O DIÁRIO DE MYRIAM: sobrevivência, guerra e medo



O Diário de Myriam é um lançamento da DarkSide books, no selo Crânio. Escrito por Myriam Rawick e pelo jornalista Phillippe Lobjois, com fotos de Yan Boechat e traduzido por Maria Clara Carneiro,  o livro é um pedaço do diário mantido por Myriam, criança que cresceu durante os anos de bombas e guerra em Alepo, na Síria. É um relato cruel e triste, acompanhado pelos olhos de uma criança que até então não tinha pensado na possibilidade de um mal tão grande no mundo.



A edição brasileira tem um prefácio incrível e emocionante, escrito por Stéphanie Habrich, fundadora do Joca, jornal para jovens e crianças aqui do país. Ela escreve como o jornal proporcionou essas crianças conhecerem e ficarem apreensivos com a história de Myriam, e como a vontade de lerem esse trabalho acabou ajudando na publicação do mesmo por aqui. Constam algumas das cartinhas enviadas ao jornal com pedidos que o livro fosse impresso por aqui. Graças aos esforços de Stéphanie e à DarkSide, hoje temos essa obra incrível em mãos.

Antes, achava que aviões só serviam para viagens, para ir para longe, para levar as pessoas em visitas a países do mundo inteiro. Nunca tinha pensado que aquilo podia transportar bombas (P. 132)

As passagens das narrativas de Myriam são arrebatadoras. É terrível acreditar (e admitir) que uma criança teve que passar por tudo que passou, ver tudo que amava destruído, e perceber da forma mais difícil - com a guerra e a morte - que o mundo não é um lugar tão bonito assim para se estar, que as pessoas são cruéis. É difícil compreender as diversas formas que esse conflito já assumiu ao longo dos anos, e como isso influencia diretamente pessoas que nem sabem, exatamente, o que está acontecendo.

O relato de Myriam de como ela acompanhou as notícias de amigos fugindo de suas casas, de parentes próximos mortos, é algo impactante, algo que, se você nunca parou pra pensar nos impactos que esses conflitos religiosos e políticos tem na vida das pessoas, você passa a refletir.

Atrelada a um pouco de sorte, a força e a crença da família de Myriam fizeram com que ela sobrevivesse para contar sua história. As batalhas do Oriente Médio estão longe de serem terminadas, e é importante

A Guerra da Síria é um conflito bastante denso e complicado de ser entendido, devido à quantidade de forças que tem agido ao longo desses anos. De acordo com a Wikipedia, uma série de protestos iniciados em 26 de janeiro de 2011 deram início à revolta. Como o jornalista Phillippe Lobjois escreve no posfácio, uma das camadas mais claras e fortes dessa disputa é o controle ideológico e sectário do Oriente Médio.
Em 1979 ocorria a Revolução Iraniana, que teve uma série de consequências culturais no Irã, devido a um acirramento da disputa entre xiitas - o segundo maior ramo crente do Islão - e sunitas - o primeiro maior ramo crente do Islão. Isso fez com que o Irã e a Arábia Saudita entrassem em uma espécie de guerra fria, como explica o jornalista Lobjois, e isso tem se tornado cada vez mais perigoso. Escrevi um pouco sobre esse conflito sob a perspectiva do filme Under the Shadow.

São, pelo menos, 39 anos de conflitos (esses conflitos em específico), sejam eles velados ou expostos. Ainda na explicação de Lobjois sobre como esses conflitos começaram, é explicado que hoje essa guerra pouco tem a ver com os sírios. O que começou como uma revolta popular, acabou se tornando uma guerra entre vários agentes distintos: "De um lado, Arábia Saudita, Qatar e outros países do Golfo se uniram para armas or rebeldes, principalmente aqueles ligados ao Islã Político. A Turquia e os Estados Unidos, por sua vez, decidiram apoiar uma facção secular dos rebeldes, sem ligação com movimentos religiosos, que foi massacrada por seus pares jihadistas. Na outra ponta, Irã e Líbano, com claro destaque ao Hezbollah, se uniram para apoiar o regime de Bashar al-Assad. A Rússia correu em socorro a Assad para defender seu antigo aliado e proteger sua maior e mais importante base naval no mar Mediterrâneo" (P. 301-302)

Em seu livro Medo, reverência, terror, Carlo Ginzburg escreve que "Vivemos num mundo em que os Estados ameaçam com o terror, exercitam-no e às vezes o sofrem. É o mundo de quem procura se apoderar de armas, veneráveis e potentes, da religião e de quem empunha a religião como uma arma" (P. 32). Esse conflito não é algo que se termina de uma hora pra outra, e é algo que ainda vai ser levado durante anos até que encontrem uma solução. Até lá, muitas histórias terríveis ainda podem acontecer debaixo dos nossos narizes.

Myriam é uma sobrevivente forte o bastante para escrever o que tem acontecido na Síria, e pôde escrever para diversas pessoas como é conviver no início e durante as fases de paz de uma guerra. É um livro para se emocionar e, sobretudo, refletir sobre a situação dessas centenas de famílias.

Livro cedido em parceria com a Editora DarkSide.
Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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