ENTREVISTA: Larissa Prado

LTG - Ana Novaes é a artista dessa capa. No instagram vocês podem encontrar outras artes incríveis: @ltg.art

A convidada para a entrevista de hoje foi a Larissa Prado, autora de terror, e uma mulher incrível que eu tenho o prazer de trabalhar junto com uma grande parceria faz alguns meses. Recentemente resenhei seu novo trabalho, Herança Maldita, que foi feito em parceria com a Amanda Leonardi.
Larissa tem uma série de trabalhos publicados na Amazon, e vocês podem conhecer mais seu trabalho em seu site, Recanto Macabro.



A entrevista anterior foi com a quadrinista e roteirista Germana Viana, e vocês podem conferir no link: ENTREVISTA: Germana Viana. A ideia é conhecer mulheres e seus trabalhos dentro do gênero do terror, e que essas entrevistas sejam quinzenais.

Gostaria de agradecer à Larissa por ter topado participar da entrevista.

Fright Like a Girl (FLAG): Pra começar, quais suas principais inspirações dentro do gênero do terror? Diretores, filmes…? E na escrita?
Larissa Prado (LP): O terror me acompanha desde que me entendo por gente. Na infância, as histórias dos Irmãos Grimm me encantavam pelo aspecto tenebroso. Ficava imaginando o lobo engolindo a vó da chapeuzinho, o que me fazia ler e reler a história só pelo prazer de deixar a imaginação ir além no aspecto grotesco da história. Vieram os desenhos da Disney e o mais expressivo deles foi “Alice no país das maravilhas”, que mais tarde fui descobrir ser inspirado na história de Lewis Caroll, aí também me encantava pelas cenas oníricas e cheias de significados ocultos do mundo alternativo no qual ela se vê presa. Mais tarde séries como Arquivo X, Além da Imaginação passaram a me influenciar no aspecto sobrenatural. As animações do Tim Burton também tiveram papel importante na minha vida de admiradora da fantasia sombria. As revistas em quadrinhos como a linha horror da Marvel (Lobisomen, Drácula, Múmia, Frankenstein, Aventuras Macabras), Casa dos mistérios e outras coletâneas da Vertigo, títulos como Vampirella e as revistas Kripta. Atualmente, quadrinhos orientais têm me encantado muito. Nomes como Junti Ito, Hideo Yamamoto, Hedshi Hino podem desgraçar sua cabeça! Enfim, os quadrinhos influenciaram e ainda me influenciam bastante. Na literatura, entre tantos autores que me inspiram o maior deles sem dúvida foi -e é- Edgar Allan Poe, o primeiro conto dele que li foi “Os assassinatos da Rua Morgue” não é um dos melhores, mas como sou aficionada por literatura policial sua habilidade em misturar elementos de horror numa trama policial me arrebatou assim como Hitchcock me arrebata no cinema.

FLAG: Quais os aspectos no terror que você mais gosta? Aquele elemento que te desperta e faz você pensar “caramba, isso aqui é muito bacana, gostaria de fazer algo desse tipo”
LP: A possibilidade de reformulação, reinvenção. Dá para explorar velhas receitas do horror gótico, por exemplo, em roupagens contemporâneas. O gênero te possibilita reinventar e recriar. Trabalhar e explorar o medo é outro aspecto que sempre me encantou no terror, poder mergulhar nos elementos que despertam o medo, o assombro, o asco, esses tipos de sensações presentes em todos aspectos da vida humana.

FLAG: Uma das suas principais inspirações é o horror cósmico do Lovecraft, que podemos ver na sua primeira coletânea de contos. Quais são os elementos que mais te prendem nessa categoria? Como é sua história com o escritor? Lendo seus antigos trabalhos e os novos percebemos novas utilizações dessa inspiração como novos elementos se unindo aos antigos. Atualmente, como está essa sua relação com o horror cósmico?
LP: O que me fez chegar ao Lovecraft foi outro escritor, Clark Ashton Smith, um dos amigos do círculo de escritores que colaboraram com o horror cósmico. Através dele conheci Lovecraft e busquei conhecer sua obra. Um dos elementos que mais me fascina nessa categoria é o que Lovecraft deixou registrado numa das suas frases mais reproduzidas que está no seu ensaio “Horror sobrenatural em literatura”, é o medo do desconhecido. O horror que vem de lugares inatingíveis pelo ser humano, as criaturas forjadas nesses mundos ocultos. Lovecraft elevou a ficção científica a um patamar sério, trouxe o horror das invasões alienígenas, as figuras de deuses impiedosos adormecidos que estão aguardando o momento de sobrepujar a raça humana e mostrar a ela sua pequenez. Apesar de não admirar muitos aspectos das suas visões pessoais, como escritor o seu legado é indiscutível. Um dos traços mais admiráveis na sua trajetória foi encorajar e despertar outros escritores talentosos com quem trocou inúmeras cartas como Robert Bloch (autor de “Psicose”), Robert E.Howard (criador de Conan, o Bárbaro) entre outros nomes tão importantes para a literatura de horror. É incrível o que um escritor que começou escrevendo para revistas pulps conseguiu fazer na literatura mundial. Atualmente, o que tento fazer é aproximar o cósmico da vida das pessoas usando elementos presentes no cotidiano (novas tecnologias, experiências oníricas, situações insólitas, descobertas sobre um passado oculto) ao ponto de se questionarem, inquietas, se isso acontecesse mesmo, e aí?

