The Slumber Party Massacre é um BAITA slasher


Slashers nunca foram uma das minhas subcategorias preferidas no terror. Inclusive, posso dizer que foi uma das coisas que me manteve afastada do terror por muito tempo. Achava toda aquela perseguição e matança desnecessárias; e, convivendo com os fãs de terror que convivi, achava que só isso poderia ser considerado terror. Escrevi, meses atrás, um texto chamado “você não precisa gostar de slasher”, exatamente para ajudar a tirar isso da cabeça das pessoas: o terror e o horror não precisam ser só slasher, você pode gostar de outras coisas.



Hoje, depois desse distanciamento e de compreender melhor as tendências e elementos do terror, consigo gostar muito de alguns slashers. Em 2018 um dos meus filmes preferidos foi o novo Halloween, assisti à franquia inteira e fiz um texto sobre os filmes (que pode ser lido aqui).

Dito isso, não posso negar a alegria de ter visto um slasher dirigido por uma mulher em 1982! E claro, é perceptível a diferença entre o olhar masculino e o olhar feminino.

The Slumber Party Massacre, no Brasil com o título de O Massacre, filme dirigido por Amy Holden James e escrito por Rita Mae Brown, de 1982, é um filme do gênero slasher com todos os elementos principais de um filme desse período e dessa categoria: um grupo de meninas, alguns caras chatos e irritantes, a figura da final girl (nesse filme temos duas, que são irmãs), algumas cenas de nudez, mortes muito criativas e momentos aterrorizantes para os protagonistas.

Antes de qualquer coisa, o roteiro de Slumber Party Massacre é muito simples, mas muito bem feito: algumas garotas tiram a noite para uma festa do pijama, porém tem sido perseguidas desde o horário do colégio por um assassino. Temos uma vizinha preocupada que ficou em casa cuidando da irmã (nossas final girls) e um vizinho um pouco estranho mas bem intencionado que é um dos primeiros a morrer; e temos dois garotos que estavam observando a festa, mas que acabam sendo empurrados para dentro da tragédia. O detalhe dos vizinhos considero realmente interessante, porque demonstra que existe vida naquele quarteirão, que esse assassino está disposto a matar não só as garotas e os dois rapazes, mas qualquer um que possa ajudar. Tudo se une de alguma forma. A morte prematura do vizinho faz com que ele não possa ajudar, nem que quisesse, e quando entram em sua casa procurando ajuda, bem, não tem ninguém lá; e isso é muito melhor do que simplesmente desaparecer com o vizinho, que saiu, ou qualquer desculpa do tipo. Os rapazes tentam procurar ajuda, mas morrem antes de conseguir chegar a qualquer lugar.



Isso nos deixa com Valerie e Courtney, as vizinhas, as final girls, personagens importantíssimas para o filme, aquelas que seguram a barra até o final. Valerie desde o começo mostra que não é uma garota indefesa: ela pode chutar a bunda que quiser, não é pega desprevenida. Courtney gosta de irritar a irmã, mas também consegue ser esperta quando necessário. Juntas, elas chegam vivas ao final.

As motivações do assassino são bastante masculinas: “eu te amo” é uma das coisas que ele fala para Valerie quando está frente a frente com ela. Um homem claramente desequilibrado, que persegue mulheres e as mata. Não muito diferente dos rapazes que estavam perseguindo as garotas na festa, mas mais violento: temos duas formas de perseguição apresentadas no filme; e apesar de, em uma delas, as únicas vítimas terem sido os próprios perseguidores, nenhuma das duas pode ser considerada inocente ou “boa”.

Estamos falando de um filme da década de 1980, talvez uma das décadas que mais tenha criado novos estereótipos para personagens femininas no terror, além de ter ditado um ritmo pro gênero nos próximos 20 ou 30 anos. Ainda hoje existe um certo saudosismo, uma nostalgia meio absurdo pelos filmes desse período. E Slumber Party Massacre tem tudo que um slasher deveria, supostamente, ter: sangue, nudez, mortes violentas, perseguição, mas sob a ótica de uma mulher, e isso faz toda a diferença. Mesmo nas cenas de nudez é possível perceber uma câmera natural, com passagens naturais, sem focos invasivos: como se uma pessoa estivesse de passagem e visse aquela cena.

Não dá pra se dizer que é o filme perfeito, é claro, muita coisa atualmente é posta em debate (como a intriga e a inimizade feminina, entre a vizinha e as garotas que estão dando a festa, por exemplo) que poderia ser algo discutível, mas é importantíssimo reconhecer o trabalho de um dos filmes do início dessa categoria, que é bom, e é pouco colocado em listas dos grandes filmes influenciadores do terror.

Existe uma diferença enorme quando uma mulher dá seu olhar filmes dessas categorias mais problemáticas pra quando é um homem que o faz. Sabemos que nudez feminina vende, e sabemos que um filme de 1980 de slasher precisaria manter um certo tipo de elementos em cena, mas o efeito de invasão pode ser diminuído. O problema não é a nudez ou o sexo, jamais foi, o problema mesmo é a forma como isso é utilizado em cena, e Slumber Party Massacre tem um trabalho muito bem feito nesse sentido; alguns diretores deveriam ter aprendido um pouco com esse filme, ao invés de ficar somente nas mesmas influências.

Leia também: Slasher Party Massacre, no Cine Varda

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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