Não, Twilight Zone não tá meio lacradora

Não, Twilight Zone não tá meio lacradora

O revival de Twilight Zone do grande mestre do terror atual (e abro um parentese aqui só pra dizer que não, eu não posso economizar em adjetivos positivos para ele), Jordan Peele, está entre nós desde o dia 01 de abril.

Claro, dado o contexto atual, dada a história da série, toda a sua trajetória política e social, dada todas essas informações previamente já de conhecimento geral da população, não me surpreende que esse revival traria alguns comentários negativos, como, por exemplo, de que ela estava tentando ser "lacradora demais".

Caso você não esteja contextualizado com a série original, Twilight Zone foi uma série de 1959, que durou alguns bons anos, e tratava principalmente de situações políticas e sociais, principalmente a guerra e o medo do outro, de forma alegórica com o terror e a ficção científica. Muitos diretores e roteiristas de peso passaram por Twilight Zone, como Ida Lupino, Ray Bradbury, etc. A série era apresentada e foi produzida por Rod Serling, e foi um tremendo sucesso. Não é atoa que existem tantos estudos demonstrando como Twilight Zone mudou a forma como a televisão era assistida, como os programas eram passados, como o social era uma base para a série. A série teve outros dois revivals, em 1985 e 2002.


Pois bem. Não é novidade para ninguém a forte agenda que Jordan Peele tem sobre as causas sociais. Não de agora, pelo contrário, desde sua série de comédia Peele and Key ele tem essa responsabilidade. E no terror isso se tornou ainda mais forte.

Quando surgiu a notícia de que Peele seria o novo produtor e estaria apresentando o novo revival, claro que todos vibraram. Não tem, sem dúvida, ninguém melhor para o papel. E Peele tem feito um papel excelente. Seus episódios são fortes, impactantes, eles te deixam sem reação.

No episódio 3, por exemplo, intitulado Replay, nós temos uma família negra, composta por uma mãe e seu filho. A missão da mãe é levar seu filho até a faculdade em segurança, mas um policial branco aparece e faz de tudo para impedir. A mãe tem em mãos uma câmera que, ao apertar o botão de "voltar", ela volta no tempo. E esse é só um dos episódios mais escancarados da série. Em Wunderkind temos como presidente uma criança mimada, em outros episódios temos outros detalhes da situação atual que fazem com que o gere certo desconforto do espectador. Mas é para isso que a série serve, e ela tem servido à isso desde 1959.


O último episódio lançado, de número 7, se chama Not All Men. Bom, eu acho que nem preciso explicar. Mas é claro que só o nome do episódio já faria um burburinho surgir. E é claro que seriam de homens. Então, não foi surpresa nenhuma que, enquanto eu estava por aí, fazendo minhas pesquisas, eu li que "parecia que essa temporada de Twilight Zone estava meio lacradora demais". E não foi surpresa nenhuma que, quem estava na discussão eram somente homens.

O terror é um instrumento social. Ele trabalha com nossos medos, ele nos tira da nossa zona de conforto. Ele pode ser uma arma importante de reflexão do que estamos vivendo. Essa ideia de "lacração" no terror, e de que o terror não deveria se utilizar das pautas sociais para cumprir sua obrigação enquanto gênero é de uma besteira sem tamanho. Felizmente ver discussões assim só faz perceber que Twilight Zone de 2019 está muito no caminho certo. Enquanto ele fizer essas pessoas questionarem esses papéis, mesmo que as deixarem somente nervosas, já serve.


A nova série do Twilight Zone é uma belíssima homenagem à série antiga, mas também tem um contexto atual muito importante. É bem produzida, bem apresentada, interessante, com roteiros intensos, episódios incríveis. Você pode até achar que ela é "meio lacradora", mas ela cumpre seu papel enquanto Twilight Zone: ela vai te deixar MUITO desconfortável, seja com seus privilégios, seja com suas possibilidades, seja com seu papel no mundo. E é para isso que ela existe hoje, em 2019.




Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Um comentário:

  1. Ler esse texto só me deu mais vontade de assistir a série. Se está deixando essa parte da população desconfortável é porque está fazendo algo de certo.

    E Jordan Peele, né, galera, hahaha

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