Sua preferencia no terror não torna a preferência dos outros inválida

The Witch, 2015

Existem filmes ruins. Muitos.

Filmes enfadonhos, medíocres, filmes que trabalham com uma visão de mundo que não condiz com a realidade, cruéis, que se utilizam de velhos preconceitos para criar uma versão em entretenimento de coisas horríveis que nos acontecem. Mas nisso, e até nisso, o horror foi considerado transgressor: se utilizou muitas vezes de situações absurdas e ridículas para traçar um novo ponto de vista sobre acontecimentos. Alguns filmes de terror são cruéis, arrebatadores, destroem você de dentro pra fora; e por pior que ele seja, você retira algo dali.

Mas nem por isso o terror está imune de produzir porcarias, e existem vários exemplos de filmes ruins, ruins mesmo, que são mal feitos: que não nos acrescentam nada, que não tem um roteiro bem construído, que se perdem em si mesmos com facilidade, com situações sem pé nem cabeça que não leva quem assiste para lugar algum. Um dos maiores casos, que comentei dia desses no twitter, é o de "The Open House" (Vende-se Esta Casa). Todos os acontecimentos do filme não te levam a nada, não existe reflexão, não existe um porquê, não existe causa nem reação, não existe um único fio de roteiro ao qual se agarrar ali.

É necessário aprender a separar um filme ruim de um filme que não funciona para você.

Um filme que você gosta não se torna, automaticamente, bom.

Um filme que você não gosta não se torna, automaticamente, ruim.

E essa linha no terror, principalmente, é muito tênue.

O terror, acima de muitos dos outros gêneros, trabalha diretamente com nossos sentimentos e seu nome evoca aquilo que ele quer causar, como bem escreveu Noel Carroll em Filosofia do Horror. Apesar de todo tipo de mídia apelar para seus sentimentos, o horror precisa que você sinta aquela experiência, daquela forma, mais talvez que um drama ou um romance. Esse é um dos pontos que faz com que seja difícil, para muitos, definir o que é bom e o que é ruim.

O outro ponto está diretamente ligado ao ego. Algumas pessoas se recusam a compreender que o terror é amplo demais, tem ramificações demais, e que não é só o que elas gostam que prestam. Fãs de terror, assim como os fãs de Super-Heróis, tem suas predileções, e para eles essas predileções são lei. Isso faz que a comunidade seja ainda mais tóxica do que ela é, e pior: isso causa afastamento. Como pesquisadora de terror, vejo pessoas discutindo sobre predileções sem nenhum tipo de embasamento, como crianças de primário, e isso afeta diretamente meu trabalho.

Porque eu sei, e sei muito bem, que a dimensão do terror é enorme e difícil de cobrir. E é claro que a discussão é importante para o gênero, e é importante demonstrar que não se sentiu atraído por um filme. Mas algumas discussões levam as pessoas a não assistirem determinados filmes que seria importante que fossem assistidos. A crítica deve ser feita quando não gostamos de algo, mas apenas dizer que não gostou por ser um lixo não ajuda muito o crescimento do gênero, ou das discussões, ou de qualquer outra coisa.

The Babadook, 2014


Como pesquisadora de terror, eu preciso saber que um filme pode não funcionar para mim, mas pode funcionar para todos os outros no mundo. Meu trabalho é apontar os pontos que me incomodam, e a partir daí que as pessoas considerem se vão assisti-lo ou não.

E cito o exemplo de Mandy.

Mandy me incomoda a nível pessoal. Mandy é uma personagem interessante e forte, o filme leva seu nome, mas morre cedo para que o protagonista, seu marido, se vingue dela. Isso é um trope já nada novo, e que incomoda, e que não faz sentido para mim. Mas Mandy é um filme incrível, com um roteiro interessante, com uma trilha sonora arrebatadora, cores e cenários incríveis, bem construído, tem um começo, um meio e um fim.

Muitas pessoas gostaram de Mandy, mas para mim não funciona. Eu escrevi meu texto afirmando meus motivos e participei de um podcast sobre ele (links no final do texto). Gostaria que esses tropes absurdos de mulheres fossem banidos? Agora, se possível. Mas apontei seus problemas. É um trabalho lento, exige paciência, mas continuamos fazendo.

E eu poderia usar vários filmes que gostei nesse ano também como exemplo: Ghost Story e Ghostland foram filmes que funcionaram muito bem comigo, mas que não funcionaram com muitas pessoas. Como poderia citar, também, muitos filmes que eu gosto e sei que não são bons - no sentido de serem mal feitos, horríveis mesmo.

Mandy, 2018

O horror e o terror procuram evocar um sentimento de apreensão, medo, assombro nas pessoas. Por melhor que o filme seja, as vezes ele não consegue funcionar para alguns grupos. Isso está ligado diretamente a experiências, condições sociais e culturais, empatia, sensibilidade e, principalmente, gosto. Você pode gostar de slasher e odiar filmes da Universal, com seus monstros socialmente excluídos - e ambos, de certa forma, trabalham com o mesmo tipo de vilão, de formas diferentes.

Filmes funcionam de forma diferente para diferentes pessoas. O terror também é assim. Mas não funcionar para você, não significa que o filme seja ruim. Alguns filmes apelam para sentimentos que determinadas pessoas não sentiram, ainda. É ótimo quando certo terror funciona para todos, mas nem sempre isso acontece.

Sobre Mandy:

Texto: Mandy (2018): Um ótimo visual, mas um roteiro cheio de problemas
Podcast:  Nicolas, episódio 20




Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Um comentário:

  1. Parabéns irmã!!! Eu assisto tudo com todo tipo de gente e as X me surpreendo como cada filme funciona com as pessoas. Tem crítica aqui ao "I am a ghost" ??? Eu amei demais esse file mas não sei pq... hahahah Vou procurar. Saudações e fé na festa!!!

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