FLAG: Tem algum tipo de segmento, subcategoria ou elemento que você fuja nessas obras? Que você não goste de assistir de jeito nenhum?
LP: Olha, acabo experimentando de tudo quando o assunto é terror, porque até mesmo nas coisas que menos me agradam tento tirar proveito mesmo que seja em identificar o que não faria de jeito nenhum! Um tipo de coisa que não me agrada são as derivações do subgênero Gore, Torture porn, vomit gore, elas não me agradam porque prefiro ir por um caminho voltado para o sugestionável, o subentendido. Stephen King define, em um de seus ensaios, que a última forma de despertar o terror seria apelar para os sentidos, para a repulsa e asco e considera isso uma forma “pobre” de forçar o leitor a sentir o terror. Tento fugir a esse tipo de apelação embora recorra, em alguns textos, aos elementos que compõe o Gore quando funcionam no todo da trama.


FLAG: Sobre o meio do terror e as mulheres, você já se sentiu hostilizada, em algum momento, seja como fã ou como mulher que trabalha com isso?
LP: Eu ainda não passei por nenhuma experiência que tenha me feito sentir hostilizada, mas me sinto subestimada e algumas vezes desacreditada sim, enquanto escritora, creio que parte disso é por causa gênero que escrevo. Infelizmente, o terror ainda não é levado a sério como deveria. Como fã de terror, muitas vezes senti certa estranheza por apreciar sangue, vísceras expostas, criaturas grotescas, enredos sombrios nas telas, livros e games. Mas não é algo que incomoda. A superação de certas dificuldades precisa começar em nós mesmas enquanto mulheres, não nos limitarmos ou retrairmos. Os olhares duvidosos, opiniões desestimulantes nunca me impediram de gostar do que gosto e de fazer o que faço. Muitos espaços permaneceram fechados para as mulheres durante muito tempo, a Literatura, assim como a Educação, é um deles, conquistar o direito à alfabetização foi um grande passo na trajetória das mulheres, e o movimento não pode parar. As oportunidades no mercado editorial são poucas, chegam até nós poucos trabalhos feitos por mulheres, mas quando você direciona a atenção para artistas independentes, para pessoas que estão aí lutando para compartilhar, publicar, realizar seus projetos descobre muita coisa boa sendo feita! Acredito que incentivar, conhecer, divulgar, consumir o trabalho dessas artistas é uma maneira de manter e fortificar o movimento para superação das dificuldades, historicamente, reservadas às mulheres.

FLAG: Se fosse pra você dar uma dica para mulheres que estão trabalhando com terror, seja escrevendo ou desenhando ou buscando inspiração para dirigir filmes e etc, qual seria?
LP: A dica que eu posso deixar para as pessoas que se aventuram no terror, ou na arte no geral, é ousar. Arrisque, tente coisas novas ou explore os odiados clichês, não se limite a um caminho só e busque conhecer trabalhos de outras pessoas do meio, outros gêneros, enxergue o terror em todos aspectos possíveis da vida. Escute e observe outras que estão trilhando o mesmo caminho há mais tempo. As pessoas ganham muito quando trocam experiências, ideais, quando se permitem experimentar. A inspiração é cruel, às vezes ela pode passar muito tempo sem te visitar, mas isso não significa que não possa continuar produzindo. Produzir não é apenas escrever, desenhar, pintar, filmar, é também, observar. Um pintor, que me foge o nome agora, respondeu quando alguém cobrou por seus longos anos “improdutivos” sem pintar telas, “não é porque não estou pintando que não estou trabalhando”, há esses momentos necessários de experimentação, buscar novos caminhos, É importante ter boas ideais e é importante fazê-las acontecer, e isso, acontece naturalmente quando nos permitindo (re)aprender, arriscar, testar o que funciona e reconhecer o que não funciona mais.

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Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

Um comentário:

  1. Só gratidão pelo convite, apoio, oportunidade. Já ansiosa para conferir as futuras entrevistadas.

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