ENTREVISTA: Jana Bianchi



A entrevistada de hoje é Jana Bianchi. Jana é autora do livro Lobo de Rua, que saiu pela editora Dame Blanche, e está na coletânea Cantigas no Escuro (já escrevi um textinho sobre a coletânea que pode ser lido AQUI). Jana também é editora da Mafagafo Revistacohostess no podcast Curta Ficção e colaboradora no jornal Tempos Fantásticos.
Seu livro, Lobo de Rua, é uma história sobre um garoto que mora nas ruas de São Paulo e descobre que é um lobisomem. Jana criou um submundo incrível nas ruas da capital paulista, chamado Galeria Creta.
Vocês podem conferir o trabalho completo de Jana em seu site: Jana Bianchi





A intenção dessas entrevistas é falar sobre o trabalho de mulheres no gênero do terror, seja produzindo, desenhando ou escrevendo. As entrevistas anteriores podem ser lidas nos links seguintes: Germana Viana / Larissa Prado / Barbara Herdy


Fright Like a Girl (FLAG): Jana, primeiro queria muito te agradecer por essa entrevista, sou muito fã do seu trabalho e amo te acompanhar pelas redes sociais (beijos pra Paçoca). Queria começar perguntando se você é uma pessoa que é fã de terror como um todo (filmes e etc), se isso é um gosto mais reservado, ou se na realidade você é só muito fã das criaturas incríveis que você acaba colocando em suas histórias.
Jana Bianchi (JB): Ah, eu que agradeço seu convite pra essa entrevista, é uma honra! E a Paçoca mandou uma lambida (e a Pipoca mandou outra, hahaha). Que legal essa pergunta, é a primeira vez que me pedem pra falar sobre... E a resposta é que eu sempre gostei muito de terror — embora sempre tenha sido muito medrosa, RISOS. :P

Quando eu era mais nova, amava ler sobre teorias da conspiração e causos malucos, mesmo que depois não conseguisse dormir pensando nisso. Morria de medo das reportagens do Chupa-Cabra e ET de Varginha no Fantástico, mas lá estava eu grudada na TV quando começavam a falar sobre o assunto. Quando encontrei as caixas de livros de fantasia e ficção científica do meu pai (lá pros meus onze, doze anos), cheguei a ler até O Exorcista. E claro, assistia a muitos filmes de terror — pensando hoje, vejo que meus pais eram super mente aberta de me deixar alugar as coisas que eu alugava com a idade que eu tinha hahaha... E, por causa disso, de fato, houve uma época da minha vida em que eu tinha muito medo na hora de dormir, todas as noites...

Mas hoje eu penso que o fato de sentir medo era JUSTAMENTE a graça do negócio. Não sei porque, mas mais nova tinha essa ideia de que as pessoas que gostavam de terror eram as que não tinham medo... O que não faz nenhum sentido, né? Teve um curto período da vida em que eu me afastei do gênero justamente por conta desse pensamento bobo, tipo “isso não é pra mim”, e isso quando já era adolescente. Voltei a me permitir curtir o gênero só com uns dezoito, dezenove anos, quando comecei a ler os livros mais tensos do Stephen King — comecei por A Torre Negra justamente por saber que era mais fantasia do que terror, inclusive, mas depois migrei pra drogas mais pesadas. :)

Hoje eu raramente assisto filmes de terror mais gore ou mais declarados, tipo os de exorcismo ou bonecas amaldiçoadas, mas AMO terror psicológico e histórias mais sombrias que ficam no limiar dos gêneros — além de ainda amar filmes de extraterrestres e criaturas. E assim: criaturas. Amo-as com todas as minhas forças! Lobisomens são de longe minhas criaturas preferidas, mas adoro monstros e seres místicos em geral. Aliás, se puder dar uma indicação solta que meio que amarra essa questão inteira, recomendo que todo mundo que curte terror assista As Boas Maneiras, filme brasileiro com lobisomem que ganhou meu coração.

FLAG: Se for o caso de você ser uma fã do gênero, quais suas inspirações dentro dele? Tem algum tipo de segmento, subcategoria ou elemento que você fuja nessas obras? Que você não goste de assistir de jeito nenhum?
JB: Bom, dentro do terror, Stephen King é minha maior referência — sim, embora haja toda essa polêmica dele escreve ou não escrever TERROR propriamente dito. Além das temáticas, amo muito a escrita dele e, principalmente, a construção de personagens. Acho genial também como ele usa o fantástico e o assustador pra trazer uma questão mais humana e discuti-la dentro de uma metáfora-não-tão-metáfora-assim.

