O respeito dos críticos é mesmo o problema na indústria do terror?

A Quiet Place (2018)

Tivemos uma matéria publicada na BBC com o título "Por que os críticos não respeitam os filmes de terror?". Em resumo, descobriu-se um termo cunhado em 2010, qualificando essa nova onda do cinema de terror como "terror sofisticado". O ator Jamie Lee-Hill, de A Still Sunrise, curta metragem que estreou no Festival de Cannes, e o diretor e ator John Krasinski, de A Quiet Place, afirmam que seus filmes são de "terror sofisticado", que não são iguais ao terror comum.

Pois bem. Por que?



Alguns exemplos emblemáticos são: O Babadook (2014), dirigido por Jennifer Kent, que mostra uma versão sombria da maternidade; a história de terror colonial A Bruxa (2015), de Robert Eggers; A Corrente do Mal (2015), de David Robert Mitchell, com sua premissa simples, mas engenhosa; Grave (2016), da francesa Julia DuCournau, que faz um paralelo entre o canibalismo e o despertar da sexualidade; a explosão antirracista Corra! (2017), que rendeu a Jordan Peele o Oscar de melhor roteiro original; e o recém-lançado Hereditário, estrelado por Toni Colette.

São filmes que eu classificaria como post horror. Durante a matéria até temos a menção à subcategoria:

Mais reflexivas e experimentais que os filmes convencionais do gênero, essas produções levaram os jornalistas a rotulá-las não apenas como "terror sofisticado", mas também como "pós-terror", "terror inteligente", "terror sério"... - tudo, menos "terror".

A matéria também afirma que os fãs do gênero não estão felizes com essas definições, que tudo é terror e deveria estar sob o mesmo teto.
E é exatamente sobre isso que quero discutir.

Quando classifico filmes como post horror não estou fazendo juízo sobre esses filmes. Como forma de classificação, para facilitar o encaixe de categorias etc, é para isso que utilizo a denominação de post horror: um terror ligeiramente mais político, com outras preocupações, preocupações diferentes, por exemplo, do terror comercial. Escrevi dois textos sobre o assunto: O post horror não é tão ruim assim se você der uma chance e A resistência com as novas tendências do terror. Ambos os textos criticam os fãs por não aceitarem bem esse momento que estamos passando, um ótimo momento para a indústria, mas não criticando os filmes de jumpscare ou os filmes comerciais. Longe disso: o terror sobrevive durante muitos momentos com esses filmes.

Stephen King afirma em seu livro Dança Macabra o seguinte:

Os filmes e livros de terror sempre foram populares, mas a cada dez ou vinte anos eles parecem desfrutar um ciclo de maior popularidade e interesse. Estes períodos parecem quase sempre coincidir com épocas de grande tensão política e/ou econômica e os filmes e livros parecem refletir esta ansiedade à flor da pele (na ausência de termo mais apropriado) que acompanha estes sérios, mas não fatais, deslocamentos. Eles parecem se sair piores nos períodos em que o povo americano enfrentou exemplos verdadeiros de terror em sua própria vida.

(P. 46)

Aparentemente, quanto mais o terror real e político é velado, quanto mais a expectativa é de desgraça, mais obras de terror fazem sucesso. Mas quando temos as certezas de que as coisas não vão bem, essas obras diminuem de sentido.

A discussão sobre post horror e etc é longa e cansativa. Entendo os motivos pelos quais as pessoas se negam a fazer essa separação.
Sou da opinião que toda obra cultural é produzida sob viés político e que toda produção cultural do homem está nesse mesmo balaio. Terror jumpscare, terror gore, o pós terror, todos eles acabam entrando nessa ideia. Utilizo, entretanto, os termos e as categorias como forma de delimitação, demarcação, classificação, para facilitar o trabalho.

Porém, criar uma categoria sob o nome de "terror sofisticado" é um tamanho absurdo. E sim, somente pelo uso da palavra "sofisticado". O "sofisticado" no título trabalha muito mais como desserviço do que como característica. Não concordo que o terror precise ser sujo pra ser terror. Não concordo, também, que o "terror com ideia" seja melhor ou pior que outros tipos de terror.

Mas, acima de tudo isso, se os críticos não respeitam as obras de terror, muito da culpa está na indústria do próprio gênero e nessas declarações de que "terror de verdade é sujo e fede a abatedouro" ou que "terror sofisticado é muito melhor". O sucesso de Corra! (2017) não está só ligado ao fato de ser um filme de "terror sofisticado". Ele é um filme sério. É um filme relevante ao momento atual. Bem como vários outros filmes fizeram sucesso antes dele. Bem como outras tantas histórias incríveis foram contadas.

Raw (2015) foi um sucesso de críticas. Bem como uma série de filmes dos anos 1990, 1980, 1970, 1960, e antes disso. Os Monstros da Universal não precisaram de prêmios da Academia para serem ícones do terror. Franquias de slasher não precisaram do apoio de acadêmia para que sejam considerados grandes filmes. Não quero dizer com isso que premiações não são importantes. Elas são. Elas dão visibilidade, fazem com que diretores sejam bem vistos, atores, produção, etc. Mas essas premiações tem seus vários problemas. Mulheres ganham pouquíssimos prêmios da Academia. Filmes fora do circuito de Hollywood também. Antes de pensar na crítica e nos prêmios é preciso fazer uma auto crítica sobre a própria indústria.

Adianta trabalharmos seriamente em "filmes com ideias" para chegar em um Festival e jogar isso na cara de outros diretores? "Meu filme é muito político, o seu não, não quero estar na mesma categoria que você". Temos um gênero com algumas boas centenas (senão milhares, dependendo do que você considera terror) de anos. Esse tipo de discussão é vazia. Compreendo a tendência, compreendo a ideia, mas não é assim que as coisas funcionam.

Estamos em um momento do terror que é interessante. Algo, talvez, sem precedentes. Mas isso não quer dizer que esse momento é melhor que os outros. Ele está ótimo, sim: o terror passa muito bem, obrigada. Principalmente no Brasil, nosso cinema do gênero cresce e cresce forte, firme, saudável e cada vez melhor. Mas isso se deve a um processo. Resumir que o terror é hoje em dia somente por isso, esquecer seu passado, as tendências antigas, ignorar que os filmes de terror "popular" também tem ideias, também são pautados em políticas e tendências culturais e sociais, é de uma ignorância tremenda e bastante prejudicial.

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

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