ENTREVISTA: Germana Viana



Recentemente, no twitter, pedi para darem algumas ideias de pautas para o Fright Like a Girl, e surgiu a ideia de fazer algumas entrevistas com mulheres que trabalham com o gênero (estejam elas ilustrando, escrevendo, produzindo conteúdo sobre etc). A primeira pessoa que convidei foi a Germana Viana, uma quadrinista muito querida que está com a campanha no catarse de um gibi inteiro escrito e desenhado por mulheres com histórias de terror.



Gibi de Menininha é uma coletânea com 6 histórias de terror e putaria. As histórias são:
Fome: roteiro por Clarice França e arte por Mari Santtos;
Para Sempre: (ou um marinheiro me contou): roteiro de Germana Viana e arte de Renata CB Lzz;
A Última Comitiva: roteiro por Ana Recalde e arte por Talessa Kuguimiya;
Por Eras e Eras te Amarei: roteiro por Carol Pimentel e arte por Roberta Cirne;
Doce Inocência: roteiro de Milena Azevedo e arte por Katia Schittine e Fabiana Signorini;
Amarrados: roteiro de Camila Suzuki e arte por Gemana Viana
E a capa foi ilustrada pela incrível Camila Torrano.

Para apoiar o projeto, vocês podem clicar aqui: Gibi de Menininha no Catarse



Fright Like a Girl: Primeiro eu queria agradecer a você, Germana, por ter aceitado participar dessa tentativa de trazer entrevistas com mulheres que trabalham com terror. Também queria te parabenizar pelo projeto Gibi de Menininha, que é um trabalho incrível e eu não vejo a hora que ele fique pronto.
Germana: <3 <3 <3 obrigada!

FLAG: Acho que pra começar, uma pergunta muito básica: quais suas inspirações dentro do terror? Diretores, filmes…? Quando começou esse interesse?
G: Eu gosto muito de terror tosco. Saca? Se minha infância foi ver os filmes da Hammer escondida do meu pai (porque depois eu ficava com medo e tinha pesadelo que o Drácula vinha me morder), já grandinha me apeguei ao Cine Trash e isso destruiu meu bom gosto pra terror hahahaha Então, se você perguntar a minha preferência vai ser Hammer, Amicus, aqueles filmes italianos de zumbi dirigidos por caras do pornô (tipo Le notti del terrore), Critters… só tosqueira. Nas produções mais recentes, tem uma diretora nova que me interessa muito, a Anna Biller, adorei um filme dela chamado Love Witch. Gostei muito de Corra, do Jordan Peele, também. Mas cê vê, os dois tem jeitão de Hammer antiga, mas dão aquela atualizada legal pra não cair em estereótipo babaca!

FLAG: Qual o aspecto principal do terror que você mais gosta? Aquele elemento que você vê e pensa “poxa, isso aqui me dá vontade de trabalhar com terror”?
G: A criatividade! Cara, cê pega umas produções que você percebe que a verba pro filme era o dinheiro da janta e a galera consegue uns resultados maravilhosos! Daí, você vê algumas superproduções sobrando dinheiro e os efeitos parecem que nem renderizados foram. Não me entenda mal, não tô falando isso de toda superprodução, mas tem umas que dá vontade de você pegar os produtores e diretores, trancar numa sala e passar um monte de filme de terror de baixo orçamento que conseguiram resultados incrivelmente melhores que eles pra ver se eles aprendem!