Também tento beber muito das coisas do Guillermo del Toro, especialmente esse poder dele de transformar o insólito em algo belo e sensível. Acho que o que ele faz com histórias fantásticas é uma coisa única — e foi um carinho no meu coração ver A Forma da Água ganhando Oscar de melhor filme, com direito a del Toro falando de fantasia no discurso: “A todos que sonham em usar a fantasia para contar histórias de coisas reais no mundo de hoje você pode”... Ah, fala sério, arrepiei só de reler aqui.

Agora sobre o que eu não curto, acho que vale citar o terror gore mais gráfico e escrachado. Mas não é algo que eu abomine, é só que o conceito, a estética e a atmosfera não me agradam mesmo. Não é nem uma questão de me sentir mal lendo ou vendo, tampouco uma questão de geralmente mexer com temas mais fortes como sexo e com coisas supostamente “delicadas” como religião... é mais relacionado ao que falei antes sobre curtir o terror e o fantástico mais como ferramentas pra falar sobre o humano com sensibilidade do que como algo com intuito de impressionar e chocar. Eu inclusive vejo o valor que essa expressão tem, mas não faço muita questão de consumir.

FLAG: Você trabalha em Lobo de Rua com uma criatura bastante controversa. O Lobisomem muitas vezes é significado de selvageria e barbárie, mas você conseguiu colocar bastante sentimento na sua criação, e ficou algo incrível. Você não pegou um atalho como muitos fazem para trabalhar com lobisomens. Qual foi sua maior motivação?
JB: Putz, eu confesso que foi uma coisa muito intuitiva, um lance de juntar o lobisomem que é uma criatura que eu sempre amei com essas influências que eu mencionei antes, como o del Toro e sua sensibilidade e o King e a humanidade que ele traz por personagens.

Inclusive, eu só fui perceber a força da temática de Lobo de Rua depois da publicação — talvez hoje eu tivesse explorado esse potencial ainda mais, já com mais consciência do tema e dos desdobramentos da história. Mas de toda forma, eu tenho muito orgulho de ver que meu inconsciente deu seus pulos e me entregou de bandeja esse paralelo entre um menino de rua e alguém que vira lobisomem — ambos, humanos que brigam contra um mecanismo muito maior que eles, tendo que se submeter e lidar com as consequências de atitudes que são inevitáveis ou muito difíceis de evitar por conta dos contextos que os cercam.

FLAG: Você também construiu todo um submundo em São Paulo com a Galeria Creta e isso é algo incrível, tanto pras pessoas que moram lá quanto pessoas que conhecem pouco mas acabam se afeiçoando pelos locais. Imagino que tenha tido algumas dificuldades, mas qual delas foi a maior? Como foi (e segue sendo) seu processo de criação?
JB: Outra pergunta que nunca me fizeram e que achei demais! :) Bom, acho que minha principal dificuldade até hoje foi ter que lidar com mudanças muito grandes em pontos específicos da cidade que serviam de cenário pra minha história. O pior caso não foi com Lobo de Rua, mas sim com o romance que eu estou terminando de reescrever agora, que tinha uma cena muito importante que se passava no Largo do Paiçandu — que agora em maio de 2018 foi palco daquela tragédia que foi o incêndio e a queda do Edifício Wilton Paes de Almeida. Precisei reescrever o trecho inteiro por duas razões: uma porque a história acabaria ficando datada demais, a depender da minha escolha de informar ou ignorar a existência desse incidente... E outra porque acho que seria de extremo mau gosto manter a cena como estava, considerando a dor que aquele lugar representa pra muita gente.

De maneira mais geral, um desafio interessante (mais do que uma dificuldade) que tenho ao escrever fantasia urbana ambientada em uma cidade que existe é precisar estar sempre de olho no Google Maps pra manter uma mínima verossimilhança da minha história. Eu lembro que, quando visitei Roma, fiquei chocada de descobrir que a Capela Sistina e a Praça de São Pedro são bem longe uma da outra, porque lembrava da cena do Robert Langdon em Anjos e Demônios em que ele saía correndo da capela e simplesmente surgia na praça. Sei que é um filme e é ficção e blá blá blá, mas a verdade é que dá uma atrapalhada na imersão, né? Não quero que isso aconteça com as coisas que escrevo no universo da Galeria — pelo contrário, eu quero justamente que haja sempre aquela sensação de que a parte fantástica da história poderia realmente estar acontecendo em um cenário pelo qual o leitor transita todo dia.

