Suspiria, remake, as três mães e Dario Argento


A expectativa estava altíssima sobre o remake de Suspiria. Era um evento aguardado desde o momento em que o filme foi anunciado. Porém, passou outubro, novembro, dezembro, e nenhuma notícia de que o filme seria lançado no Brasil. Alguns fãs mais ansiosos assistiram da forma que conseguiram mesmo, com uma péssima legenda que faltava partes traduzidas do alemão, mas que foi disponibilizada com carinho por aqueles que também não aguentavam esperar.


Porém, chegou o tão aguardado momento de estreia do filme no Brasil. Adiado para o dia 11 de abril, o filme será distribuído pela Play Arte. Tive a oportunidade de assistir duas das pré estreias: a feita pelo Noitão do Cine Belas Artes, cobrindo o evento pelo Delirium Nerd (que também sou colaboradora), e à convite da DarkSide, na premiere realizada em parceria com a Play Arte e o Cine Phenomena.
Eu assisti ao filme pelo menos três vezes. E aproveitei para fazer uma maratona da trilogia das bruxas original do Dario Argente, e resolvi escrever esse texto com algumas impressões (com spoiler).

As Três Mães

A trilogia original das três mães é formada pelos filmes Suspiria (1977), Inferno (1980) e La Terza Madre (2007), todos dirigidos por Dario Argento.
A inspiração para a criação das três mães foi a terceira parte de "Suspiria de Profundis", publicado a partir de 1845, de Thomas de Quncey (mais conhecido por seu trabalho "Confissões de um Ópiamano Inglês), chamado "Levana and our ladies of sorrow". Nele, Quincey imagina três companheiras para a deusa romana Levana, deusa das crianças recém-nascidas. As três companheiras seriam: Mater Suspiriorum, a mãe dos suspiros; Mater Tenebrarum, a mãe das trevas; e Mater Lacrymarum, a mãe das lágrimas.
Baudelaire se inspirou nas duas principais obras de Quincey para criar sua obra Paraísos Artificiais, mas isso é para outro momento.

Ao traçar os caminhos de sua mitologia, Argento desenvolveu algumas coisas interessantes sobre as três mães. Adicionou um arquiteto italiano na história, E. Varelli, que teria escrito sobre as três mães e falado sobre suas casas. Criou, também, três chaves para a localização das casas das três mães:
A Primeira Chave diz que a terra sob a qual as casas das mães fossem construídas eventualmente se tornariam fatais e cheias de pragas, e toda a área ficaria infectada (e essa aqui, talvez, seja a chave mais importante mais pra frente); a Segunda Chave diz que estaria escondida no porão de suas casas, um retrato e o nome da mãe que habitava aquela casa (também uma chave importante); e a Terceira Chave afirma que está embaixo das solas de seus sapatos (chave essa que é mais importante para o filme Inferno, e não tanto para os outros ou para o remake).


Desenvolveu, também, as localizações das três mães: Mater Suspiriorum, a mais antiga, vive em Friburgo; Mater Tenebrarum, a mais jovem e mais cruel, vive em Nova York; e Mater Lacrymarum, a mais bonita, vive em Roma. Suspira acompanha a história de Mater Suspiriorum, que é derrotada por Susie Banion (Jessica Harper); Inferno acompanha a história de Mater Tenebrarum, também derrotada, por Mark Elliot; e La Terza Madre conta a história de Mater Lacrymarum, que persegue a jovem Sarah Mandy.
Ponto a ser dito também é que duas das três mães afirmam que os homens as conhecem por um único nome em comum: Morte.

É uma trilogia interessante. A qualidade cai muito no terceiro filme, e a mitologia do Argento é confusa. O filme que melhor fala sobre as situações das três mães é Inferno, que procura explicar onde cada uma está, as chaves, como reconhecê-las, toda a dor e tristeza que elas carregam consigo e etc. Inferno, inclusive, seja o filme mais importante de ser assistido antes do remake de Suspiria. As utilizações de "bruxaria" de Argento também são complicadas, mesmo para um filme feito em 1977. Ainda sim, é um grande clássico do gênero, e um filme interessante, com efeitos práticos, ótimas mortes e cenas incríveis.