FLAG: Tem algum segmento/subcategoria ou tipo de filme dentro do gênero do terror que você passa longe? Slashers, fantasmas…
G: Torture porn não me pega. Termino não vendo. O resto vejo tudo, mesmo que depois precise assistir um Bob Esponja antes de dormir pra ficar bem hahahahhaah

FLAG: Seus trabalhos anteriores tem bastante diversidade, como o POV e Lizzie Bordello. A ideia do Gibi de Menininha, que é um quadrinho de terror (e putaria) só com mulheres roteiristas e artistas segue nessa mesma linha. Tenho certeza que é um ponto importante da sua carreira, mas comenta um pouquinho do porquê isso é importante pra você.
G: É importantíssimo. Saca aquela frase da Audre Lorde, aquela poeta feminista fodona? "Eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas". É isso. :D E a gente que trabalha com cultura pop consegue atingir as pessoas e levar as reflexões que possam surgir de um jeito mais rápido e fácil de entender, então, eu acredito, que pelo menos pra mim é uma obrigação como produtora de conteúdo, levantar essas questões de um jeito responsável, ainda que divertido. Daí, uma vez que cê entrou na estradinha da empatia, não tem jeito, você percebe que a frase da Audre Lorde, que inclusive era uma mulher negra, pode ser usada pra abraçar qualquer galera que esteja numa posição de opressão: negros, orientais, a comunidade LGBTQ+. E cara, que mundo caótico e lindo que já poderíamos estar representando em nossa obras se parássemos de achar que existe um único padrão a ser seguido.

FLAG: Ainda sobre mulheres no terror: enquanto fã, já sofreu algum tipo de problema? A gente sabe que o meio é um bocado hostil as vezes.
G: Olha, o meio dos super-heróis é tão mais hostil que tô achando caminhar no terror um passeio num dia de primavera. Sério, obviamente não são todos os fãs de supers que são chatões, mas tem uma galerinha retrógrada que nussinhora, e como são barulhentos… afe! Então, os fãs de supers podiam aprender uma coisa ou duas com os fãs de terror. Porém, eu já vi acontecerem coisas com amigas minhas, a Camila Torrano, que fez aquela nossa capa maravilhosa (elogio mesmo hahahaha), já passou por inúmeras situações ridículas por ser mulher e trabalhar com terror, mas isso quase sempre partiu de pessoas que não são fãs do terror.

FLAG: Se fosse pra você dar uma dica para mulheres que estão trabalhando com terror, seja escrevendo ou desenhando ou buscando inspiração para dirigir filmes e etc, qual seria?
G: A dica que eu dou para todas as que estão trabalhando com qualquer gênero. Produza, trabalhe, e se não abrem as portas, ocupe os espaços e tragas as outras mulheres que tem afinidade com você para ocupar também. E não acredite em inspiração, que saporra é tipo um tempero caro, se você tem naquele momento, tudo bem usar, mas se não tem, você tem que saber produzir sem ela porque senão vira armadilha e desculpa para não produzir. É isso, acho.

Agradeço imensamente a Germana por ter topado participar dessa entrevista.
A ideia é que essas entrevistas sejam feitas quinzenalmente, com mulheres que trabalham com o terror.
Abaixo algumas imagens do Gibi de Menininha (que estão de matar!)

Prévia de Por Eras e Eras te Amarei (Carol Pimentel e Roberta Cirne)

A Última Comitiva (Ana Recalde e TalessaK)
Amarrados (Camila Suzuki e Germana Viana)
Para Sempre (Germana Viana e Renata CB Lzz)


Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

2 comentários:

  1. Não conhecia o trabalho dessas moças, foi incrível saber mais sobre o que produzem e mais ainda conhecer um pouco da Germana Viana através da entrevista. Vou procurar conferir mesmo esse projeto de quadrinhos, pelas imagens é maravilhoso!
    Parabéns, Jéssica, por todo o trabalho de agregar, de integrar. Olha só que dica maravilhosa, é importantíssimo o que está fazendo aqui no FLG, abrindo espaço, dando voz a essas pessoas. Você é incrível, e conte comigo ❤

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ai, Lari, é muito bom ler isso! Quero você nas minhas próximas entrevistas hahahah obrigada por todo o apoio, fico muito feliz de que você tenha curtido!

      Excluir

Comentários educados são sempre bem recebidos!

Mas não aceito nem tolero ofensas, comentários impossíveis de compreender, spams e qualquer tipo de intolerância.

Os comentários são moderados, por isso aguarde a aprovação!

Instagram