Sobre meu processo de criação: eu não sou uma pessoa que cria altas regras do universo em arquivos à parte, ao estilo enciclopédia. Até hoje, tudo o que criei pra Lobo e pro romance (e pra alguns contos no universo) foram surgindo durante a escrita, expandindo o que já tinha sido definido nas obras passadas. Eu tenho na minha cabeça onde meus personagens moram, onde as principais coisas acontecem e vou, como disse, usando o Google Maps pra me manter nos eixos.

Fora isso, ainda estou bem aberta a ir modificando a “mitologia” do meu universo conforme preciso — que é uma incrível vantagem de estar trabalhando em uma história que se passa em uma ambientação que também está em criação. Muita coisa mudou ao longo da escrita do romance e eu fico muito feliz que tenha sido assim, sem restrições maiores. Mas muitas coisas que criei em Lobo de Rua me limitaram no romance sim — o que me desesperou no princípio, mas depois me mostrou que eu podia tirar coisas ainda mais interessantes da própria limitação. Ou seja, em resumo meu processo foi e continua sendo muito doido! Seguro na mão do Minotauro e vou! Hahaha...



FLAG: Se fosse pra você dar uma dica para mulheres que estão trabalhando com terror, seja escrevendo ou desenhando ou buscando inspiração para dirigir filmes e etc, qual seria?
JB: Olha, eu mesma ainda bato cabeça e estou sempre à procura de dicas, mas acho que tem muita coisa que podemos fazer... A primeira, sem dúvida, é apoiar umas às outras. A gente não pode esquecer nunca que entretenimento é uma arte, sim, mas é também um mercado. Quem manda é a grana! Enquanto a gente não gastar a nossa grana em conteúdos feito por mulheres, que fazem coisas que a gente quer ler, ver ou assistir, vamos continuar apanhando como produtoras. Eu amo procurar coisas de terror feitas por mulheres... Inclusive, me indiquem! :)

Outra coisa é não dar bola pra quem tenta diminuir nosso trabalho só porque somos mulheres. Vale aqui o lembrete de que há um limite muito tênue em ignorar os feedbacks destrutivos e não estar aberta a mudanças — o primeiro é necessário, mas o segundo é um tiro no pé. Mas, mesmo observado isso, geralmente fica muito claro quem tá querendo atacar ao invés de estar simplesmente expor a opinião, então reforço que os primeiros merecem só a nossa ignorância.

Uma terceira dica meio capciosa é usar a nossa vivência como mulheres pra fazer um horror ainda mais visceral, tocante e honesto — algo que eu proponho aqui, mas admito que eu mesma preciso experimentar mais no meu trabalho (está nos planos). Digo que é capcioso falar sobre “vivência como mulheres” porque pode ser muito fácil cair nos estereótipos, do tipo “nós mulheres somos mais delicadas” ou “nós mulheres somos mais sensíveis e isso se reflete na nossa arte”. Sei lá, acho que a biologia tem influência sobre nossas vivências, claro, mas em geral tem muita coisa que é uma construção social que eu sou a favor da gente tentar evitar. Mas, por outro lado, como seres sociais nós temos vivências sociais diferentes das dos homens, né? Essas sim, não podemos negar — e acho que tem até uma força implícita em usá-las a nosso favor.

Uma última dica (juro), dessa vez pra toda mulher que produz (não só terror), é: produza o que bem entender, mesmo que pareça — ou SEJA — “coisa de menininha”. Nessa época de desconstrução de padrões de gênero, acho que a gente pode acabar cruzando a linha e começar a usar demonizar o estereótipo antes normalizado pra cercear a produção feminina. Ainda mais porque o feminino sempre foi tratado como menor, menos importante, mais frágil... Porque continuar a propagar esse absurdo, que em nada nos favorece como um coletivo de mulher? Gosta de escrever romance água com açúcar? Escreva e seja feliz, tendo o direito de encarar sua literatura como tão grande ou importante do que qualquer outra. Por muitos anos, queriam que a gente escrevesse APENAS esse tipo de coisa. Não me parece fazer sentido que agora PROÍBAM mulheres de escrever esse tipo de coisa. :)

É isso mesmo. Obrigada mesmo pelo carinho e pelo convite, gostei DEMAIS de falar sobre esses pontos que você levantou! Espero que meus devaneios sejam úteis pra alguém, e deixo aqui aberto o meu Twitter @janapbianchi pra gente continuar conversando! *-*


Gostaria de agradecer mais uma vez pelo tempo da Jana e por todas essas dicas valiosas, além das indicações e todo o carinho 


Lobo de Rua, da Jana, pode ser comprado por ebook pela Amazon, para Kobo, e pela Apple
Lembrando que: caso você não tenha um leitor kindle, pode baixar os apps para tablet e celular diretamente da Amazon, clicando AQUI.



Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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