Resenha: As Melhores Histórias Brasileiras de Horror



Antologias de horror/terror me chamam atenção sem muito esforço. Não só por gostar muito de histórias curtas e contos, mas também porque, geralmente, quando se trata de uma antologia com diversos autores, o recorte feito pode gerar imensas possibilidades de descoberta. 


Em As Melhores Histórias Brasileiras de Horror, lançado em 2018 pela Editora Devir, organizado por Marcello Simão Branco e Cesar Silva, podemos observar 144 anos de histórias de terror com autores brasileiros. Além de uma introdução interessante, com um panorama bastante completo e cuidadoso sobre o que foi e o que é a produção de terror no Brasil desde o século XIX: quais os temas mais trabalhados, quem foram os autores, suas influências, etc.

Durante a introdução do livro, com 16 páginas, inclui citações de autores que se aventuraram a fazer uma teoria do horror anteriormente, como os trabalhos de H.P. Lovecraft, em O Horror Sobrenatural na Literatura, Stephen King com Dança Macabra, e alguns acadêmicos brasileiros do horror. Então, além de conhecermos nomes importantes na ficção de horror, também podemos ter uma ideia do horror na não ficção.
Como bem dito na introdução, e como já mencionado nesse site em textos passados, se nos apegarmos a ideia de Stephen King (e outros teóricos) que o terror utiliza temores sociais do período em que é desenvolvido para encontrar temas pertinentes, então no Brasil isso não seria diferente, e podemos dividir isso em épocas. Antes de 1920, um terror mais particular, com temas mais voltados para o pessoal, como a morte, assombrações, medos comuns nas histórias do XIX; após 1920 o terror começa a se tornar mais geral, voltado para a sociedade, para a tecnologia, epidemias e doenças.

Acho necessário, entretanto, fazer um adendo e discordar do ponto em que os organizadores da antologia mencionam que, a partir de 1990 o horror no Brasil, em sua maioria, começou a ser uma cópia "pálidas" e "pastiches" de Lovecraft e, em 2000, de Crepúsculo, levando a "resultados constrangedores". Pode-se crer, que sim, no mercado há uma grande quantidade de tentativas de evocar o "espírito de Lovecraft", seja lá o que isso significa, e que Crepúsculo foi de grande importância para certo desenvolvimento literário (não só aqui no Brasil, devemos ser sinceros).
Mas, o que tenho visto, pelo menos atualmente, é uma pluralidade interessante de temas a serem abordados. Mesmo que não no mainstream, devemos considerar as publicações independentes e editoras menores que se esforçam para que divulguem um material interessante de terror.
Cito, novamente, a lista escrita por Karen Alvares que reúne tantas autoras de terror, e cito também a ABERST, que faz tanto pela literatura de horror, policial e suspense, além das editoras Draco e Lendari.



Apesar disso, e apesar de, em uma antologia com 16 contos escolhidos por representarem o terror nacional, somente um deles ser escrito por uma mulher, considero um livro interessante de se ter por perto. A introdução traz fatos relevantes para quem quer conhecer mais sobre o terror no Brasil, com uma série de nomes que são importantes de serem conhecidos.

Os autores e os contos que compõem essa edição podem ser vistos abaixo:
  • A vida eterna, de Machado de Assis (1870)
  • Acauã, de Inglês de Sousa (1893)
  • Demônios, de Aluísio Azevedo (1893)
  • Assombramento, de Afonso Arinos (1898)
  • O defunto, de Thomas Lopes (1907)
  • A peste, de João do Rio (1910)
  • Rag, de M. Deabreu (1922)
  • O espelho, de Gastão Cruls (1938)
  • Tuj, de Walter Martins (1965)
  • Gepetto, de Márcia Kupstas (1987)
  • Bença, mãe, de Júlio Emílio Braz (1992)
  • Solo sagrado, de Carlos Orsi (1995)
  • Trem de consequências, de Roberto de Sousa Causo (1995)
  • O fascínio, de Tabajara Ruas (1997)
  • Os internos, de Gustavo Faraon (2007)
  • Bradador, de Bráulio Tavares (2014)
É interessante perceber, principalmente, como alguns desses autores bastante conhecidos por outros gêneros, acabaram escrevendo em algum momento algo sobre terror, como no caso de Machado de Assis, Inglês e Sousa e João do Rio.
Debate importante que também se levanta durante o livro é por que, mesmo com uma trajetória tão forte no terror, que é o caso do nosso próprio país com seus mitos, duas lendas, e tanto material para a escrita, tivemos tão poucas incursões no gênero? Por que tão pouco prestígio quando se trata do terror? Houve momentos em que mesmo nos Estados Unidos e Inglaterra o gênero também teve pouco prestígio, mas ainda mais que aqui.

Isso, talvez, seja debate para outro texto.
Cabe dizer, no entanto, que é um ótimo livro para se conhecer um pouco mais da nossa história no terror.
Você pode comprar o livro pelo link: Amazon

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

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