The Craft (1996): a amizade é mágica, mas perigosa

Cena do filme Jovens Bruxas (The Craft, 1996)

Jovens Bruxas, ou The Craft no original, é um filme de 1996, dirigido por Andrew Fleming que conta a história de quatro jovens amigas que descobrem os poderes da magia e a utilizarão para se vingarem de quem as fez mal.

Sarah Bailey (Robin Tunney) chega em uma nova escola e já se vê cercada de agressividade. Por ser a aluna nova, não consegue encontrar um grupo para si de imediato. Porém, durante uma aula de francês, Bonnie (Neve Campbell) vê Sarah mantendo um lápis na vertical, com a ponta apoiada na mesa, como mágica. Bonnie e suas amigas, Nancy Downs (Fairuza Balk) e Rochelle (Rachel True), praticam magia nas horas vagas, tentando contatar Manon, uma entidade da natureza (ou a própria natureza, como explica Nancy) e precisavam de um quarto elemento. Sendo assim, Sarah acaba entrando para o grupo das garotas estranhas.

As três primeiras garotas do grupo tem sérios problemas. Nancy não tem uma vida fácil em casa, onde sua mãe sofre abusos constantes do marido; Bonnie tem um problema com a pele das costas, que é cheia de queimadura e esconde seu corpo por vergonha; e Rochelle, que é negra, e sofre racismo na escola da garota do grupinho popular.

Ao entrar no grupo, Sarah acaba descobrindo mais sobre as novas amigas e elas acabam se encontrando na magia. Em uma sequência de cenas, vemos que a vida para todas elas melhoram e que elas estão felizes. Acima da resolução de seus problemas, elas se reúnem e dormem nas casas uma das outras e tudo parece bem. Mas as coisas começam a sair do controle. Lírio (Assumpta Serna), uma mulher dona de uma loja de artigos para rituais e livros, avisa que tudo que elas estiverem fazendo, voltará três vezes pra elas, pois é assim em uma série de crenças. Sarah percebe os abusos que elas tem cometido e as alerta, mas acaba sendo vista como uma traidora pelas amigas.

Sarah, Nancy, Rochelle e Bonnie. 

Jovens Bruxas, acima de ser um filme sobre bruxaria e magia, é um filme sobre amizade e amizade tóxica. Sarah se vê presa por ter sido acolhida por aquelas garotas, mas as mesmas não aceitam suas opiniões contrárias sobre os abusos de poderes. Sarah é silenciada dentro de seu grupo de amizade por tentar alertar as garotas sobre o que elas vem fazendo.

Por outro lado, temos um grupo de garotas que sofreram a vida inteira, por diversas razões, e finalmente conseguem ter um período de paz em suas vidas. O marido da mãe de Nancy falece e deixa as duas com um seguro alto, Bonnie consegue se livrar das marcas nas costas e Rochelle faz com que a garota racista da escola tenha um destino bastante terrível (começando a perder seus cabelos loiros).

Mesmo que ao final do filme Nancy seja punida por seus atos, Bonnie e Rochelle compreendam que o que fizeram foi errado, e Sarah permaneça com seus poderes, é interessante observar que, nessa estrutura particular desse filme, as garotas não são cruéis sem motivo. Elas perdem o controle, mas depois de terem uma vida inteira de abuso. Elas são aquelas que foram mantidas de lado, por ter alguma deformidade na pele, por ser negra, por ser mais pobre que o resto dos colegas.

Diferente, por exemplo, de outros filmes adolescentes que seguem uma tendência interessante, como As Patricinhas de Beverly Hills (Clueless, 1995) ou Garotas Malvadas (Mean Girls, 2004), onde as personagens principais são as garotas padrão, aquelas que são queridas na escola (mesmo que acabem passando por mudanças ao longo das narrativas), Jovens Bruxas é um filme sobre, e exclusivamente, as garotas estranhas.


Mesmo que em As Patricinhas de Beverly Hills, Cher acabe se tornando uma pessoa muito melhor ao longo do filme, e em Garotas Malvadas, Cady consiga retirar a adoração cega da escola por Regina George, em Jovens Bruxas as protagonistas são as próprias garotas que sofriam a violência adolescente. Mesmo sendo um filme adolescente como os outros, o foco principal de Jovens Bruxas são o time de perdedores, e esse ponto em conjunto com seus elementos místicos faz com que ele se aproxime mais do público de terror e alternativo, sendo outro diferencial entre as obras citadas.

Não é preciso afirmar que foi um filme que marcou uma geração. Outro ponto interessante a ser observado é justamente esse: essa geração que assistia ao filme quando mais novos, que agora está mais velha, retornou com esses filmes citados, e eles tem sido vistos por pessoas das gerações mais novas, reutilizando o discurso e a narrativa, sendo inspiração para um público mais novo, ainda mais com a recente revitalização do uso de personagens bruxas como alegorias do terror, assunto que fica para outro texto.

Mesmo depois de 22 anos, Jovens Bruxas permanece um filme ótimo, com questões importantes e uma visão sobre amizade que pode ajudar muitas outras garotas a entenderem mais sobre si mesmas.


Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

Um comentário:

  1. Sou muito fã desse filme! Na época eu estava lendo muito sobre bruxaria e ver um filme em que as meninas não se preocupavam em atrair macho foi muito revigorante. Eu e as minhas amigas nos reuníamos na casa de uma delas que tinha uma TV bem grande só pra passar a tarde assistindo. ❤️

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