Hugues, O Lobisomem, de Sutherland Menzies, 1838.


Nas últimas semanas escrevi sobre dois contos escritos por mulheres, no gênero de horror e com a temática de criaturas selvagens e perigosas: The Were-Wolf, de Clemence Housman, de 1896, sobre uma mulher lobisomem; e O Mistério da Campagna, de Anne Crawford, de 1887, sobre uma vampira.



Descobri, entretanto, duas coisas sobre The Were-Wolf: 1) Não foi o primeiro conto de lobisomens escrito por uma mulher, mas talvez tenha sido o primeiro com uma mulher protagonista; 2) foi publicado no Brasil sob autoria errada de Edith Nesbit, autora de literatura infantil. O conto, inclusive, está presente no livro Homens, Lobos e Lobisomens, organizado e traduzido por Edson Bini, publicado em 2004 pela editora Marco Zero.

Foi neste livro que descobri o conto "Hugues, O Lobisomem", de Sutherland Menzies. A seguinte crítica contém spoilers sobre o conto de que se trata.

Sutherland Menzies era o pseudônimo de Elizabeth Stone (1808-1876). Entre suas obras, podemos encontrar títulos como Political Women (disponível no projeto Gutenberg, aqui), Victorian Ghost Stories, entre outros. É dito, na apresentação de Sutherland Menzies no livro citado, que sua produção com histórias de fantasmas e com a temática gótica é bastante ampla, apesar de não conhecê-la até então.

O conto foi publicado em 1838 e narra a história da família Hugues (também conhecidos por Wulfrics). Durante o conto é citado que a família não é inglesa, vindo provavelmente de algum lugar da Normandia (noroeste da França), para trabalhar. Sua fazenda era isolada de todo o resto do povoado, e eles eram tratados como párias da sociedade local. Wulfrics, no idioma inglês (anglo-saxão), ou Wolfric, é uma mistura das palavras Wolf e Rich, que poderia significar "poderoso lobo" no contexto do conto.

Os fiéis falavam deles alternando maldições com os mais devotos sinais da cruz. Feitiçaria, latrocínio, homicídio e sacrilégio constituíam os traços principais das tragédias sanguinárias e misteriosas das quais os Hugues Wulfric eram os supostos autores. Os crimes eram atribuídos alternadamente ao pai, outras vezes à mãe e até a irmã não escapava da sua cota de difamação. Com prazer atribuiriam uma índole feroz até mesmo à criança ainda não desmamada... tão grande, tão universal era o horror que experimentavam por aqueles filhos de Caim!

(P. 72)

Acreditava-se amplamente que a família Hugues era composta por lobisomens. A situação era tão absurda que negavam trabalhos a todos eles, que acabaram definhando. Primeiro morreram os pais, depois as irmãs e por fim sobrou somente o jovem Hugues. O rapaz já não aguentava mais a vida que tinha, sendo negado trabalho por toda a redondeza, com tamanho preconceito contra sua família. Mas algo o impedia de cometer o suicídio. Hugues estava apaixonado pela sobrinha do açougueiro local, e seu amor o fazia continuar vivendo. Certo dia, Hugues encontrou  uma fantasia de lobisomem escondida perto da lareira. Então, conectou as histórias que seu avô contava e as histórias sobre sua família, de que descendiam de lobisomens.

Hugues, já no fim das expectativas de garantir a vida trabalhando e com medo de morrer de fome, vestiu a fantasia de lobisomem e foi até a encruzilhada aguardar.
Quem passou pela estrada foi o açougueiro, tio de Brenda, mulher que Hugues se apaixonou, que levava carne para o mercado no povoado vizinho para vender. Hugues o ameaçou como lobisomem, foi reconhecido, e firmou um pacto com o açougueiro: duas peças de carne para ele se o homem não quisesse virar a vítima do ataque lupino.
No desenrolar dos acontecimentos, o açougueiro descobre com o padre uma forma de matar o lobisomem.

— Não é possível matar um lobisomem — foi a resposta do sábio ante as ansiosas perguntas do atormentado açougueiro — porque sua pele não pode ser penetrada por lanças ou flechas... porém é vulnerável à lâmina afiada de uma arma branca de aço. Aconselho que você o fira levemente, ou que corte sua pata, para certificar-se de que é mesmo Hugues. Não correrá perigo algum se não lhe causar um ferimento do qual não escorra sangue, porque no momento em que a pele dele for cortada, fugirá.

(P. 83)

O açougueiro decepa a mão de Hugues. À essa altura, Brenda já sabia da armação de Hugues, e acabou o ajudando. Quando seu tio foi até a cabana do jovem, ambos conseguiram enganá-lo de que a mão decepada estava lá. Por dias o açougueiro foi atormentado pela mão, que em todos os lugares que ia, o seguia, até encerrar o tormento se jogando em um rio de morrendo afogado. Hugues e Brenda se casam, e ele continua sendo conhecido como lobisomem, porém agora sendo herdeiro dos bens do falecido açougueiro.

A narrativa inteira é cercada pelo tom de Conto de Fadas. Sabemos que Hugues sofre uma série de preconceitos que não fazem sentido, que foi transformado em pária pois veio de um local diferente daqueles outros moradores. Marginalizado, se encontra sem saída e não sabe mais o que fazer até recorrer ao disfarce de lobo. A história do personagem é repleta de preconceito e injustiças sociais, no qual ele acaba se vingando.

Sutherland Menzies, ou Elizabeth Stone, constrói uma história em 1838 sobre um homem que decide ser aquilo que todos temem que ele seja para se livrar de uma vez dessa situação incômoda. Constrói, também, uma narrativa sobre lobisomens em que o preconceito social e cultural é o ponto chave, e não a barbárie ou selvageria da criatura.

É um conto interessante sobre o local e descendência das pessoas e como isso afeta suas vidas, como um boato pode se transformar em uma crença e como isso é perigoso.


O livro Homens, Lobos e Lobisomens pode ser encontrado no site Estante Virtual.
O conto, em inglês, pode ser lido no site Werewolf Page.
A Sybylla, do Momentum Saga, fez a página da wikipédia em português para Elizabeth Stone


Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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