Os Contos de Fadas e o Terror

Tale of Tales, 2015.
Uma criança perseguida por um lobo, uma sereia que quer deixar de ser sereia para ficar com o homem dos seus sonhos, criaturas estranhas convivendo com seres humanos, gigantes, monstros marinhos, monstros voadores.
Ao mesmo tempo que os contos de fadas se aproximam de narrativas épicas e de histórias de terror mais contemporâneas, elas se distanciam por particularidades. Narrativas épicas (ou romances de cavalaria) possuem heróis, e podemos aqui retirá-las do texto, pois nosso objetivo não está em compreende-las.


As diferenças entre histórias de terror e contos de fadas, entretanto, podem parecer mais difíceis de serem compreendidas, vistas ou aceitas.
Lembrando que meu tema principal é o terror. As diferenças nesse texto sobre ambas as categorias/gêneros são a partir de observações e leituras do terror, em que se interligam com os contos de fadas. Considero neste texto, também, os contos de fadas como uma espécie de categoria de narrativa, como o terror. Mesmo que não seja considerado dessa forma nos estudos literários, será tratado assim no texto a seguir.

Quando lemos um conto de fada, principalmente em suas versões originais, notamos ali uma força que age para nos fazer sentir medo. Através de lições de moral doloridas para seus protagonistas, criaturas que sequestram criancinhas, situações que podem te deixar com medo pelo resto de suas semanas, os contos de fadas contém combustível para pesadelos.
Então, por que não considerá-los como uma subcategoria de terror? Se uma das principais características do terror é a capacidade de causar medo, contos de fadas não se encaixariam?

E aí temos um problema de temporalidade, talvez.
O terror, como gênero, surgiu no início do século XIX, após um enorme sucesso do gótico. Mesmo que muita coisa sobre o terror tenha sido pensada e repassada de forma oral anterior ao século XIX, seu surgimento data deste momento, como vários teóricos afirmam. Os contos de fadas estão no imaginário social desde muito tempo, datando de suas primeiras escritas desde o século XVI.
Porém, os contos de fadas renderam uma série de obras influenciados por eles. Muitos de nós conhecemos suas narrativas e suas histórias a partir dos filmes da Disney, principalmente. Então, talvez por isso é difícil compreender onde começa um conto de fada e onde termina.

Outra característica importante e que talvez diferencie esses contos no período contemporâneo são suas criaturas. O autor e teórico Noel Carroll, em seu livro Filosofia do Horror ou Paradoxos do Coração escreve que, enquanto os monstros nos contos de fadas são ordinários e convivem com os seres humanos de forma similar, no terror os monstros são extraordinários.
Se nos contos de fadas nós encontramos um lobo gigante falando, a vida segue. Se no terror encontramos um lobo gigante falando, a surpresa e o medo são as principais reações.

Ainda sim devemos considerar que o terror é um gênero que, frequentemente, aparece com outros gêneros, possui elementos que se intercalam com outros elementos. Não é incomum vermos filmes de terror e drama, terror e ficção científica, terror e comédia. Assim, não é difícil encontrarmos elementos de contos de fadas/fantasias em alguns filmes de terror.
E, acima disso: não podemos ignorar a influência das narrativas de contos de fadas em uma série de outras narrativas. A oralidade dos contos de fadas se mesclam durante a história com a oralidade de histórias de horror, até que essas passassem a ser escritas.

The Company of Wolves, 1984

Em Tale of Tales (Il racconto dei racconti), filme de 2015, dirigido por Matteo Garrone, vemos diferentes contos de fadas, retirados dos livros de Giambattista Basile, que escreveu o livro Pentamerão, um dos mais conhecidos livros sobre contos de fadas, e talvez um dos mais antigos, datando do século XVI. Pentamerão foi o primeiro livro em língua latina a citar a palavra ogro.
Em The Company of Wolves, de 1984, dirigido por Neil Jordan, observamos, entre outros, a figura da Chapeuzinho Vermelha, através do olhar de Angela Carter, que reuniu uma série de contos de fadas em variadas partes do mundo em seus livros A Menina do Capuz Vermelho e 103 Contos de Fadas.
Ambos os filmes tratam de contos de fadas sem perder sua essência, mesmo sob um olhar contemporâneo, e ainda assim se intercalam com o horror/terror.

Mesmo diferentes, é comum que o terror beba da fonte dos contos de fadas. Já foi dito exaustivamente que os contos de fadas não são tão bonitinhos quanto os que a Disney nos apresentou. E é interessante conhecer esses contos, esses elementos, essas situações até mesmo para reconhecer isso tudo nas próprias narrativas de terror.
Para compreender o papel e a importância dos contos de fadas em livros, recomendo a leitura de O Grande Massacre dos Gatos, de Robert Darnton, principalmente seu primeiro capítulo; e o livro da Editora Wish, Contos de Fadas em suas versões originais, que traz uma quantidade interessante de contos populares e contos raros, ótimo para conhecer um pouco dessas histórias, além de contar com um prólogo incrível escrito por Ana Lúcia Merege.

Links:


  • Contos de Fadas em suas versões originais: Loja Virtual Wish
  • A Menina do Capuz Vermelho e Outras Histórias de Dar Medo: Amazon
  • 103 Contos de Fadas: Amazon
  • O Grande Massacre dos Gatos: Amazon
  • Pentameron: Amazon



Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

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