A resistência com as novas tendências do terror

February, 2015.

Algo que venho pensando faz algum tempo e senti a necessidade de escrever, após conversar com alguns amigos e inspirada pela newsletter da querida Rafaela Bortolotti (assinem!)

Existe uma série de complicações que surgem quando você quer utilizar o tema do terror em pesquisas, sejam acadêmicas ou não. O terror como tema de pesquisa não é levado a sério, tendo em vista que muitos se esquecem ou ignoram suas aspirações políticas. Sendo de conhecimento que é um gênero de entretenimento feito para assustar, e somente isso, o terror acaba caindo em um limbo de não ser digno de nota quando pensamos em trabalhos culturais.

E isso é um erro gravíssimo.

O terror tem muito mais a apresentar do que alguns minutos de susto, alguns minutos de riso nervoso e torcidas em vão para que as coisas acabem bem para aquela família legal no meio do Maine (sinceramente, Stephen King, você já destruiu muitas esperanças na minha vida).

Assim como uma grande parte da mídia, o terror é feito por tendências. Algo muito prático sobre os filmes de terror é que podemos separá-los por décadas ao trabalhar essas tendências. Isso é ótimo por um lado, em que podemos fazer um recorte interessante sobre esses temas de uma forma simples, que é mais ou menos a cada 10 anos; porém, tem uma parte ruim: nostalgia e resistência em se aceitar as novas tendências.

Já escrevi que podemos gostar de horror sem gostar de slasher e já escrevi um texto em defesa do post horror, e agora quero me explicar um pouco melhor sobre isso.

Fazendo uma retrospectiva bastante rápida e sem profundidade nenhuma, podemos separar o terror das últimas décadas de uma forma muito simples:

  • 1980: tinha muito slasher e filmes com uma pegada de ficção científica;
  • 1990: filmes com uma pegada adolescente final girls;
  • 2000: foi o grande momento para o terror japonês no Ocidente e suas versões americanas;
  • Final de 2000 e início de 2010: fantasmas, possessões e jumpscare;
  • pós 2014: Pós horror.

De uma forma grosseira, se pegarmos os grandes sucessos dessas décadas, os filmes tem, em sua maioria, essas temáticas. Não quer dizer que filmes com outras temáticas não sejam feitos nesses períodos, é só que de forma quantitativa, essas são as "modas".

As tendências não são coisas ruins, bem como as subcategorias também não, por um motivo muito simples: o terror acompanha a cultura. O terror não é um gênero afastado da cultura e da política, ele tem aspirações e motivações e não faz sentido nenhum esperarmos que ele se desgrude do resto das produções culturais.

É compreensível que as pessoas que gostam de jumpscare, slashers e filmes dos anos 1980, odeiem o pós horror, afinal o tipo de mensagem é completamente diferente. O termo pós horror, de certa forma, foi criado para subjugar o resto do gênero e submetê-lo a algo sem propósito. Enquanto o terror comum de nada serve, o pós horror veio para salvar o gênero. E as coisas não são, nem de longe, assim.

Porém, é uma subcategoria que serve para separar a tendência do terror, e mesmo que o termo tenha sido cunhado sobre essa perspectiva, é um termo útil ao nomear que o momento do qual estamos passando no gênero do terror é um momento de reflexão, que não entrega o medo escancarado na sua cara: ele trabalha o medo, ele faz você digerir o medo e o medo está em lugares que você nem acreditaria. Estamos em um momento do terror onde o homem é o lobo do próprio homem (talvez mais trabalhado que anteriormente), e suas atitudes recebem castigos severos. Temas como a guerra, a religião, problemas de identidade e amadurecimento são os motes principais da subcategoria.

Mas nem por isso as outras tendências não tem tanto valor quanto o pós horror.

O terror é algo imenso, trata da morte e da vida de diversas formas, tem uma variedade de temas para uma variedade de gostos diferentes e pode abarcar uma enorme diversidade de pessoas, que encontram uma série de sentimentos ao assistir um filme de terror. É importante ter em mente que não é porque você não gosta de determinados temas que eles não sejam relevantes, ou que eles não sejam interessantes para outras pessoas.

Ouvir que o terror acabou e que estamos caminhando para um gênero falido é uma coisa que não dá para entender. O terror vai muito, muito bem. Estreias que são aguardadas como há muitos anos não se via, bilheterias incríveis, títulos que tem feito um sucesso absurdo na crítica.

Não digo que as tendências precisam ser acompanhadas e que todos deveriam amar tudo que é produzido, mas são movimentos de um processo cultural do qual o terror faz parte. Desmerecer o gênero pelo que ele foi em comparação com o que ele é, sem notar que suas motivações são diferentes hoje do que eram antes, é desserviço.

O gênero do terror não morreu e nem respira com a ajuda de aparelhos. Na verdade ele vai muito bem, como ele sempre esteve. Suas vontades e seus gostos pessoais não interferem na qualidade do que tem sido produzido. E, novamente, você não precisa gostar de todas as subcategorias do terror para ser um fã do gênero, mas não desmereça quem tem os gostos diferentes dos seus.

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

Um comentário:

  1. Esse é exatamente o texto que eu procurava.
    Tenho notado essa diferença nos filmes e gostei muito, mas queria saber se era real mesmo ou algo que só eu via por assistir muitos desse novo estilo.
    Adorei o que você escreveu, muito obrigada pela observação.

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