O Mistério de Ken, de Julian Hawthorne (1888)


Julian Hawthorne (1846-1934) foi um escritor e jornalista norte americano. Filho de Nathaniel Hawthorne, autor conhecido por A Letra Escarlate e um dos maiores contistas do estilo gótico dos Estados Unidos, e de Sophia Hawthorne, ilustradora e pintora de diversos jornais, Julian era conhecido de Bram Stoker, sempre sendo convidado para ir ao Lyceum (teatro em que Stoker trabalhava) para visita-lo quando estava em Londres.

Mas muito além disso, há algo que os une mais do que meras cordialidades amigáveis do círculo literário do mistério e das histórias de suspense.

Em 1888, Julian Hawthorne publicou um conto chamado "O Mistério de Ken". Poderia ser só mais um conto sobre criaturas vampirescas, de terror, misterioso, do qual muitos autores se debruçaram em suas vidas, mas o conto de Julian traz uma série de particularidades interessantes para a história das narrativas sobre vampiros.

Em "O Mistério de Ken" somos apresentados ao personagem Keningale. A narrativa ocorre em primeira pessoa, e quem conta é um amigo de Keningale, que está preocupado com ele, pois voltou de uma viagem à Europa muito ranzinza e mal humorado. Ao visitar Ken, o narrador acaba percebendo que ele estava realmente ansioso por companhia, e o conto se transforma em uma narrativa a partir do ponto de vista de Ken.

Algo muito comum em vários contos de terror do século XIX é essa narrativa em primeira pessoa, mas em que duas pessoas dividem esse papel de narrador: um personagem contando a história de outro personagem como se fosse em primeira pessoa. Acontece bastante como se personagens lessem cartas ou contassem a outros o que aconteceu, como em Frankenstein ou Médico e o Monstro.

Neste conto, e em diversos outros, isso é interessante porque o primeiro personagem, aquele que começa nos contando o que aconteceu, não tem nome e tem a si mesmo anulado, como se estivessemos em volta de uma fogueira acompanhando alguém nos contar uma história.

Ken resolve contar ao seu amigo o que aconteceu e assume seu lugar na narrativa. Ao viajar para Londres, Ken conheceu uma bela garota e se apaixonou, uma conterrânea sua. Ao se despedirem, ela indo viajar com o resto da família pela Europa e ele seguindo para Irlanda, ficou acordado que ambos se casariam. Mas o romance foi desfeito antes que Ken pudesse voltar para os Estados Unidos, pois foi na Irlanda que sua vida mudou.

Ken se sentiu acolhido pela cultura irlandesa, assim como por sua população, mas com um misto de deslumbramento e repulsa, pois era uma cultura deveras diferente da dele. É importante se lembrar de que nos séculos anteriores ao XIX a Irlanda teve sérios problemas com a Inglaterra, de origem política, cultural, religiosa. No XIX, entretanto, isso culminou em uma tensão ainda maior, gerando uma série de críticas maldosas da famosa revista Punch, que atacava os irlandeses (e mais uma série de nacionalidades e pessoas que não se encaixassem no padrão inglês), nos trazendo a famosa ilustração "O vampiro irlandês" (abaixo).

Mas foi uma tensão que não se estendeu para os Estados Unidos. A imigração de irlandeses para os Estados Unidos fazia com que o clima não fosse tão problemático, como o próprio protagonista conta ao dizer que "Os poucos camponeses que a gente vê, no entanto, são afáveis e hospitaleiros, ainda mais quando ouvem que você vem dos Estados Unidos, aquele Céu na Terra para onde a maioria de seus amigos e parentes foi antes deles" (p. 141).


Certo dia, ao conversar com alguns recém feitos amigos, Ken descobre uma história assustadora sobre uma senhorita sequestrada por um grupo de vampiros, em que seu noivo foi até ela para recupera-la. Ken não descobre o final da história, pois deveria partir, mas se encontra preso à ela sem perceber.

E este é outro ponto interessante sobre o conto escrito por Julian Hawthorne: nossa "vilã" é uma vampira bastante diferente de Carmilla de Sheridan Le Fanu ou Clarimonde de Theóphile Gautier, pois Etheline Fionguala não pode ser inserida nem no espectro dama em perigo e muito menos em femme fatale. Etheline percebe em Ken seu antigo noivo e o prende em um universo onírico, passado, ilusório, mas não o seduz para matá-los. Acredita, realmente, que seu noivo voltou para encontra-la, mas é uma jovem que não precisa ser salva. Ela está ali como quem aceita sua posição, se alimenta do que precisa, e abandona Ken.

Mas não o faz por completo. Quando chega para visitar seu amigo, nosso primeiro narrador percebe uma série de retratos pintados por Ken, de uma mulher com uma beleza excepcional: "um olhar recatado e contemplativo, um olhar sutilmente convidativo, uma expressão apaixonada, e por fim um jeito de elfa, levemente furtivo" (p. 136). É sentido, principalmente pela vontade que Ken expressa ao receber seu amigo, que Etheline nunca o deixou realmente, e que o visita durante as noites.

Mas Julian Hawthorne não esclarece os pequenos detalhes, e nos deixa pensando o que pode ter acontecido com Ken e Etheline.
É um conto interessantíssimo sobre vampiros de um autor americano, nos mostrando um outro lado e pensamento sobre irlandeses, sobre vampiras, um toque de terror leve e interessante que aguça nossa imaginação, além de um clima gostoso de contos de fadas.

O conto está presente no já mencionado livro Herdeiros de Drácula, organizado por Richard Dalby, da editora Harper Collins. Com tradução de Flora Pinheiro e Mariana Kohnert, o livro pode ser comprado na Amazon: Herdeiros de Drácula.




Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários educados são sempre bem recebidos!

Mas não aceito nem tolero ofensas, comentários impossíveis de compreender, spams e qualquer tipo de intolerância.

Os comentários são moderados, por isso aguarde a aprovação!

Instagram