasil e o caso dos Estados Unidos. Talvez por estarem mais nos holofotes, por termos visto mais sobre eles durante a escola, por ter mais menções sobre eles na cultura pop e nos meios que consumimos, são dois países que conhecemos um pouco melhor. E pouco mesmo, pois ainda é assunto que não foi explorado como deveria, e está longe de ser superado por todos os motivos citados anteriormente.

O sul dos Estados Unidos, inclusive, tem uma culpa sangrenta e terrível para essa história. Ainda hoje temos uma grande parte de população racista, que só cresce e se espalha no mundo inteiro, mas que ainda tem um foco grande nessa região. E é nesse local que surgiu um dos gêneros mais interessantes do horror/thriller: o Southern Gothic. De início ele foi utilizado como uma maneira pejorativa, visto de forma muito negativa. Hoje, é utilizado para caracterizar uma série de obras que fizeram muito sucesso nesses últimos anos.

O Southern Gothic é um movimento/estética que engloba a música, artes, filmes, literatura e até mesmo na moda. Falando dessa forma, vocês podem estar se perguntando o que isso tem a ver com o terror, por que existe um gothic ali no nome, e tantas outras coisas. Então, vou explicar um pouco sobre qual a importância desse movimento pro terror, como ele se define, como identificar, e etc.

O gótico, no século XIX nos Estados Unidos, já era utilizado por alguns escritores em sua literatura, como o próprio Edgar Allan Poe. Não vou me demorar explicando o gótico, mas é um "gênero" que carrega como características o sombrio, a melancolia, a tristeza, geralmente a morte, e etc. O Southern Gothic traz algo que faz dele ser "southern": em seus primeiros momentos, principalmente, ele ironiza o modo de vida do sul dos Estados Unidos, se utilizando dessa melancolia do próprio gótico.

Um dos maiores representantes do gênero na literatura é William Faulkner. Violência, crueldade, um certo pessimismo, tristeza, mas com uma dose de ironia e utilizando da sátira e do sarcasmo para lidar com todos os terríveis momentos do início do século XX nos Estados Unidos: falta de emprego, crise de 29, e outras tantas coisas que fizezam com que o início do século fosse tão difícil para o país, que logo após alguns anos de amargura para uma grande parte da população, viria a se tornar a maior potência mundial.

The Phantasmal Cascades, de Clarence John Laughlin

Desse período, além de William Faulkner, os grandes representantes são Truman Capote, com seus primeiros trabalhos; Ambrose Bierce, um grande escritor de horror; Harper Lee; e, entre tantos outros, Flannery O'Connor. Os trabalhos de O'Connor são pesados. Seu livro de contos publicado no Brasil mais recente, Um homem bom é difícil de encontrar, pela Nova Fronteira, tem contos que falam sobre raça, sobre a falta de crédito no futuro, sobre a descrença entre seus semelhantes. O período era de desconforto e desconfiança, e o Sul dos Estados Unidos ainda era mais agredido por isso, e fez com que alguns de seus autores se debruçassem com afinco na questão.

Mas nada melhorou muito. A segregação racial permanece e o sul, de certa forma, tem alguma responsabilidade nisso. Afinal, foi um dos grandes apoiadores da permanência da escravidão e tem, ainda hoje, uma considerável parte da população conservadora. Algumas poucas coisas mudaram, e alguns elementos do Southern Gothic também. O SG atual tem características que diferem um pouco da literatura do início do século XX, principalmente porque, agora, a produção é focada no cinema e na televisão.

Exemplos mais atuais, dentro do terror ou de gêneros afins, são Objetos Cortantes, a série baseada na obra de Gillian Flynn (e, de certa forma, mais a série por conta de sua estética do que o próprio livro), as séries True Blood, The Originals, Preacher e Outcast, a primeira temporada de True Detective e a temporada Coven de American Horror Story; e os filmes Jessabelle, The Skeleton Key (A chave mestra, de 2005), Frailty (A mão do diabo, de 2001) e, talvez para o espanto de muitos, O Massacre da Serra Elétrica, de 1974.

E, a partir disso, pode-se observar no que, atualmente, acabou se tornando mais importante no movimento Southern Gothic: o calor do sul, a aparência desoladora e terrível ao se caminhar por um lugar seco, a menção ao diabo, a possibilidade de um sobrenatural ligado à raízes antigas da nação, e, por vezes, até a experiência afro americana e sua religiosidade (como no caso a própria A Chave Mestra). A única coisa que permanece de forma latente entre a literatura do início do século e as séries e filmes mais recentes é aquela sensação de desesperança e melancolia. Pantanos, mosquitos, ventiladores o tempo todo, casas grandes e antigas, suor, degradação humana, o pior que podemos esperar de qualquer um.

Nas artes, principalmente fotografias, os lugares abandonados ao longo do Mississipi e de Louisiana são importantes para compor o clima. Campos de plantações (principalmente as antigas plantações de algodão, que foram muito presentes no passado afro-americano), cemitérios e etc. Um dos grandes artistas do movimento é o fotógrafo surrealista Clarence John Laughlin (1905-1985), e todas as imagens dessa postagem são de sua autoria.

Boxes of the Dead, de Clarence John Laughlin

É difícil pensar que existe algum movimento semelhante em outros países, como um movimento de Southern Gothic no Brasil. O subgênero tem características bastante específicas que são, de certa forma, ligadas à uma tradição americana, que fica complicada de ser levada à outro país.

Indicação:

Existe uma playlist só de Southern Gothic no Spotify, que é bem interessante e pode ser acessada aqui.



Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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