The Descent (2005) e como criar personagens femininas que não são problemáticas


Poucas são as vezes que assistimos um filme de terror e não conseguimos botar defeito algum, principalmente se tratando do papel (e, nesse caso ainda mais difícil, papéis) feminino. Porém, grande foi a surpresa quando assisti The Descent (Abismo do Medo, no Brasil), de 2005, filme dirigido por Neil Marshall (diretor do Hellboy que estreia esse ano e de Dog Soldiers, de 2002). Já tinha ouvido falar muito bem do filme, mas ainda sim não esperava que realmente fosse tudo isso.

Algumas amigas resolvem se reunir depois de alguns meses de distância, após um trágico acidente que fez com que uma delas perdesse o marido e a filha. Vão, então, explorar uma caverna. Porém, após quase ficarem presas, quem escolheu o local conta que ninguém antes havia entrado ali. A ideia era que, sendo elas que descobrissem, elas poderiam dar o nome ao local e etc.

A intenção era boa, mas de boas intenções o inferno está cheio. Tudo começa a sair terrivelmente mal. As amigas descobrem que a caverna não é uma simples caverna e, além de se preocuparem uma com as outras, ainda tem que se preocupar com algo que espreita da escuridão.

The Descent te pega de surpresa do começo ao fim pelas escolhas não convencionais de um filme de terror protagonizado por mulheres. Primeiro porque as escolhas das personagens, seus rumos, a própria narrativa, toda poderia ser utilizada normalmente se fossem homens em seus papéis. Ou seja: caso todas os personagens ali fossem homens, o filme ainda seria exatamente igual. Não há nada que faça com que as personagens ali sejam essencialmente mulheres. As intrigas, as brigas, as discussões, as mortes, os pedidos de desculpa, tudo ali poderia ser feito e dito por um homem.

Não que seja ruim personagens que são mulheres, mas é preciso perceber que existe um estereótipo feminino que é quebrado por esse filme. Como Carol J. Clover escreve em Men, Women and Chain Saw, ao falar sobre os filmes de slasher e de como as mulheres morrem nesses filmes somente por serem mulheres, enquanto os homens morrem por cometerem deslizes e erros, The Descent vai objetivamente nessa direção: as mulheres ali morrem por erros, não por serem mulheres.


É interessante também observar por tudo que essas mulheres passam, principalmente a relação entre Sarah (Shauna Macdonald) e Juno (Natalie Mendonza). Sarah foi quem perdeu o marido e a filha, em um acidente de carro. Desde as primeiras cenas conseguimos perceber algo entre o marido de Sarah e Juno. Isso, entretanto, tem pouco a ser trabalhado no filme. Sarah segue em frente após o acidente, sempre assombrada pela perda da filha, enquanto Juno continua a tratando como amiga, e ambas saem com o grupo para explorarem a caverna. Sarah é uma mulher assombrada por tragédias no passado, mas que faz o possível para aproveitar o que ainda lhe resta. Essa pequena intriga não vira uma bola de neve para a vida de ambas, sendo somente um detalhe do início do filme, que não faz com que tudo gire em torno disso.

Ambas as personagens são sobreviventes, e fazem o possível para se manterem sãs e salvas durante tudo que acontece naquelas cavernas, mas cada uma de seu próprio jeito, sobrevivendo da sua própria forma, pois Sarah e Juno são, sem dúvidas, personagens diferentes, e fogem de estereótipos (pelo menos de estereótipos femininos usados incansavelmente no terror).

Todo o clima do filme é aterrorizante, claustrofóbico, te deixando sem fôlego do começo ao fim, como se as criaturas que vivem nas cavernas pudessem te ouvir se você se mexer. Além de uma ótima representação feminina, o filme conta com uma ótima execução, cenas medonhas, sangue e até fratura exposta pra quem quiser.

O filme está disponível no serviço de streaming da Amazon, o Prime Video.


Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Um comentário:

  1. Confesso não ser fã de filmes de terror. Na verdade morro de medo, então não assisto! Mas acho incrível quando em qualquer género, temos personagens femininas fugindo dos estereótipos problemáticos.
    Gostei muito da sua resenha/crítica mesmo não sendo um gênero de filme que eu assista.

    Um beijo,
    Aline

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