O remake

Não me espanta a quantidade de pessoas que não gostaram do remake. É realmente um filme difícil. Longo, Luca Guadagnino não poupou o subjetivo para fazer seu filme, mas também utilizou muito de questões objetivas. As maiores reclamações que ouvi sobre o filme foram de que as partes políticas não faziam sentido, e o próprio Dario Argento disse que o filme traia o espírito original do filme original (como, depois do que ele mesmo fez com La Terza Madre e toda a sua mitologia, eu não consigo perceber).
Mas gostaria de falar um pouco sobre o Suspiria de 2018 e sobre alguns pontos interessantes da construção de Guadagnino e David Kajganich desse universo.
Importante dizer, desde já, que Guadagnino não tentou reproduzir a obra original, mas fazer algo para o nosso tempo, algo para nós, algo atual.

O contexto do filme se dá em uma Berlim antes da queda do muro, em guerra.
A Alemanha passava pelo chamado "Outono alemão", em 1977 (que pode ser compreendido um pouco aqui). Susie Banion chega para sua audição na escola Tanz, de Helena Markos, em meio a bombas e uma polícia bastante observadora (como nas cenas do Hotel e a cena do Metrô).
O novo Suspira carrega a casa de Suspiriorum para Berlim, a retirando de Friburgo, mas a coloca exatamente onde deveria estar naquele momento. Lembrando da primeira chave, sobre como o chão sob a casa se torna fatal, faz bastante sentido que o fundo político esteja inserido ali.
Durante a primeira conversa de Susie e Sarah, é dito que Hanns Martin Schleyer havia sido sequestrado.

O filme inteiro, de certa forma, retirando as partes políticas e as partes do Doutor Klemperer, focam em algo maternal. Susie tinha uma péssima relação com a mãe, que afirma em sua morte que sua caçula era seu maior pecado. Sua relação com Madame Blanc, também, é de uma admiração maternal, um carinho que se tem por uma figura materna, quase buscando a semelhança entre as duas. O cabelo de ambas é semelhante, até o cabelo de Susie ser cortado, e enquanto Madame Blanc utiliza seu cabelo solto, por exemplo, Susie também o faz. Em uma das cenas de dança, quando Madame Blanc está de cabelos trançados, o cabelo de Susie também está.
Algo faz acreditar que Susie sabia desde sua chegada (e antes dela) que abrigava Suspiriorum dentro de si, que carregava a morte consigo. Algo muito ao pé da letra que pode ser percebido durante o filme de Guadagnino é a quantidade de suspiros e gemidos que Dakota Johnson solta em suas cenas. Susie sabia, desde sempre, que guardava algo dentro de si? Ela sabia que carregava a praga e a fatalidade consigo? Isso, em conjunto com as notícias do sequestro de Hanns Martin Schleyer, sua infância e a enfermidade de sua mãe, as idas de Susie para Nova York (casa de Tenebrarum), e a Berlim em guerra, fazem acreditar que sim.



Argento uma vez disse: "Eu gosto de mulheres, especialmente as bonitas. Se elas tiverem um corpo e um rosto bonitos, eu iria preferir muito mais que elas fossem mortas do que uma garota feia ou um homem."* Guadagnino não fez suas personagens para serem garotas bonitas morrendo. Se você olhar bem para as professoras de dança e as dançarinas, elas não estão ali para serem percebidas por serem bonitas. Talvez com exceção de Dakota Johnson, no papel de Susie, mas até isso pode ser pensado como tendo um objetivo: Susie é, afinal, uma das mães. Mesmo Suspiriorum sendo a mais velha, ela ainda é uma das mães.



Mas, afinal, qual é o papel do Doutor Klemperer e sua história de fundo?
Acredito sinceramente que Klemperer é um contraponto, um personagem masculino de fora que questiona o que acontece dentro da academia. Como as próprias bruxas/professoras afirmam, ele é a testemunha. Elas precisariam de todas as meninas para fazer o ritual, a necessidade de um ser de fora para observar e servir de sacrifício, talvez, fez com que Klemperer fosse adicionado na história. Além, claro, de poder utilizar a ótima Jessica Harper (a Susie Banion no Suspiria original) no papel de Anke, esposa de Klemperer, no remake, trazer um pouco mais de contexto alemão para o filme.


