Resenha: A Balada do Black Tom, de Victor LaValle



Howard Phillips Lovecraft foi um autor importante para o gênero do terror. Sua obra ainda hoje é lembrada, admirada e muitos se inspiram nele. Seus ensaios não ficcionais, além de seu livro "O horror sobrenatural na literatura", são importantes e utilizados por pesquisadores, pois apresentam um panorama interessante, principalmente do século XIX.
Porém, foi uma pessoa bastante problemática. Suas obras contém discursos racistas e xenófobos, algo que ele trazia de sua vida pessoal. Um homem solitário, que tinha preconceitos enraizados profundamente e que utilizou isso em seus escritos.


Mas, como tudo no horror, não precisa ser sempre assim. Mesmo que sejam obras clássicas, importantes, até canônicas, as releituras podem (e, nesse caso, precisam) ser feitas.
É indiscutível que Lovecraft criou criaturas e mundos interessantíssimos para ficarem presos somente em histórias que são prejudiciais para tantas pessoas.

Nessa ideia, Victor LaValle, autor americano, que cresceu lendo essas histórias, fez uma releitura impressionante de Horror em Red Hook, o que talvez seja a história mais problemática de Lovecraft.
Intitulado A Balada de Black Tom, publicado aqui no Brasil com a tradução de Petê Rissati, pela Editora Morro Branco. A edição ainda conta com a versão original, de Lovecraft, do conto, traduzido por Giovana Bomentre.
A humanidade não causava problemas; a humanidade era o problema.
Além de procurar (e conseguir) desconstruir a visão racista e xenófoba que Loevecraft faz de Red Hook, ainda dá um novo rumo ao conto, com um protagonista negro e crítica social ao modo que as coisas eram conduzidas nos anos 1920.

Lovecraft, em Horror em Red Hook, fala sobre o local:
"(...) A População é uma confusão e um enigma; elementos sírios, espanhóis, italianos e pretos se aglomerando um sobre o outro, com fragmentos próximos de regiões onde moram escandinavos americanos. É uma total babel de som e sujeira, e envia gritos em resposta às ondas oleosas em seus píeresencardidos e à litania monstruosa de órgãos dos apitos do porto." (p. 155, versão que está no livro A Balada do Black Tom, da Editora Morro Branco)
A imigração nos Estados Unidos nesse período era muito comum, mas podemos perceber pelo próprio texto de Lovecraft, como por vários registros históricos, que existiam imigrantes que eram melhor aceitos (escandinavos, irlandeses, italianos, ou seja: imigrantes brancos), e os que eram menos queridos, ou considerados escória, como os negros, que tinham no passado a escravidão, alguns espanhóis, caribenhos, etc).

Em determinado momento, Lovecraft escreve que "Eles [os imigrantes de Red Hook] o arrepiavam e fascinavam mais do que ele se atrevia a admitir aos seus colegas da delegacia, pois parecia ver neles uma linha monstruosa de continuidade secreta; um padrão diabólico, críptico e antigo muito abaixo e além da massa sórdida de fatos e hábitos e investigações listadas pela política com um cuidado tão esmeradamente técnico. Eles deviam ser, sentia em seu íntimo, os herdeiros de uma tradição chocante e primordial; deviam compartilhar dos resquícios degradados e distorcidos de cultos e cerimônias anteriores à humanidade.", além de afirmar que suas tradições eram anteriores ao "Mundo Ariano".

No Ocidente houve um movimento muito complicado de sugerir que a cultura não-branca causasse essa sensação de "horror" e "fascínio". Na antropologia existe o conceito e bom e mau selvagem. Lovecraft foi, sem dúvida, um homem de seu tempo; mas não podemos negar que isso não é uma justificativa plausível por suas ideias, levando em consideração que os debates estavam acontecendo, e que Lovecraft tinha acesso à esse debate. A discussão de separar autor e obra eu deixo pra outro momento.


Além de um trabalho incrivelmente bem feito de utilizar os elementos lovecraftianos e transformá-los em uma crítica não só ao trabalho de Lovecraft, como também ao período, LaValle escreve um livro interessantíssimo sobre um homem que perdeu tudo somente pela cor da sua pele. A evolução de personagem de Charles Thomas Tester é ótima, e a vida terrível que ele teve é, nada além, do que um retrato cruel porém real do momento (e que ainda permanece em diversas áreas não só dos Estados Unidos como do Brasil e em outros lugares do mundo).
A leitura é rápida e fluida, bastante diferente de uma leitura de Lovecraft, que é densa e tem um ritmo bem mais lento. A edição da Morro Branco é ótima.

É importante que esses clássicos sejam revisitados e revistos. Eles tem problemas, e não podemos ignorar esses problemas. Criticar a obra é necessário, perceber essas nuances e esses preconceitos não é só compreender a época, é compreender um processo inteiro de onde o horror está inserido. Não é deixar de ler, é compreender onde essa obra se insere no social, ler de forma crítica. LaValle nos mostra como revisar essas histórias pode nos trazer histórias incríveis.

Você pode comprar o livro pelo link: Amazon

Dica extra:

Se você gostou de A Balada de Black Tom, recomendo o conto "Sob a água negra", de Mariana Enriquez, presente no livro As coisas que perdemos no fogo, que pode ser comprado aqui. Enriquez nos traz outra releitura de Lovecraft, na periferia de Buenos Aires.
Recomendo também Dreams in the witch house, uma coletânea de contos escritos por mulheres, que reveem o papel da mulher na literatura de Lovecraft, que pode ser comprado aqui.

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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