A Noiva de Frankenstein e sua importância ao gênero do terror

Elsa Lanchester em The Bride of Frankenstein

A Noiva de Frankenstein é um filme de 1935, dirigido por James Whale. Faz parte da longa tradição dos Monstros da Universal, que durou quase três décadas, e tem imenso peso e importância para os filmes de terror que vieram a seguir. O filme conta a história de como seria uma continuação de Frankenstein, caso a criatura tivesse conseguido o que queria daquele que o criou: uma companheira.

Logo no início do filme, Mary Shelley, interpretada por Elsa Lanchester, é questionada por Byron (Gavin Gordon) sobre sua criação, como uma moça tão adorável poderia ter escrito algo tão apavorante como Frankenstein. Mary não acredita porque uma coisa anularia outra, por que ela não poderia escrever sobre coisas terríveis?

Por que não escrever sobre monstros?
A partir daí, Mary começa a narrar o que seria a continuação de sua história. Há uma pequena recapitulação do que aconteceu em Frankenstein (filme de 1931, também dirigido por James Whale), como Henry Frankenstein (que no livro se chama Victor) decidiu desafiar deus e criar uma criatura viva a partir da morte.

Durante o livro, a criatura de Frankenstein exige para que Victor lhe faça uma companheira, pois não aguenta mais viver solitário como espécie, como único, como alguém que não tem semelhante e não pode estar entre os vivos ou os mortos, pois não é nenhum deles. Ao tentar ser humano, a criatura é vista como monstro; ao ser monstro, a criatura é ainda mais isolada de tudo, até mesmo daquele que a criou. Não há, realmente, perspectivas positivas para a criatura de Frankenstein, então ele deseja que exista alguém como ele.


No filme anterior, quando o moinho em que Henry (Colin Clive) e a criatura (Boris Karloff) estão é incendiado, ambos acabam desaparecendo. Então, no início desse, é como se Frankenstein estivesse morto, e a criatura também. Mas isso não dura por muito tempo, e logo se descobre que ambos sobreviveram. Dr. Pretorius (Ernest Thesiger) então vai até a casa de Henry para lhe fazer uma oferta muito recusável, mas que claro Henry não recusa. Dr. Pretorius tem estranhas experiências de diminuir pessoas, e conhece as experiências de Henry Frankenstein, então quer sua ajuda para continuar seus experimentos.

Enquanto isso, a criatura é caçada à exaustão. É capturado, foge, e finalmente encontra um amigo: faz amizade com um senhor que vive isolado em uma casinha humilde e é cego. Por não ver as imperfeições da criatura, consegue ser amigável com ele. Entretanto, assim como todos os outros que acabam sendo amigos da criatura, esse gentil senhor acaba morrendo em seus braços. Ao fugir novamente, se refugia em uma catacumba, onde encontra Dr. Pretorius procurando pedaços de cadáveres para construir uma criatura igual a ele, "uma amiga, igual a você", diz Pretorius à criatura.


De alguma forma Pretorius consegue fazer com que Henry faça as coisas que ele quer, ajudando-o a dar vida à uma companheira para a criatura. Manipula a criatura para que ela assombre Henry até conseguir o que deseja, fazendo com que ele se torne um homem cruel — em contraponto com o homem solitário e taciturno que era, até então. A criatura vai até a esposa de Henry e a sequestra, para que ele faça o que deseja: uma noiva para ele.

A questão é que a noiva que a criatura desejava que fosse feita, não desejava ser feita. Ainda mais para servir de objeto para outro homem.

A Noiva acabou se tornando uma das mais icônicas personagens dos Monstros da Universal. Seu visual ainda hoje é uma referência, e tem uma quantidade enorme de fãs. Isso só demonstrou como personagens femininas poderiam ser rentáveis nessas histórias, e tivemos participações importantes de mulheres como em O Monstro da Lagoa Negra, de 1954.

Não somente, A Noiva é uma das primeiras mulheres no cinema de terror que não é vilã e não é donzela. Foi feita para ser a esposa de alguém, de repente, mas não queria seu destino. Queria ser livre, queria ser sozinha. Não fica feliz de ter sido revivida para ser de alguém, e logo sente horror por aquele que deveria ser seu marido.


No final, os planos da criatura não dão tão certo assim. Ao contrário da criatura, A Noiva não sente tanto ódio assim de seu criador. Claramente Henry foi muito mais gentil em sua criação, e não se assustou quando aquilo que havia criado deu certo. A criatura não fica muito contente quando percebe que aquela que deveria ama-lo, o odeia. Acaba permitindo que Henry fuja com sua esposa, e puxa uma alavanca que destrói o local onde estão ele, a noiva e o Dr. Pretorius, terminando (ou algo assim, já que existem sequências com Frankenstein) com suas vidas.

Os Monstros da Universal tiveram várias licenças poéticas em relação às obras em que foram baseadas, mas talvez A Noiva de Frankenstein seja a mais importante delas. Mesmo que o filme leve seu nome e ela só apareça nos últimos 20 minutos (ou menos) do filme, é importante o papel que representa: o de não querer, o de não ser a vilã, e o de não ser salva. Henry Frankenstein poderia ter deixado a esposa para salvá-la, mas isso não condiz com a personalidade do personagem. Ela foi destruída (ou assim se pensa) naquele momento, com quem a queria viva e com quem a forçou a ser viva.

A Noiva pode até ter morrido somente por "não estar disposta", mas é um papel feminino interessante de ser observado, em 1935. Esperamos que, caso essa iniciativa de trazer os Monstros da Universal de volta da Blumhouse dê certo, tenhamos um filme mais longo sobre essa que é uma personagem feminina que queríamos tanto conhecer mais.





Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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