The Were-Wolf, de Clemence Housman (1896)


Apesar de gostar muito da criatura lobisomem, tenho sérios problemas relacionados às obras que se baseiam nesse mito. Meu maior problema, geralmente, é o enaltecimento da masculinidade e a brutalidade.



Se fosse somente isso, ainda conseguiria relevar. Mas, aliado à força, à luta, ao derramamento de sangue, sempre tem a personagem feminina que é abusada, que é fraca, que é subjugada e que é deixada para morrer, vítima da fúria do lobisomem, que pode ter sido seu marido, companheiro, ou alguém que a amava. Sinceramente, essas histórias não me deixam contente faz um bom tempo, e eu tenho evitado cada vez mais consumir esse tipo de narrativa.

O terror tem se reinventado e tem feito com que mulheres (e alguns homens) percebam que essas narrativas já não são interessantes. Esse ano tivemos o lançamento de As Boas Maneiras, filme de Juliana Rojas e Marco Dutra, temos o excelente livro Lobo de Rua, de Jana Bianchi, e temos vários outras obras, como esse conto maravilhoso, Apresamento, da Nina Bichara.

Apesar da reinvenção, não podemos dizer que estamos diante de algo inédito. Dizer que a incursão das mulheres no terror é algo novo seria de uma mentira tremenda. É necessário se lembrar que as mulheres moldaram o gênero e tiveram uma enorme participação no que entendemos sobre terror. Em contextos diferentes, e em vários momentos da história do terror, pessoas já não se sentiam a vontade com a predominância masculina e os estereótipos que eles criavam.

Uma dessas figuras foi Clemence Housman.
Clemence foi uma autora, ilustradora e ativista pelo movimento sufragista. Inglesa, nasceu em novembro de 1861 e faleceu em dezembro de 1955. Suas obras conhecidas são The Life of Sir Agiovale de Gallis, uma história arturiana; Unknown Sea e The Were-Wolf, essa última a que será mencionada nesse texto.

Alguns outros detalhes precisam ser ditos sobre o lobisomem de Clemence. Além de ser escrito por uma mulher, a lobisomem é uma mulher também. Clemence escreveu uma guerreira, uma mulher caçadora para assumir o papel de lobisomem em sua história. O texto contém spoilers.

The Were-Wolf narra a história de um grupo de pessoas que vivem em uma fazenda, entre eles os trabalhadores e os membros de uma família. Durante uma noite, enquanto o irmão mais novo dos dois jovens rapazes gêmeos que habitam este local caçava, chega até a fazenda uma mulher encantadora, com um casaco de pele branca, com um sorriso encantador. Sweyn, o irmão mais velho e mais forte dos gêmeos ficou em casa, e assim que viu a estranha se apaixonou por ela. Ela disse que poderiam chama-la de White Fell (Pele branca, ou Pelo branco) porque seu nome seria impronunciável para aquelas pessoas, pois ela vinha de terras distantes.

She dropped her hand upon her axe with a laugh of some scorn. 'I fear neither man nor beast; some few fear me.' And then she told strange tales of fierce attack and defence, and of the bold free huntress life she had led.

Christian, o irmão que saiu para caçar, chegou em casa e avistou um lobo branco, que sumiu depressa. Mas ao entrar em casa ele logo se dá conta de quem é a estranha: o lobisomem.

Durante a narrativa descobrimos que Christian e seu irmão se davam muito bem. Mesmo que Sweyn fosse mais forte e superasse seu irmão em tudo, menos na corrida, Christian não tinha problemas ou inveja com isso. Porém, quando Sweyn não acredita nas palavras de Christian e o chama de louco, algo se rompe entre os irmãos, e a intriga começa ali. Algumas mortes ocorrem até que Christian consiga colocar seu plano em prática para desmascarar White Fell, e ele precisa se sacrificar para abrir os olhos de seu irmão.

And before the final blank overtook his dying eyes, he saw that She gave place to It; he saw more, that Life gave place to Death - causelessly, incomprehensibly.

O final da narrativa se dá em uma alegoria cristã sobre o nome Christian e a forma que ele morreu. A história é bastante simples, mas se pensarmos que foi publicada em 1896 por uma mulher pode não ser tão simples assim. Housman escreve uma história arrepiante e muito tensa, consegue fazer com que você fique de olhos pregados o tempo inteiro, até conseguir terminar de ler. A leitura, entretanto, não foi das mais fáceis. Não há tradução do livro para o português do Brasil, e o inglês de 1896 não é dos mais fáceis. Mas não deixou de ser uma ótima leitura, mesmo sendo difícil.

Clemence não apela para a selvageria masculina dos lobisomens. E, ao mesmo tempo, sabemos que estamos diante de uma criatura cruel, que entrou na casa de uma família e cometeu assassinatos. Clemence também não precisa afirmar que mulheres são seres sem coração ou que White Fell é a culpada pela briga entre os irmãos Sweyn e Christian. Diferente de Theóphile Gautier, que escreveu A Morta Amorosa, em 1836, Clemence consegue deixar de fora a ideia de que aquela mulher é o mal, que ela estaria levando aqueles irmãos ao pecado. Podemos tirar de The Were-Wolf, que o grande problema dos irmãos foi não terem conseguido lidar com eles mesmos, independente de ter uma mulher na história ou não.

Clemence encontrou em 1896 um equilíbrio que pode parecer muito difícil de ser alcançado, mas não é. Existem autoras e autores maravilhosos que tem conseguido.

O livro pode ser comprado aqui, em formato físico ou ebook: The Were-Wolf.
Também pode ser acessado no Projeto Gutenberg: The Were-Wolf.

Wikipedia em português da autora: Clemence Housman.

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

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