Dica: o documentário Lorena, sobre o caso Bobbitt


Dia 23 de junho de 1993 Lorena Bobbitt pegou uma faca e cortou o pênis de seu marido. O caso foi manchete durantes os meses seguintes, conforme se passavam os julgamentos de John Wayne Bobbitt, marido de Lorena, e o dela próprio.
Deixo aqui o TW de menção à violência contra mulher.


Nunca fui muito entusiasta de documentários e histórias de true crime. Tive pouco contato, e sei pouco sobre casos notórios, assassinos em série, homens e mulheres que cometeram crimes e entraram na história. Porém o caso de Lorena me chamou a atenção, e resolvi assisti-lo. O documentário está disponível na Amazon Prime, tem 4 episódios, com cerca de uma hora cada um, e conta com direção de Joshua Rofé a produção executiva de Jordan Peele.

Começamos a série documental sabendo o que ocorreu: Lorena cortou o pênis do marido. Mas não sabemos o que a levou a isso. Sabemos que os policiais encontraram John agonizando, mas o que tinha acontecido naquela noite?

Lorena foi uma mulher como tantas outras, que sofre abusos em casa, que é negligenciada pela justiça quando diz que o marido é violento, que não consegue se livrar de uma situação de violência. Ao longo da série conseguimos compreender o que aconteceu: Lorena se cansou.
Antes do julgamento de Lorena, John Wayne foi julgado por agressão, e inocentado. Não haviam provas suficientes, e como nos é mostrando, naquele momento (e ainda hoje, como bem sabemos) estupros que acontecem dentro do casamento são tratados com desinteresse. Para que fosse provado um estupro, ela deveria ter marcas de violência, algo pelo qual ela passava fazia anos.

Um dos pontos mais interessantes sobre o caso Bobbitt, seja, talvez, a divisão que ele causou: mulheres conseguiam compreender melhor o que houve com Lorena, enquanto homens sentiam muito mais pena de John Wayne. Também como é dito durante o documentário, sabemos que mulheres são tratadas como propriedades de muitos de seus maridos, bem como Lorena foi. O que coloca em questão: é normal sentir pena de um homem que o órgão foi arrancado, mas é normal ignorar a vida de uma mulher que foi destruída? É complicado demais, talvez, colocar a vida de duas pessoas na balança, mas não se pode ignorar as questões que isso levanta: a vida de uma mulher vale tão menos assim?
Outro ponto foi a sensação de que John Wayne, naquele momento, após ser julgado inocente, é que foi como se se tornasse um grande herói. Chamavam-no para programas de auditório, faziam concurso sobre sósias, enquanto Lorena era ridicularizada. Armou-se um grande circo sobre todo o caso, e de fato nenhum dos dois teve paz, mas parece que um deles se divertiu muito mais que o outro. John Wayne, inclusive, após o acontecido, estrelou em alguns filmes pornô.


Lorena Bobbitt e Joshua Rofé


Durante os 4 episódios acompanhamos algumas opiniões com bom senso, mas uma grande quantidade de opiniões absurdas também são vistas. Quando Lorena foi absolvida do crime, disseram que ela era insana. Uma das pessoas que comentou sobre isso, uma mulher, afirmou que ela precisava de ajuda para que não fizesse o mesmo da próxima vez. Vejam bem: ela não precisava de ajuda por ter problemas, mas para que não fosse violenta QUANDO acontecesse novamente. Deveríamos, na verdade, torcer para que coisas assim não acontecessem mais. Não podemos considerar que tratar a mulher como propriedade, com violência, seja algo normal.

O documentário conta com várias testemunhas e gravações, então conseguimos ver a opinião de pessoas naquele momento, em 1993, e ainda hoje, quase 26 anos depois. O grande spoiler, que talvez não seja tão grande assim, é que John Wayne não se sente culpado por nada do que causou, e nega, ainda hoje, que possa ter causado qualquer coisa à ela. Mesmo com testemunhas, tanto homens quanto mulheres.

Lorena é um documentário interessante, que por vezes faz com que nosso sentimento seja ódio ao ver como John Wayne saiu após toda a situações, ou como ele se comporta durante as entrevistas, ou em um todo, sobre como tudo aquilo foi conduzido. Mas é um documentário interessante, com uma produção decente, diversas questões e que abre caminho para uma série de debates. Um documentário importante, para um momento importante.

Dica extra:

Se você se interessa por true crime, também vai se interessar por Lady Killers, livro de Tori Telfer, recentemente laçado pela DarkSide Books. Telfer nos mostrar como mulheres assassinas são desacreditadas e estereotipadas, mas são humanas como qualquer outro assassino, sem grande diferenças. Logo mais terá resenha aqui no site.
O livro pode ser adquirido: Amazon | Loja DarkSide.

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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