O Colecionador, de John Fowles



OBS: Esse texto foi escrito em conjunto com a Michelle Henriques (@_michellebruna), do The Feminist Horror




O Colecionador conta a história de Frederick Clegg, um homem ordinário, que nada tem de especial. Seus únicos interesses são colecionar borboletas e observar Miranda, uma jovem estudante de arte. Após ganhar na loteria, Clegg pensa em um plano: como ele poderia fazer Miranda se apaixonar por ele? Ela não parece ser uma garota que se interessa por dinheiro, então o que ele poderia fazer? A ideia de Clegg é bastante absurda: Sequestro.

Dividido em 4 partes, O Colecionador mescla a narrativa de Clegg e os diários de Miranda. Podemos ver, através dos olhos e palavras de ambos, como é a interação entre eles. Nos capítulos de Clegg, acompanhamos como foi o início de sua obsessão, como ele montou esse plano e conseguiu colocá-lo em prática, assim como ele age diante da mulher que ele, obsessivamente, ama. No capítulo dedicado ao diário de Miranda, sabemos como ela se sente mantida presa, além de descobrirmos um pouco mais sobre sua vida.

Miranda é uma jovem de 20 anos de idade que considera ter muitos pensamentos fortes e toma decisões a partir de suas convicções, mas como qualquer jovem, Miranda é presunçosa. Filha de pais ricos, com um casamento difícil, Miranda sente certo desprezo por sua mãe. Ela vive em Londres com sua tia Caroline, pois ganhou uma bolsa de estudos para uma conceituada escola de Artes. Caroline também recebe doses de desprezo.

As únicas coisas que Miranda ama são as artes, o conhecimento, e a beleza. Sempre deixando isso bastante claro, Miranda não consegue definir o bom e o mau, ela prefere observar o mundo a partir do belo e o feio. Pacifista, sempre ligada às causas sociais, Miranda encontra diversas chances de escapar, chega a machucar seu sequestrador, mas nunca consegue ir adiante. Também em seus diários descobrimos que Miranda tem uma paixonite adolescente por um homem mais velho. É uma relação bastante problemática, que mistura atração, desprezo e episódios de ciúme. Aqui cabe ressaltar o quão estranho é pensar que uma mulher mantida em cativeiro ficaria relembrando essa relação. Se pensarmos na época e que o autor é um homem, talvez faça algum sentido, mas é quase inconcebível essa narrativa nos dias de hoje.

Miranda se encontra numa situação horrível e mesmo que ela diga que não despreza as classes sociais “mais baixas”, em vários momentos ela acaba demonstrando o oposto. É difícil, entretanto, julgar Miranda, que se deslumbrou pelo mundo das artes e artistas. Durante o cativeiro, porém, Miranda consegue perceber as coisas com mais clareza. E se odeia sua mãe de início, começa a compreendê-la um pouco melhor, e consegue perceber sua tia Caroline como uma mulher interessante. Miranda também vê com mais maturidade esse envolvimento que teve com esse artista mais velho.

Miranda evolui como personagem, mas não chega lá. Torcemos o tempo todo para que ela escape, fuja de Clegg, dê a ele uma lição, consiga atingi-lo em cheio. Ignoramos a humanidade de Clegg, pois ele se mostra um personagem completamente absurdo ao tentar justificar seus atos (de sequestro e obsessão) com seu passado. O odiamos e queremos, nós mesmos, nos vingarmos por Miranda.

A narrativa com a voz de Miranda não desperta o mesmo interesse de quando seguimos a narrativa de Clegg. O recurso de usar diários é bem interessante, mas a narrativa não se sustenta. Miranda está presa, relembrando diversos momentos da sua vida, mas o foco fica na sua quase relação com um homem mais velho. Assim como Clegg, esse homem é igualmente detestável, cada um a sua maneira. As partes narradas por Clegg são muito mais interessantes e a leitura é mais fluída. É bastante interessante observar as características de psicopatia do personagem, entrar em sua mente doentia. Ao mesmo tempo que sentimos desprezo por ele, em dado momento podemos sentir pena.

John Fowles escreveu um livro com personagens complexos. Ao mesmo tempo que sentimos raiva da situação absurda, podemos sentir certa empatia. Ficamos com raiva de Miranda, mas lembramos que ela está em situação de perigo. Essa complexidade dos personagens e os sentimentos opostos que despertam são o ponto alto do livro.

O livro ganhou uma adaptação bastante fiel para o cinema em 1965, dirigida por William Wyler, com Samantha Eggar e Terence Stamp nos papeis principais. O diretor e os atores conseguiram captar com maestria o clima apresentado no livro.

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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