[OPINIÃO] Claramente 2018 é um ótimo ano para o terror


Durante esse ano inteiro, esse primeiro ano de Fright Like a Girl (entre muitos que virão), tenho feito um esforço hercúleo para defender o terror atual, para defender o post-horror, para defender aquilo que acredito fortemente, de que o terror está em um de seus melhores momentos. Fico muito grata de saber que uma quantidade surpreendente de críticos especializados, celebridades do gênero e outros criadores de conteúdo estejam de acordo (nacional ou internacional).


Hoje a Vogue publicou um texto cujo o título é "Wasn’t This Supposed to be the Golden Age of Horror?" ("Esta supostamente não deveria ser a Era de Ouro do Horror?" em tradução livre). É um texto cretino, pretensioso, beira o bobo e demonstra uma falta de conhecimento do gênero que fere meu trabalho. O texto começa com "Se lembram de quando o horror era bom?" e essa é uma das frases que eu mais abomino enquanto uma pesquisadora do gênero. Tem uma parcela de fãs que concordam com isso. Tem muitos fãs que se prendem em uma nostalgia barata, que acreditam que os filmes atuais não são bons o suficiente. Vejo esses tipos em fóruns todos os dias - minha pesquisa, meu trabalho, é observar sobre o que esses fãs falam. Só que essa parcela fala de uma época em que filmes de terror eram sangue e tripas e mulheres em papéis inferiores, correndo com os seios a mostra, morrendo por divertimento. (Escrevi um pouco sobre isso no texto "Você não precisa gostar de slashers")
O texto da Vogue fala do ano passado, pois pensa que Get Out, Split, Super Dark Times, Raw, It Comes at Night e It não se comparam com os filmes que foram lançados esse ano. Cita Hereditary e A Quiet Place, como bons exemplos (até, mesmo com a crítica sem sentido ao A Quiet Place), mas cita também The Nun, Winchester e Slender Man como filmes ruins, além de dizer que Halloween não traz nada de novo, é só um slasher antigo.

Talvez a pior frase do texto seja "Please check out the French flick Revenge if you want to see something really provocative on that subject" ("Por favor, confiram o filme francês Revenge se vocês querem ver algo realmente provocativo nesse sentido") , logo depois de dizer que Halloween não dá medo.

Uma coisa que precisa ficar clara para quem assiste terror atualmente e não se importa nenhum pouco com a tendência, com o porquê desses filmes estarem sendo produzidos dessa forma, é que o terror passa por mudanças. Tem passado diariamente. O modo de fazer terror atualmente não é, novamente e em caixa alta: NÃO É, igual ao modo de fazer terror de antigamente. Mesmo que estejamos comparando com o ano passado: NÃO É.

O autor ainda menciona que "Horror needs an element of fun, of dark delight" ("O horror precisa de elementos de diversão, de deleite sombrio" e eu não sei exatamente onde ele aprendeu isso, se foi com o cinema trash dos anos 80, que precisa ser superado, ou se foi com o filme Summer of 84 - que, óh, esperem, é uma cópia do cinema dos anos 80 que precisa URGENTEMENTE ser superado -, mas na escola em que eu fui, sob a minha percepção de horror, essa ideia serve pra alguns subgêneros sim, mas não pode definir o gênero inteiro.

Ao mencionar Hill House, o autor argumenta que a série é lenta e, novamente, fala sobre essa sua ideia de terror "Horror is about dark delight, yes—but it’s also about intensity" (Horror é sobre deleite sombrio, sim—mas também sobre intensidade") e eu acho que ele precisa de alguma leitura sobre o gênero antes de tentar rebaixar um ano inteiro de filmes muito bons.



Perdi a conta de quantos textos escrevi citando elementos que fazem um filme de terror ser de terror. Perdi as contas de quantos textos escrevi defendendo o terror como gênero amplo, que abraça diversas subcategorias, é plural, ele conversa com vários outros temas, ele conversa com o que precisar, e você pode fazer terror a partir do que quiser.

Em um ano que tivemos As Boas Maneiras e Animal Cordial no Brasil, que tivemos produções como Unsane, Mandy, Slice, Ghost Stories e Ghostland, dizer que 2018 não é um ano bom para o terror é uma afirmação perigosa e desinformada.
Não somente no cinema ou na TV, com Hill House, Sabrina, Channel Zero e outros, mas também nas produções: a volta da Fangoria, os vários livros que flertam com o gênero, as publicações independentes, as pesquisas. Além da conquista de mulheres cada vez mais forte dentro dessas produções.

Outros sites fizeram textos sobre essa declaração da Vogue, como a Mary Sue e o Bloody Disgusting.
Ao expormos nossas opiniões sobre esse texto não estamos fazendo uma caça às bruxas à revista. No caso do Bloody Disgusting, no caso dos vários membros da produção de terror que expuseram suas reações sobre esse artigo, estamos falando do nosso trabalho, estamos falando de um movimento importante dos filmes de terror.
Pode até ser que você não goste do que está sendo produzido, e recomendo fortemente que procure os filmes antigos que você tanto é apaixonado, mas peço encarecidamente que não desmereça um ano inteiro, filmes e produções muito boas, só para causar alguma polêmica - com um texto baseado somente, no muito, no seu gosto pessoal e em uma opinião que não condiz com nenhuma realidade.

E novamente: o terror vai muito bem sim, obrigada.


Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

Um comentário:

  1. Acho que é a primeira vez que vejo alguém citando Channel Zero em um texto sobre essa leva do terror atual. É uma série bem interessante (do ponto de vista de sua origem e como se desenrola), mas meio desconhecida.

    ResponderExcluir

Comentários educados são sempre bem recebidos!

Mas não aceito nem tolero ofensas, comentários impossíveis de compreender, spams e qualquer tipo de intolerância.

Os comentários são moderados, por isso aguarde a aprovação!

Instagram