[RESENHA] Gibi de Menininha: Historietas de Terror e Putaria


Dizer que não conhece ou que não sabe chegar em mulheres que trabalham com terror já é algo absurdo. Dizer isso trabalhando na área é ainda algo pior (como naquele caso recente do Jason Blum). Pode parecer estranho ainda hoje, para algumas pessoas, que mulheres possam escrever sobre assuntos pesados, sobre gore, sobre morte, sobre destruição (mental e física) - sobre terror. Mas, ainda bem, que temos um time forte tentando recuperar escritoras antigas que foram apagadas por seu tempo e um time forte de mulheres de hoje que estão trabalhando incrivelmente bem com o gênero do terror. Quanto mais avançamos, mais fortes ficamos dentro dessa categoria, mais incomodamos por tomar este espaço que sempre foi nosso; e quanto mais mostramos que o terror não precisa ser um gênero que exclui e mata mulheres, quanto mais outros homens compreendem essas mudanças, mais alguns fãs antigos sugerem que o terror está morto.



Bom, a essa altura todos sabem o que eu penso sobre a morte do terror.

Essa introdução foi só pra falar um pouco da proposta do quadrinho Gibi de Menininha: Historietas de Terror e Putaria, organizado por Germana Viana, com uma capa absurda de linda de Camila Torrano, e um time de autoras e ilustradoras de arrepiar:
Por Eras e Eras te Amarei: roteiro por Carol Pimentel e arte por Roberta Cirne;
Fome: roteiro por Clarice França e arte por Mari Santtos;
Para Sempre: (ou um marinheiro me contou): roteiro de Germana Viana e arte de Renata CB Lzz;
A Última Comitiva: roteiro por Ana Recalde e arte por Talessa Kuguimiya;
Doce Inocência: roteiro de Milena Azevedo e arte por Katia Schittine e Fabiana Signorini;
Amarrados: roteiro de Camila Suzuki e arte por Gemana Viana



O projeto passou pelo processo de financiamento coletivo via Catarse e foi um enorme sucesso. Na época, fiz uma entrevista com a Germana (que vocês podem conferir clicando AQUI).
Ver um projeto assim é incrível e chama a atenção. Tentaram, inclusive, denunciá-lo, mas o Catarse o manteve no ar, funcionando, até sua campanha ser concluída.

Um breve comentário das histórias, sem spoilers:
As histórias tem temas interessantes e sombrios, típicos de obras de terror, com a produção de mulheres completamente habilidosas.
Em Por Eras e Eras te amarei, temos um conto sobre vampiros e um destino entrelaçado, que se alonga em sangue e opressão. É uma história intrigante de Carol Pimentel, com uma arte lindíssima de Roberta Cirne.
Clarice França, em Fome, escreve também sobre vampiros, mas com um rumo completamente diferente, sobre uma garota que se transforma em vampira quando já tinha um relacionamento amoroso, e ambos precisam lidar com isso. A arte fofa de Mari Santtos dá à historieta um clima muito interessante.
Para Sempre (ou um marinheiro me contou) tem uma história interessante sobre seres aquáticos e vinganças familiares, com a arte de Renata CB Lzz e o roteiro de Germana Viana.
A Última Comitiva foi uma ótima surpresa, trazendo uma personagem que não é tão comum vermos em histórias de terror na forma em que foi apresentada, e isso deu um toque interessante. Com a arte de Talessa Kuguimiya e roteiro de Ana Recalde.
Doce Inocência, diferente das outras historietas não traz algum tipo de envolvimento amoroso ou sexual, mas sim conta a história de crianças confiando em um adulto suspeito. É uma historieta muito bacana, que poderia ter saído diretamente de Goosebumps, mas sem perder o estilo e singularidade do trabalho de Milena Azevedo, que casou tão bem com a arte de Katia Schittine e Fabiana Signorini.
Amarrados é minha historieta favorita da coletânea, que conta a história de uma mulher que descobre tarde demais que lixo a gente precisa jogar fora, e não se ater à ele, com um roteiro ótimo de Camila Suzuki e a arte que gosto tanto de Germana Viana.

As seis histórias são unidas pela narrativa de Mama Jellybean, uma senhorita muito das ousadas, e a arte fica por conta também de Germana Viana. Fiquei com muita vontade de ver um quadrinho todo da personagem, que é realmente fascinante.

O quadrinho ficou muito bacana, as historietas são muito divertidas. Vale dizer que, se você não é um grande fã de terror, talvez tenha problema com algumas coisas explícitas - mas que, ainda sim, vale a pena conferir essa obra. Se você gosta de antologias, vai gostar; se você gosta de terror, vai gostar também; se você gosta de quadrinhos, tenho certeza que vai gostar. Talvez, se você for uma pessoa muito religiosa, pode ter problemas com Mama Jellybean, mas ainda sim tenho certeza que você vai gostar.

A boa notícia é que, se você se interessou e não conseguiu comprar o quadrinho na campanha do Catarse, tudo bem: A Germana estará com ele na CCXP, que acontece em São Paulo, dos dias 06 a 09 de dezembro, e logo após fará uma série de lançamentos. O quadrinho poderá ser adquirido a partir da editora Zarabata Books também.
A faixa etária recomendada é +16.
Curtam a página no facebook para ficarem de olho nas datas de lançamentos: Gibi de Menininha
Lembrando sempre que apoiar essas iniciativas dentro do cenário dos quadrinhos nacionais é algo bacana de se fazer.

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

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