O Mistério da Campagna, de Anne Crawford

Marcilla ataca a adormecida Bertha, Ilustração do de D. H. Friston (1872) (Fonte: Wikipedia). Ilustração geralmente atribuída à Carmilla, mas que serve ao propósito de ilustrar o texto a seguir.




Escrevi recentemente sobre The Were-Wolf, de Clemence Housman, que narra a história do infortúnio de dois irmãos que acabaram cruzando caminhos com um lobisomem; o que não teria nada demais se não estivéssemos falando falando de um conto de terror, escrito por uma mulher, em 1896, com a criatura lobisomem sendo também uma mulher. Infelizmente, ainda em 2018, percebemos que mulheres tem sua escrita apagada, e isso é um grande incomodo. Clemence Housman nunca teve uma tradução para o português do Brasil e é autora de um texto interessante sobre lobisomens.

Não é surpresa para ninguém que essas histórias desapareçam das listas de obras de terror, e pode ser surpresa para muitos que as mulheres tenham uma produção neste gênero em pleno século XIX. Mas não deveria ser.

Em 1887, 10 anos antes de Bram Stoker lançar seu Dracula, Anne Crawford (1846-?), inglesa, escreveu e publicou uma história sobre uma vampira mulher. Anne Crawford não teve uma carreira literária, mas seu irmão, Francis Marion Crawford (1854-1909) foi um autor conhecido de ficção histórica e fantasia, tendo escrito em 1905 um famoso conto sobre vampiros, chamada "Porque o sangue é a vida".

Em seu conto, temos duas narrativas separadas. Começamos conhecendo o primeiro narrador, que é um artista chamado Martin Detaille. Ele acompanha seu amigo, um jovem que também é artista, chamado Marcello, a procurar uma casa para que ele possa trabalhar em paz. Os jovens estão na Itália, e o texto é permeado por críticas e comentários negativos aos franceses e aos italianos em contraponto com uma série de comentários positivos aos ingleses, buscando demonstrar certa superioridade deles em relação aos outros (o que, de certa forma, torna o texto lento). Nesta primeira parte é importante observar como Anne Crawford detalha esses momentos em que Martin aguarda contato de seu amigo, sabendo que tem algo errado com ele, toda sua angústia para saber como ele está, porém, que aguarda que ele faça contato, enquanto trabalha com outros artistas em sua casa. Demonstra, também, os episódios em que Martin começa a não dormir bem e, ao final, como ele se encontra enfermo.
Na segunda parte da narrativa somos apresentados a Robert Sutton, um homem inglês (e esse detalhe é importante), que esteve presente durante os momentos de doença de Martin, enquanto este murmurava, com febre, que queria ir atrás de seu amigo Marcello e como ele corria perigo. Ele conta como foi atrás de Marcello, como o encontrou nos braços de uma mulher, e como ela havia deitado a cabeça nos ombros dele "e os braços abertos a envolveram, de forma que o rosto dela escondeu-se no pescoço dele"(P. 211). Narra, também, sobre a enfermeira que cuidava de Martin, que se chamava Claudius, uma freira que faz a ligação dos acontecimentos com o sobrenatural.
Ao final do conto de Crawford, temos a descoberta de que Marcello estava realmente morto, e jazia ao lado da tumba de uma mulher, chamada Vespertília. No texto, quando descobrem o nome da vampira, segue o comentário de Sutton: "isto estava em latim, e mesmo o nome da mulher sugeria algo maléfico esvoaçando ao crepúsculo" (P. 229). Em nota de rodapé, descobrimos que é uma referência ao grupo de morcegos chamados vesper bats, ou "morcegos do anoitecer", da família Vespertilionídeos.

É significativo, no período em que essa obra foi escrita, que Sutton, o homem que mata a vampira e que é o homem cético que acaba sendo arrastado dentro de um caso sobrenatural, seja inglês, em conjunto com todos os comentários negativos às outras nacionalidades. Bem como em Dracula, de Bram Stoker, estamos diante de um momento em que o discurso de que a Inglaterra era a grande potência mundial, e que os ingleses teriam a superioridade da raça diante de qualquer outro povo.

É importante notar, também, o lugar que assume Vespertília. Ela é uma mulher e é vampira, mas seu caso de "amor", que é o que pensam que ela tem com Marcello, ocorre de forma normal. Diferente de outra obra em que uma mulher é vampira, como Carmilla (1872), de Sheridan le Fanu, ou de "A Morta Amorosa" (1836), de Theóphile Gauthier, ela não é tratada como monstro por ser mulher, mas como um perigo por ser uma vampira. Os ataques de raiva de Sutton, ao matar Vespertília, estão principalmente ligados ao fato de que ela é uma vampira. Se, em qualquer momento da narrativa, trocarmos Vespertília por um homem e que ele seja um vampiro, não haverá alteração no sentido da história. Isso demonstra, no mínimo, que o fato dela ser uma mulher não prejudica no juízo de valor do leitor ou da autora, diferente, talvez, das outras duas obras citadas, em que o fato da vampira ser uma mulher altera completamente o sentido do ser vampiro. Inclusive, poucos são os comentários feitos sobre a relação de Marcello e a vampira.

No livro O vampiro antes de Drácula, Martha Argel e Humberto Moura Neto, na apresentação de Anne Crawford, citam uma lista de outras mulheres que também se aventuraram a escrever sobre vampiros no período pré-Drácula. A lista conta com nomes como as inglesas Elizabeth Caroline Gray, que em 1828 publicou The Skeleton Count, or The Vampyre Mistress, no que talvez tenha sido a primeira mulher a escrever sobre o tema; Eliza Lynn Linton, com "The Fate of Madame Cabanel", de 1880; Mary Elizabeth Braddon, com "A Boa Senhora Ducayne" (e que talvez seja uma das únicas que tenha tradução para português nessa lista), em 1886; Arabella Kenealy, com "A Beautiful Vampire", de 1896 e Florence Marryat, com The Blood of the Vampire, de 1897; com as francesas Rachilde, que escreveu Monsieur Venus, de 1884 e Madame la Mort, de 1891; e Jeanne de la Vaudère, com "Bérénice", "Viviane" e Yvaine, de 1897; a estadunidense Cora Linn Daniels, com Sardi: A Story of Love, de 1891; e a belga, Marie Nizet, com Le Capitaine Vampire, de 1879.

Referência:


  • O Vampiro Antes de Drácula, com organização, tradução e notas de Martha Argel e Humberto Moura Neto, publicado em 2008 pela Editora Aleph. 

Recomendo a leitura também do texto Carmilla, de Sheridan Le Fanu, escrito por Monique, do Eye of the Witch, e editado pela Michelle, do Feminist Horror.

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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