GHOST STORIES: o sentimento do medo e a crença do terror

Martin Freeman em Ghost Stories (2017)

Ghost Stories é um filme inglês de 2017. Dirigido e escrito por Jeremy Dyson e Andy Nyman, o filme acompanha a história do Professor Goodman (Andy Nyman), homem cético, que tenta desmascarar mediuns farsantes, acreditando que está fazendo um bem para as pessoas que acreditam nessas falcatruas. Recebe, então, certo dia, três casos impossíveis de serem resolvidos por um grande ídolo seu. O grande problema é que realmente são casos difíceis de se solucionar e Goodman confrontará coisas que mesmo ele não consegue admitir.



Ghost Stories é um filme que não houve tanta divulgação, mas quem assistiu afirmou, no período do seu lançamento, que era um dos melhores terrores britânicos dos últimos tempos. Eu resolvi, por curiosidade, ver do que se tratava, e posso dizer que foi um dos melhores filmes que assisti nos últimos meses, e me levantou uma série de questionamentos, além de uma série de inspirações novas. O texto pode conter spoilers.


A trama toda gira em torno do fato de Goodman não acreditar no sobrenatural, em possessões, nas pessoas procurarem auxílio e conforto em médiuns que lhes dizem que seus entes queridos que já se foram estão bem. Goodman acredita fazer uma boa ação ao desmascarar essas pessoas, em não acreditar nelas, mas as coisas não são tão 8 ou 80 quanto Goodman acredita, e o filme é uma grande ode à isso: ao que o cérebro acredita ser real e não é, e se isso importa realmente ou não.

Goodman tenta resolver os casos de seu velho ídolo, Charles Cameron, mas falha miseravelmente logo de cara. Ao conversar com o padre que atendeu o primeiro dos casos, o caso de Tony Matthews (Paul Whitehouse), que viu algo enquanto trabalhava de segurança noturno em um prédio, é questionado sobre o real valor dessas experiências sobrenaturais. Se aquilo alterou de alguma forma para o bem a vida daquelas pessoas, porque não deixa-las acreditar?

Professor Goodman (Andy Nyman)

Se por um lado concordamos com o Padre, por outro devemos pensar em como essas coisas afetam negativamente a vida das pessoas. Buscar conforto em coisas que não são reais dificilmente são o melhor caminho para se resolver seus próprios problemas, algo que Goodman acredita. Mas o questionamento do filme, durante seus 98 minutos, é sobre o que pode ser considerado real e o que não é.

O segundo caso é de Simon Rifkind (Alex Lawther), um jovem que ficou atormentado após um acidente de carro em que atropelou algo voltando para casa. Se no caso de Tony, Goodman tentou observar a partir das emoções de um senhor que tinha uma filha doente e que era bêbado, no caso de Simon ele observa como as pressões do fracasso podem ter agido sobre o garoto. Porém, ainda sim, não são explicações cabíveis ou que satisfazem a ele próprio. O terceiro caso, e talvez o mais estranho de todos, é o de Mike Priddle (Martin Freeman). Mike acaba fazendo algo inexplicável ao final da exposição de seu caso, e é o próprio Mike que vai ditar o tom do resto do filme.

Mike é o personagem que vai demonstrar como a visão de Goodman é absurda e as frases que acabam sendo importantes no filme - "Everything is exactly as it seems" e "The brain sees what it wants to see" - fazem muito mais sentido quando terminamos de entender aonde Mike quer nos levar. Após fazê-lo perceber que não é assim uma pessoa tão boa (como seu próprio nome sugere), Mike mostra a Goodman que nem tudo que ele acha que é bom para as pessoas talvez seja mesmo.


Ghost Stories é, sobretudo, um filme sobre acreditar e o que fazemos com essa crença. As vezes a crença das pessoas é algo que elas tem, o sobrenatural é pra ser sentido e não explicado, e muitas vezes não cabe a um ser humano ditar o que é real ou não. Um homem que procura acima de tudo encontrar explicações para casos sobrenaturais, procurando no passado dessas pessoas algo que possa justificar aquilo que elas viram e sentiram, excluindo totalmente a possibilidade de que haja, no mundo, algo além do material e do tangível.

Ao final do filme, descobrimos que Goodman esteve internado durante todo esse tempo, e tudo era algo criado a partir de sua mente. Incorporando detalhes dos casos com as pessoas que estavam convivendo com Goodman no hospital, o filme se encerra demonstrando que talvez o cérebro possa sim pregar umas peças, as experiências são importantes para o que vivemos e a forma que vivemos, nem tudo é aquilo que achamos que seja, e nem sempre podemos controlar o que vemos e o que sentimos quando vemos.

O terror como arte é algo sobre emoção e sentimento, algo principalmente para ser sentido. Ao escrever Filosofia do Horror, Noel Carrol diz que o nome desse gênero é intimamente ligado ao sentimento que ele evoca. O terror tem uma quantidade imensa de camadas, e isso é incrível. Percorrer essas camadas e retirar uma série de significados de tudo isso, utilizando o real, o fantástico e o insólito para lidar com diversas problemáticas é algo que o terror pode proporcionar e que esse filme trabalha de forma incrível.


Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

3 comentários:

  1. Eu gosto do Martin Freeman, mas tenho a impressão que de um filme pro outro ele sempre interpreta o mesmo cara. 😅

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    1. SIM HAHAHAHA o jeitão dele nesse filme é igual aos outros, não foge muito não. Mas, de alguma forma, deu um ar bem bacana

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  2. Uma matéria melhor que a outra, vou procurar conhecer a dica, principalmente por ser com o Freeman ^^! Adoro essa temática sobre o ceticismo acerca do sobrenatural (eu mesma fico procurando viver alguma experiência do tipo haha)! Parabéns de novo Jesga <3 E obrigada por continuar seu trabalho de garimpadora do horror, viciei no site

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