Sidney Prescott: sobrevivente, protagonista e escritora de sua própria história

Sidney Prescott

Scream (Pânico) é uma das grandes franquias de terror com serial killers: com 4 filmes, a franquia ainda rendeu uma série de paródias (como Scary Movie - Todo Mundo em Pânico), e ainda uma série, com 24 episódios divididos entre duas temporadas.
Wes Craven (Nightmare on Elm Street, The Hills Have Eyes) foi o diretor responsável pelos 4 filmes da franquia, com roteiro por Kevin Williamson (The Following, Vampire Diaries).

Dentre tudo que pode ser dito sobre Scream, além de que seu vilão, Ghostface, é um péssimo vilão, uma das coisas mais importantes da franquia é a personagem principal: Sidney Prescott. Williamson e Craven foram muito espertos e felizes em trabalharem a história de Sidney.

O texto a seguir pode conter spoilers se você não conhece a personagem.

Em Scream (1996), somos apresentados à personagem que seria protagonista por toda a franquia: Sidney Prescott, interpretada por Neve Campbell, e que seria responsável por ser uma grande inspiração pro cinema de horror dali em diante. Sendo ela mesma inspirada em uma série de heroínas de filmes de terror anteriores (inclusive Nancy, de Nightmare on Elm Street, também de Wes Craven), Sidney apresenta alguns elementos novos e que seriam importantes para o contexto do qual o filme estava inserido.

Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), Nancy Thompson (Heather Langenkamp) e Sally (Marilyn Burns), entre outras, já haviam demonstrado um pouco do que era a tendência final girl: mulheres que sobrevivem à maníacos. Até aí pode parecer muito progressista para os anos 1980, mas os anos 1990 precisava de um detalhe a mais: as final girls antigas, as scream queens, eram moças inocentes, virgens, regradas, que não saíam da linha. Os anos 1990 precisava de liberdade e um pouco mais de agressividade.


Sidney Prescott representa isso: ela tem seu namorado, e apesar de ainda manter um certo ar inocente no primeiro filme, ela não é a moça loira e boazinha, com sua mãe e seu pai em casa, que cuida do seu irmãozinho. A mãe de Sidney guarda enormes segredos, que vai ser utilizado como pano de fundo até o terceiro filme da franquia, e descobriremos que Sidney paga muito caro por todos os "pecados", que a mãe dela cometeu. Sidney Prescott precisa lidar com sua própria passagem pra vida adulta, com um assassino (que altera de personalidade por trás da máscara nos filmes seguintes), e com os antigos problemas de sua mãe, além de um pai que não é dos mais presentes do cinema.

Mesmo que o Ghostface (ou os Ghostfaces) seja o pior perseguidor dos cinemas, chegando a ser ridículo em certas partes, ele ainda consegue fazer um estrago violento na vida de Sidney: mata a maioria de seus amigos, vira sua vida de cabeça pra baixo, acaba com seus últimos anos da escola e com seus anos na faculdade. Mas Sidney, que poderia escolher uma vida miserável, segue vivendo. No terceiro filme da franquia, Scream III (2000), Sidney está reclusa em uma fazenda, com uma alta segurança, mas ela trabalha: e ela trabalha ajudando, de forma anônima, mulheres que sofreram algum tipo de abuso ou violência.

Outro ponto importante durante a franquia Scream é o papel da mídia e do cinema na vida de Sidney. A mídia não deixou Prescott em paz desde o assassinato de sua mãe, caçando todas as desgraças de sua vida. No segundo filme, Scream II (1997), podemos ver que fizeram um filme ficcional (um filme dentro de um filme) chamado Stab, com os acontecimentos que Sidney passou anteriormente, que ficaram conhecidos como "Os Assassinatos de Woodsboro". No filme seguinte, Scream III, temos outra gravação, e no quarto filme, Scream 4 (2011) é a própria Sidney que escreve um livro sobre o que passou, demonstrando que ela assumiu controle sobre aquilo que querem falar sobre ela.

Nesse ponto, sobre a mídia, surge outra personagem feminina importante durante a franquia: Gale Weathers, interpretada por Courtney Cox, é uma mulher que sabe muito bem o que quer: ela é uma jornalista, quer cobrir um grande furo, e acha que a história de Sidney pode levar ela ao Pulitzer. Mas conforme os anos vão passando, conforme Gale acompanha Sidney, ela se transforma em uma grande aliada na luta contra todos aqueles que assumem a máscara do Ghostface. Mas Gale merece um texto só dela, que ficará para outro momento.


E, por último, é importante tocar no assunto dos homens que estão por perto de Sidney. Sidney, desde um pai complicado, até seus amigos do primeiro filme que estão sob o manto de Ghostface, ou mesmo aqueles que se assumem seus amigos ao passar dos anos, está cercada por homens inúteis. Dewey, interpretado por David Arquette, talvez seja o único homem que realmente é útil durante os 4 filmes da franquia (com menção honrosa ao personagem Randy Meeks, vivido por Jamie Kennedy). O fato de que os homens não tenham muito papel forte, e sejam somente os assassinos e psicopatas, ou até mesmo instrumentos para que Ghostface faça o que precisa, deixa espaço para duas heroínas mulheres protagonizarem e se mostrarem independentes: Gale e Sidney. Elas tem seus próprios objetivos, e nenhum deles envolve um homem, somente elas próprias e sua sobrevivência.

Sidney Prescott é uma das maiores heroínas dos filmes de terror, uma figura de força e resistência, mesmo diante das maiores adversidades. Ao mesmo tempo, é uma personagem muito humana, com uma série de erros e defeitos a serem contabilizados. Suas decisões são emocionais, é uma mulher que sente muito, mesmo depois de todos esses anos sendo perseguida por um assassino.

Sidney é uma mulher que sofreu perdas enormes por ataques de diversos sádicos ao longo de sua vida. Perdeu sua mãe, perdeu seus amigos inocentes (e até os que não eram inocentes), e mesmo assim encontrou forças para se reerguer, ajudar outras mulheres, contar sua própria história. Muitos (muitos mesmo) tentaram derrubar essa figura feminina, e todos eles falharam.




Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

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