O Destino de Madame Cabanel, de Eliza Lynn Linton (1872)


Antes de Drácula, grande clássico da literatura de terror publicado em 1897 por Bram Stoker, uma série de outros autores se debruçaram sobre o tema "vampiros". Esse foi o tema da minha monografia, intitulado "O vampiro fin-di-siècle: História, Literatura e Imperialismo em Drácula, de Bram Stoker (1897)", e já toquei nesse ponto algumas outras vezes no blog, nos textos "As mulheres na literatura de vampiros do século XIX" e "O Mistério da Campagna, de Anne Crawford". Me interessa, principalmente, as mulheres nessas obras - como autoras ou como personagens.

O ano de 1872 é um ano importantíssimo para a literatura de vampiros. Sheridan Le Fanu escreveu uma das obras mais importantes sobre as criaturas, que não só traz uma mulher como protagonista e uma mulher como vampira, como também a possibilidade de amor entre duas mulheres. Considera-se que Carmilla seja a primeira obra sobre uma vampira lésbica que se tenha notícia. Mas é um ano que tem outra história de vampiros que merece uma lembrança. Eliza Lynn Linton escreveu em 1872 o conto O Destino de Madame Cabanel.

O conto narra a história de Fanny Campbell, uma senhorita muito pobre que, certo dia, após ser abandonada por seus antigos patrões, encontrou o Monsieur Jules Cabanel, um homem que lhe deu uma casa e se casou com ela. A Madame Campbell se mudou para a aldeia de Pieuvrot, na Bretanha (uma região no Oeste da França), vinda de Paris. Porém, Madame Cabanel é vista com péssimos olhos por todos na aldeia. Loira, uma mulher "rechonchuda", de lábios e bochechas vermelhos, todos na aldeia a odeiam, e logo se espalha o boato de que a mulher é uma vampira, graças, principalmente, à governanta do Monsieur Cabanel, Adèle. Infelizmente, graças a um episódio trágico do destino, todos os aldeões acabam acreditando nas palavras de Adèle e do homem sábio da aldeia, Martin Briolic. Madame Cabanel acaba morta, e Jules Cabanel prende a todos que foram influenciados pelos dois.

A história que Eliza escreveu é interessante por uma série de fatores: existe a clara disputa de França vs Inglaterra, algo que era bastante comum em alguns textos literários do século XIX; e, sendo Eliza inglesa, conseguimos encontrar traços nacionalistas daqueles que iremos perceber também em Drácula, mas de uma forma diferente, que é algo que nos leva ao outro fator interessante, pois Madame Cabanel não é culpada, não é vampira, é acusada injustamente de algo que nunca cometeu.

A autora cita como a aldeia de Pieuvrot era um antro de superstição, medo e falta de conhecimento ao dizer que a região "ainda não havia sido invadida pelo progresso ou iluminada pela ciência", e que Fanny Campbell "não teria chamado atenção na Inglaterra, ou mesmo em qualquer lugar que não fosse tão morto, ignorante e, portanto, fofoqueiro como a aldeiazinha de Pieuvrot". Mesmo que a personagem principal seja francesa, de Paris, ainda recorre ao seu sentimento de superioridade inglesa ao dizer que na Inglaterra, centro da ciência e desenvolvimento, não seria tratada da forma como foi.

A narrativa de Eliza é diferente das outras histórias de vampiros do XIX que sempre são citadas, primeiro por não ter uma vampira culpada, segundo por denunciar os males da superstição e perigos da falta de compreensão do diferente, e também pela construção de seus personagens. Adèle tinha um relacionamento com o patrão e se sente enciumada quando Fanny chega como noiva, e podemos considerar comum (apesar de preguiçoso) que houvesse uma perseguição por parte dela. Porém, Martin Briolic, considerado o homem mais sábio da aldeia, não tinha motivo nenhum para perseguir Fanny, além, é claro, dela ser alguém de fora.

O desconhecido não lhes parecia magnífico, mas sim diabólico.

Fazendo uma última comparação entre Drácula e O Destino de Madame Cabanel, é preciso dizer como o lugar do forasteiro muda quando falamos de uma pessoa da Europa, branca, de cabelos loiros, do que quando falamos sobre alguém dos Montes Carpatos, na Europa Oriental. Esse local, essa margem, é trabalhada de forma bastante diferente nessas duas obras, e podemos perceber isso da forma como é utilizada, por quem é utilizada, e em quais personagens é utilizada.

Eliza Lynn Linton foi a primeira jornalista assalariada da Grã Bretanha, mas apesar disso, consta que seus escritos tinham uma forte inclinação anti-feminista. Mesmo assim, seu conto mostra uma posição interessante sobre o tratamento de uma mulher por homens (e até outras mulheres) que não a entendem o desconhecido. No Brasil, seu conto O Destino de Madame Cabanel pode ser encontrado no livro Herdeiros de Drácula, lançado pela Harper Collins, organizado por Richard Dalby e traduzido por Flora Pinheiro e Mariana Kohnert.

O livro pode ser comprado no link da Amazon: Herdeiros de Drácula.


Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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