A maldição do Lobisomem no Brasil e no mundo

David Naughton em An American Werewolf in London (1981)

Lobisomens são criaturas bastante antigas no imaginário cultural. Desde os tempos dos gregos, de onde temos uma das primeiras histórias sobre a criatura lobisomem (no Satyricon, de Gaius Pretonius), a alegoria meio homem e meio lobo é utilizada para tratar de uma série de assuntos: masculinidade, a mudança que o homem passa durante a puberdade, narrativas para assustar moças. Seja na forma do distúrbio licantropia, seja na forma de lenda, os lobisomens estão, principalmente, ligados à violência, à brutalidade e ao selvagem que habita dentro de todos nós (principalmente os homens). Talvez por isso vejamos tão poucos lobisomens mulheres: nessas histórias, afinal, elas assumem o lugar de vítima, de carne, de objeto.



Temos origens de lobisomens em diversos lugares do mundo, e algum detalhe acaba se diferenciando do outro. Quando eles se transformam, o que pode machucá-los. Há também as histórias de lobisomens reais, como no caso de Peter Stubbe, em 1589, cujos panfletos da época afirmaram que era um lobisomem de verdade, que confessou ter feito um pacto com o diabo.

Perhaps the story of the werewolf shows us that same phenomenon, but in reverse. Rather than creating stories that help explain the mysteries of death, perhaps we created the story of the werewolf to justify the horrors of life and human nature. (Lore - Monstrous Creatures, Aaron Mahnke. P. 112)

No entanto, temos a ideia geral do homem que sofreu por uma maldição. Assim como os vampiros se transformam a partir da troca de sangue em uma mordida, a maldição do lobisomem é passada através de um arranhão, de algum ataque, do contato com a ferocidade e com o animalesco da criatura.
A história mais conhecida sobre o lobisomem da ficção, que ficou popularizada durante o século XX em filmes e na literatura, é o homem que foi contaminado pela criatura, e este homem se transforma na lua cheia e morre com uma bala de prata. Algumas poucas histórias procuram ir contra esses elementos pré determinados.

No Brasil, entretanto, temos algumas diferenças com o resto do mundo.
Como afirma Camara Cascudo, no Dicionário do Folclore Brasileiro: "são filhos de comadre e compadre ou padrinho e afilhada. Correm fazendo barulho. São pessoas que jamais engordam ou conseguem cores de saúde" (P.401). Cascudo ainda acrescenta uma série de referências de lobisomens ao redor do mundo, e procura mostrar como no Brasil as coisas são diferentes: "Os traços com que a imaginação de nosso povo retratou o lobisomem são duplos, porque também essa criatura infeliz, conforme o nome mostra, é dual. Como homem é extremamente pálido, magro, macilento, de orelhas compridas e nariz levantado". (P. 402)

Cena do filme As Boas Maneiras, filme brasileiro de 2018.

Há também a ideia de que, no folclore brasileiro, o lobisomem é o filho que nasceu depois de uma série de sete filhas mulheres. Conforme continua Cascudo: "Aos treze anos, numa terça ou numa quinta-feira, sai de noite, e topando com um jumento espojou, começa o fado".(P. 402) Outros pontos importantes sobre o lobisomem brasileiro é que, ao contrário do que pode ser mostrado pela ficção, a bala de prata não o mata. Conforme é dito neste artigo do site O Colecionador de Sacis, Os 7 erros mais frequentes sobre o folclore brasileiro, para o lobisomem ser desencantado, é necessário fazer "correr o sangue do monstro", e caso morto à tiros, "é preciso envolver a bala com a cera de uma vela consagrada rezada durante a missa do Galo".

A lua cheia também não é uma necessidade, o lobisomem brasileiro irá se transformar numa sexta-feira, independente da lua. Conforme afirma Helena Gomes no prefácio brasileiro de o Livro dos Lobisomens, de Sabine Baring-Gould, o lobisomem brasileiro "tem apenas uma noite para percorrer sete cidades antes de voltar para o lugar onde partiu". (P. 09). Helena Gomes ainda lista as causas do lobisomem brasileiro: "por ser o último de uma série de sete filhos, filho de um incesto, vítima de maldição, por ficar dez anos sem confissão ou comunhão, nascer com os dedos tortos, casar apenas no civil ou, ainda, deixar de receber o batismo". (P. 10). E nessa lista podemos perceber a forte influência da religião no mito do lobisomem brasileiro, como bem demonstra a autora, que ainda apresenta algumas outras soluções para que o lobisomem não se transforme, como o irmão mais velho batizar o irmão mais novo, ou "oferecer ao lobisomem uma saudação com a cruz, jogar água benta nele e realizar, por ele, sete rezas, durante sete noites, com sete velas acesas".(P. 10)

Como escrevi recentemente no texto The Were-Wolf, de Clemence Housman (1896), meu maior problema com os lobisomens é a necessidade da brutalidade, onde sempre quem acaba perdendo é alguma dama em perigo, que sofre as consequências de ter se aproximado da criatura maldita. Porém, é interessante perceber as nuances e as camadas que o mito do lobisomem recebeu quando se instalou no nosso folclore.

Dia 22 de agosto é comemorado o dia do folclore, e esse texto é em comemoração à data.
Links sobre o folclore nacional que podem ser interessantes:
O Legado Folclórico, série de livros de Felipe Castilho.
As Aventuras de Tibor Lobato, série de livros de Gustavo Rosseb.
Folclore BR, que reúne uma série de eventos e informações sobre o folclore.
Colecionador de Sacis, site de Andriolli Costa, que se dedica à pesquisa do folclore.
Poranduba, podcast também de Andriolli Costa.

Informações retiradas dos livros:

  • Lore - Monstrous Creatures, de Aaron Mahnke, publicado por Del Rei New York, em 2017.
  • Livro dos Lobisomens, de Sabine Baring-Gould, publicado por Aleph e traduzido por Ronald Kyrmse, em 2008.
  • O Livro dos Vampiros, de J. Gordon Melton, publicado por Makron Books e traduzido por James F. Sunderlank Cook, em 1996.
  • Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luíz da Câmara Cascudo, 12ª Edição, publicado por Global Editora em 2012.



Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Um comentário:

  1. Que texto cheio de informações e gostoso de ler (algo que não é fácil de se fazer). Desconhecia muito das lendas sobre lobisomens, obrigado pelo post! <3

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