Resenha: Rastro de Sangue: Jack, O Estripador, de Kerri Maniscalco



Publicado em 2018 no Brasil pela DarkSide Books no selo DarkLove e com a tradução de Ana Death Duarte, Rastro de Sangue: Jack, o Estripador, é um livro de Kerri Maniscalco, autora norte-americana, nascida em Nova York (site da autora)
O livro conta a história de Audrey Rose Wadsworth, uma jovem da Inglaterra vitoriana, se passa em 1888 e acompanha (de forma ficcional e com algumas mudanças) um episódio bastante sangrento e cruel da história inglesa: a história do assassino Jack, O Estripador.


Audrey Rose não é a donzela vitoriana que estamos acostumados em romances de época. É uma moça atrevida, que não quer se moldar aos costumes daquele período. Sua fascinação pelo estudo da ciência forense, medicina, anatomia e tudo que envolve um corpo morto, faz com que ela tenha sérios problemas com seu pai, que não aceita que ela aprenda essas coisas macabras com seu tio, um conhecido médico em Londres e realiza certos trabalhos para ajudar a identificar criminosos.

O século XIX foi um século importante para a ciência forense, tanto prática quanto teórica, tanto teorias que funcionam e são boas, quanto teorias que se provaram racistas e deterministas ao longo dos anos. Mas, para o bem ou para o mal, foi a partir do conhecimento adquirido com os anos 1800, surgiram muitas teorias que, ainda hoje, ajudam a conhecer, identificar e perfilar maníacos e psicopatas de variados níveis. A autora não se aprofunda muito nessas teorias, e é um ponto bastante positivo, principalmente pelo caráter negativo de algumas delas citado anteriormente.
Durante o XIX, também, uma mulher tinha muitas amarras perante a sociedade, e Audrey Rose queria exercer um papel que, para ela, não era possível; mesmo com uma mente rápida, aguçada, disposta a aprender, e que poderia ajudar em diversos casos policiais. E, nesse ponto, a autora se aprofunda e bastante dos percalços de Audrey Rose para que ela possa aprender com seu tio e desenvolver suas habilidades com a ciência.



Audrey Rose é de uma família rica, tem uma posição alta na sociedade, e uma das maiores preocupações de seu pai e sua tia é que ela não seja mal vista, que sua posição não seja arruinada, que ela seja uma moça decente. As preocupações da Audrey Rose, entretanto, são muito diferentes.
Mas isso não quer dizer que ela seja uma moça completamente aquém de todas as modas e feminilidades: um dos maiores pontos de destaque de Audrey Rose é sua vontade de fazer o que quer, sem ter que abrir mão dos seus benefícios de dama de alta classe: Audrey ama seus vestidos, apesar de assumir a preferencia pelas roupas de montaria (calças, no caso).
Além de ter sérios problemas e se meter em diversas encrencas quando resolve escapar de fininho para aprender o ofício da necrópsia, Audrey acaba se apaixonando (e negando com todas as suas forças, consequentemente) um amor pelo outro aprendiz de seu tio: Thomas Cresswell. Thomas é um jovem estudante brilhante, charmoso, um pouco insolente, um bocado atrevido, mas que garante ótimos momentos engraçados com os sentimentos conflitantes de Audrey, que ao mesmo que quer focar no estudo dos corpos mortos e do crime e descobrir o paradeiro do assassino que tem assolado Londres, se sente bastante atraída por um rapaz. O que poderia facilmente ser um romance bobo em mãos menos habilidosas, na verdade se torna um caso de flerte muito divertido.

Audrey é uma personagem com muitos conflitos internos, típicos de uma jovem de 17 anos.
Ao mesmo tempo que pode parecer bobo que Audrey sempre mencione as formas e os rostos das pessoas, principalmente de Thomas Cresswell, é completamente normal e até faz bastante sentido, já que é uma estudante de anatomia. Audrey sabe reconhecer o belo, mas também o medonho, tendo ela mesmo admitido que gostava de estudar "anomalias". E essa é outra das dualidades de Audrey: ama seus vestidos bonitos assim como ama seus cadáveres. Gosta de suas maquiagens, mas não tem problema em pisar nas docas com seus melhores sapatos e vestidos. Sabe reconhecer a beleza (de Thomas, inclusive) e gosta de estudar o bizarro, o estranho. vê cadáveres todos os dias, mas tem suas dificuldades de lidar com a morte.
Audrey é, afinal, uma personagem muito humana, que fala bastante do que se esperava de uma jovem vitoriana mas sem perder um toque moderno, trazendo com facilidade sua personalidade para os dias atuais.

O livro, no geral, tem uma tensão bacana. A quantidade pequena de possíveis suspeitos de serem Jack pode deixar o mistério um pouco monótono, mas ainda sim as partes de procura, de questionamentos de Audrey, aliado com sua personalidade e com Thomas Cresswell e seus flertes, fazem com que a narrativa seja gostosa de ler e bastante fluida. A pesquisa de Maniscalco é interessante, e a edição possui um posfácio explicando as alterações históricas e liberdades criativas que a autora propôs.
Existem duas outras sequências com as aventuras de Audrey Rose, Hunting Prince Dracula e Escaping From Houdini, mas infelizmente até o momento só em inglês. Torço muito para que a DarkSide traduza para nós e dê continuidade às aventuras dessa heroína.

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Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

Um comentário:

  1. Eu sabia que você escrevia mas não sabia onde e agora que achei (pq sou sonsa e demorei pra ver o link no seu perfil no Insta) vou ler sempre! Parabéns, mulé! Tu escreve muito bem! ♡

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