[OPINIÃO] Remakes, representatividade e as opiniões contrárias

Sarah Michelle Gellar como Buffy Summers

Uma coisa que vemos demais nos filmes de terror são remakes e reboots. Eu não tenho dados completos e gráficos, mas percebo que é um dos gêneros e categorias que mais recebe remakes. Por que isso acontece tanto? Por que continuar fazendo histórias antigas, sendo que tantas histórias novas podem ser contadas? Por que insistir em recontar uma história?



Recentemente, durante o evento San Diego Comic Con (SDCC), saiu a notícia de que Buffy, a famosa caçadora de vampiros dos anos 1990, receberia um reboot. A reação foi instantânea: muitas pessoas apoiaram, muitas pessoas odiaram, e mesmo que o rumor tenha sido esclarecido pela showrunner Monica Owusu-Breen, que disse em um tweet que esses personagens não poderiam ser substituídos e estava na hora de conhecer uma nova caçadora, a ideia de um reboot e todas essas opiniões trouxeram questionamentos e problemas interessantes para serem pensados, principalmente no que tange ao horror e ao que me toca como pesquisadora.

Sempre fui muito contra remakes e reboots. Quando saiu a notícia que O Corvo teria um remake, eu praguejei muito. Mas todos os comentários que li sobre Buffy me fizeram pensar sob uma nova perspectiva.

E se, por um acaso, olhássemos esses remakes como uma nova oportunidade para essas histórias?

Filmes, séries, livros... todas essas mídias são criadas por pessoas que estão dentro de um contexto histórico e social, e suas produções estão nesse mesmo contexto. Poderíamos até entrar aqui na discussão de afastar um autor daquilo que ele produz, que é uma discussão em alta nesse período violento que estamos passando, mas vou deixar isso pra outro texto e me ater aqui na questão principal: esses contextos históricos, sociais, culturais, eles mudam. E eles tem mudado cada vez mais rápido. Nesse sentido, remakes são uma ótima opção para dar um novo contexto, um novo problema, uma nova visão e uma nova crítica em histórias incríveis.

Assisti, para o Todo dia um filme de terror, o The House on Sorority Row, de 1983, e o seu remake, Sorority Row, de 2009. Assim que assisti ao filme de 1983 pensei o quanto seria incrível termos um remake nos dias atuais, simplesmente porque os problemas mudam. Eles se tornam diferentes. O que uma mulher sofria de situações negativas na década de 1980, são situações diferentes (as vezes) do que elas sofrem atualmente. Soube do remake de 2009 e resolvi assistir no dia seguinte. O filme mantem a mesma premissa, a mesma ideia, mas os problemas, as personagens, o que elas passam, e o tema que guia a amizade da qual o filme trata, são diferentes. E mesmo assim, mesmo sendo um remake recente de 2009, percebo o quão seria interessante se tivéssemos um filme nos dias atuais, porque problemas que são tratados ali já foram superados.

Na imagem de cima: The house on sorority row, de 1983; abaixo: Sorority row, 2009.

"Mas por que refazer essas histórias? Por que, então, não fazer um filme novo com esses temas?"
Vejo que, da mesma forma que nós temos nossas preferências, somos fãs de nossos assuntos, muitos diretores e produtores também tem suas ideias e filmes preferidos, também tem ideias que eles tem vontade de trabalhar, também tem suas influências. Afinal de contas, os filmes antigos permanecem lá. Eles não são excluídos quando pensamos em um remake para ele. O terror é um gênero para causar desconforto, lidar com problemas, e como diria o próprio Stephen King, "mexer no vespeiro". Porém, é importante lembrar que os problemas e os vespeiros mudam constantemente. Seus temas e seus panos de fundo também.

Remakes são interessantes para que situações que seriam comuns naquele momento, no momento "da obra original", sejam posicionados e repensados para os dias atuais. Dou o próprio exemplo de Buffy: apesar de ser uma série com bastante representatividade para os moldes dos anos 1990, poderíamos fazer muitas coisas diferentes: poderíamos lidar melhor (ou retirar, por favor) o abuso que Buffy (Sarah Michelle Gellar) sofre de Spike (James Marsters) na sexta temporada, poderíamos alterar situações em que Willow (Alyson Hannigan) passa com Tara (Amber Benson), sobre a sexualidade de Willow, poderíamos alterar questões étnicas tratadas em alguns episódios. E mesmo que aqui o exemplo seja Buffy, isso se aplica ao reboot de Sabrina, que tem estreia prevista para 26 de outubro pela Netflix, ou até mesmo o novo desenho da She-Ra (mas esse ainda tem muitas outras camadas).

Representatividade, protagonismo feminino, protagonismo negro, protagonismo LGBTQ+ nunca é demais! Precisamos que esses assuntos sejam abordados, e talvez se eles forem abordados a partir de séries e filmes de sucesso, com algum remake ou reboot, que seja, pois chama a atenção.

É compreensível o receio de que uma obra da qual estamos familiarizados e que gostamos receba um remake, mas, novamente, a obra original vai permanecer lá, e pode ser acessada sempre. É importante e é bom que histórias sejam recontadas. Mesmo que existam outras histórias para serem mostradas, é interessante perceber que existe a possibilidade de revisitarmos uma história que gostamos com temas que são pertinentes para nós e nosso tempo.

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

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