Suspiria é um excelente filme. Ele traz elementos da mitologia que Argento desenvolveu e ainda enriquece a história, dando um novo formato para o que aconteceu com Susie Banion, com Madame Blanc, com a academia de dança, e sobre a história das três mães.
Guadagnino ainda fez a história mais próxima da atualidade: as dançarinas não sentem e causam a mesma intriga por Susie Banion em seu remake como no original; a questão do pagamento e do dinheiro da qual fala Miss Tanner no original também é diferente no remake, em que a professora afirma que quer o desenvolvimento e a autonomia financeira das mulheres.
Não somente, ainda muitos elementos além desses são explorados na nova versão, mas que renderiam imensas discussões, e preferi focar nos elementos já utilizados nos filmes anteriores.
Guadagnino coloca pequenos detalhes que, juntos, transformam o filme em algo incrível de ser visto.

Tente assistir ao novo Suspiria com o coração aberto, deixando um pouco de lado a nostalgia pelo filme antigo. Pense nele como algo novo. Preste atenção em seus detalhes e discursos. Mesmo que você venha a não gostar, aproveite as duas horas e meia de dança e cenas lindíssimas.

* Informação retirada do livro de Carol J. Clover: Men Women and Chain Saws, pag. 42.

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

3 comentários:

  1. Eu sou apaixonado pela obra do Argento (até os fracassos), mas também fui atraído pelo remake desde quando anunciaram. E meu hype foi deliciosamente preenchido.

    Original e adaptação são duas obra de olhares distintos sobre a bruxaria. Argento criou bruxas mesquinhas e interessadas por dinheiro e poder, enquanto Guadagnino fez seu "coven" muito mais profano e obscuro. Adorei que nesta versão atualizada, Suzy não apenas era a chave para enfrentar as bruxas, como ERA A PRÓPRIA BRUXA! Seu destino estava ligado ao materno, pois ela é "a" Mãe; uma ousadia muito bem-vinda.

    Adorei o body horror em constraste ao gore do original; até mesmo a mudança do estilo de dança (balé clássico em 1977 e contemporâneo agora) e de trilhas (o rock progressivo inesquecível da Goblin e melancólico do Thom Yorke). Enfim, são detalhes que enriquecem o trabalho atual e merece todo o destaque.

    Será que só eu surtei quando descobri que a Tilda DEUSA Swinton interpretou o Doutor Klemperer e também a Helena Markos? Cara, como ela não foi indicada a nada por ter se desenvolvido tanto em um único filme?! Foi maravilhoso o diretor ter cumprido sua promessa de protagonismo feminino até o fim, e isso é importante!

    Enfim, "Suspiria" de ontem e hoje é uma experiência sensorial inesquecível.

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  2. Ainda vou assistir, mas desde já parece que já estou adorando! Meu diretor favorito é o Dario, pelo menos do gênero. Um dia vou finalmente arranjar um tempo para escrever sobre essa obra, e obviamente lembrar desse texto aqui :)

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  3. Eu ainda não vi os outros filmes do Argento (a não ser o Suspiria original), então não entendia muito toda a mitologia das Mães. E mesmo Suspiria é um filme que não gostei tanto assim (entendo todo o valor, e como produção é um filme impressionante, mas no geral acho ele bem meh). Mesmo assim, fiquei empolgadíssima pra esse filme, e de forma alguma me decepcionei.

    A única coisa que eu tinha achado meio off no geral tinha sido todo o arco do Klemper, e que ele desacelerava os acontecimentos de uma forma desnecessária. Até ver uma entrevista com a Tilda, e ela dizendo que mesmo o Klemperer, o tempo todo, é "habitado" por sua mulher (e pelo luto), e isso faz um contraponto com a Susie. Achei sensacional e era algo que não tinha pego da história, e pretendo rever o filme logo tendo esse contexto melhor em mente. E isso que tu falou da morte também me fez relacionar ao papel do Klemperer no filme todo.

    Agora quero ver os outros filmes da trilogia, e depois conto o que achei :)

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