Resenha: Candyman, de Clive Barker.


Candyman, conto de Clive Barker, publicado originalmente em 1984 (com o nome de The Forbidden), na coletânea Books of Blood. Aqui no Brasil foi publicado esse ano, pela Editora Darkside com a tradução de Eduardo Alves, em uma edição que conta somente com o conto e um posfácio de Carlos Primati, pesquisador de cinema e terror, que faz um paralelo interessante entre o conto e sua versão cinematográfica de 1992, dirigido por Bernard Rose, com Tony Todd no papel de Candyman e Virginia Madsen no papel de Helen Lyle.



A resenha a seguir tem como objetivo tratar tanto do conto quanto do filme, então pode conter spoilers se você não conhecer as obras.
TW: tripofobia.

 Livro recebido em parceria do Fright Like a Girl com a Editora DarkSide.

Candyman conta a história da pesquisadora Helen Lyle, uma mulher que tem um relacionamento conturbado com o marido e que pesquisa grafites em uma área periférica, pobre, um conjunto habitacional de Spector Street. Nesse conjunto, encontra uma casa sem moradores e descobre a imagem de um homem na parede, que a deixa intrigada. Ao conviver com as pessoas ali, Helen ouve um monte de histórias estranhas sobre mortes e assassinatos brutais, que ao comentar com seus amigos de classe média, é desacreditada. Helen continua procurando informações sobre isso, em parte para irritar seu marido e os amigos dele e mostrar que pode, sim, ser uma pesquisadora forte e competente, em parte porque realmente está curiosa sobre os acontecimentos.
É quando se depara com Candyman, um homem sedutor, uma lenda, um boato.

Candyman existe de carne e osso ou é fruto de um imaginário coletivo criado como forma de afastar pessoas como Helen, que gostar de acompanhar o sofrimento de pessoas mais pobres e humildes, tentando salvá-los de seus próprios horrores?

A personagem de Helen é muito interessante. Seu relacionamento com o marido, um homem cheio de amantes e casos e prepotência é ridículo. Como ela ainda está nessa situação é um caso que precisa ser refletido: é dependência? Helen não consegue se desvencilhar da situação de abuso em que está? Mesmo sendo uma mulher universitária, de estudo, quer competir com o marido mas continua sob o mesmo teto que ele, aguentando tudo isso. E Helen é competente, e se pergunta se não estaria agindo exatamente da forma que não deveria estar: se ela é mesmo uma telespectadora da exótica vida de uma comunidade mais pobre, de seu sofrimento, apenas para ter o que contar aos seus amigos no jantar.



A personagem, entretanto, não é uma mulher esnobe (como seu marido e os amigos do casal). Helen é antropóloga, bem intencionada, quer entender o que está acontecendo. Mas, existe um ditado que de boa intenção o inferno está cheio.
Helen chama seu estudo de "desespero urbano", mas ela não faz ideia do tipo de desespero que está entrando e vai enfrentar. Há algo que separa Helen de seu objeto, e é sua classe social, e é isso que fará com que Helen não entenda que deveria tomar cuidado com o que está fazendo. Seu pedestal de alguém que não está na mesma classe que as pessoas do conjunto habitacional a permitem observar com distanciamento, porém ela é arrastada para toda a tragédia que há ali, ao ser seduzida por Candyman e ver um dos assassinatos ocorrerem no conjunto.

Algo que separa muito bem o trabalho de Barker no conto com o filme derivado dele é que Barker não explora a situação racial, e aqui isso deve ser pensado: apesar de ser um filme interessante visto que trata de um vilão negro maravilhosamente interpretado por Tony Todd, algumas críticas em relação à Helen e ao fato de ser alguém que assiste o sofrimento alheio de uma bancada moral, acaba se perdendo. Além disso, o filme acaba sendo apontado como um homem negro que persegue e mata uma mulher branca, que é vítima. Hoje, com as atuais discussões, isso pode ser posto na mesa; em 1992, entretanto, foi um filme importante, que marcou uma série de pessoas na indústria do terror, como o próprio Jordan Peele, que está envolvido em uma nova adaptação para junho de 2020. Torcemos para que, em seu remake, Peele consiga dar um outro tom à relação entre Helen e ao Candyman.


Candyman é uma história interessante sobre uma lenda urbana criada como defesa, para afastar, para manter longe quem se delicia com o sofrimento alheio. Você tem que acreditar nele, caso não acredite será arrastado para o terror dele. Personificado tanto no livro como no filme por um homem sedutor, doce (e isso é representado pelas abelhas que o acompanham), Candyman pode te destruir e você não vai ter como sair de seus braços.
Acredite na miséria, ou será destruído por ela.


O livro pode ser comprado nos seguintes links: Amazon | Loja Oficial DarkSide

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

2 comentários:

  1. Eu vi o filme Candyman uma vez e MELDELS, que MEDO DO CARALHO eu fiquei.

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    1. Né? ele tem uma atmosfera muito assustadora. O conto tem o mesmo clima, é incrível.

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