Você não precisa gostar de slasher

Jamie Lee Curtis no filme Halloween (1978)



Pode ser uma coisa óbvia pra se dizer, mas não é. Em uma discussão recente, a diretora Anna Biller, que dirigiu "The Love Witch", questionou sobre as Final Girls, um estereótipo muito conhecido no terror, e fez o seguinte tweet:

"Opinião impopular: a "final girl" não está ali, na maioria dos casos, pra celebrar uma mulher forte. Ela está ali para dissipar a culpa voyeurísta masculina e o prazer de assistir outras oito mulheres descartáveis serem violentamente mortas, e assim eles podem chamar isso de entretenimento progressivo"

Claro que, após uma declaração polêmica dessas, as coisas esquentaram rapidamente e choveu comentários sobre essa questão. Biller ainda disse o seguinte:


"É interessante como quando você tuíta sobre violência masculina em filmes você recebe um monte de violência masculina voltada pra você e outras mulheres, incluindo declarações como "a maioria das final girls não merecem viver"

Depois de dizer que nunca tinha assistido The Texas Chainsaw Massacre, aí as coisas foram ladeira a baixo de vez. A mídia americana de terror caiu matando em cima dessa declaração e correu pra julgar como a Biller estaria equivocada. Tivemos até mulheres dizendo que era um direito delas serem fãs de slasher e que era somente uma visão errada de Biller, que o slasher tinha muito a apresentar sim, e as final girls eram tropes importantes para o cinema de terror.
Mas acho que o problema é um pouco diferente de ser um direito ou não das pessoas serem fãs de slasher. Isso é muito mais uma questão de escolha, que deveria ser respeitada.

De acordo com a Wikipedia, a subcategoria slasher está descrita como:

Slasher é um subgênero de filmes de terror quase sempre envolvendo assassinos psicopatas que matam aleatoriamente. Normalmente são feitos com baixo orçamento, daí são constantemente nomeados como "terror b".

E, geralmente, esses assassinos usam máscaras e matam adolescentes. Dentre os filmes mais conhecidos nessa subcategoria, se destacam "The Texas Chain Saw Massacre", "Halloween", "Sexta-Feira 13", entre tantos outros.

Os filmes slasher, principalmente os mais antigos, sentiam a necessidade de mostrar pro público adolescente que as mancadas que eles cometiam (como tentar fazer sexo com sua jovem namorada) era algo vulgar, e pessoas vulgares morriam. Porém, existia uma mulher, que era pura o suficiente e que não ligava pra nada que os jovens ligavam, e ela conseguia derrotar o assassino (que sempre voltava). O assassino mascarado punia adolescentes por serem adolescentes. Essas mulheres que sobravam no final e eram heroína ficaram conhecidas como Final Girls (eu escrevi um textinho falando sobre esse trope AQUI).

O problema que Anna Biller aponta na subcategoria do slasher é a maldade contra a mulher. A mulher, sem dúvida, acabava sendo sempre punida por todos os seus atos, e somente aquela única moça que tinha uma moral inquestionável, era babá, ótima filha, cuidava bem do seu irmãozinho e não respondia seus pais era a que se salvava e salvava a cidade das garras (e facas, e machados e serras) dos assassinos.

O problema de se afirmar que esses filmes são críticas é compreender se a grande parcela dos fãs de terror conseguem acompanhar esse detalhe nas obras ou se estão reproduzindo que não, está tudo bem se uma mulher sofrer para se tornar mais forte depois. Mas isso é tema pra outro texto.

O slasher, e até o destaque que se deu pra personagens femininas, sem dúvida deve ser mencionado quando tratamos de terror. Porém, hoje, ele pode e deve ser questionado. Sua contribuição foi necessária até certo ponto, e algumas mudanças que ocorreram nesse tipo de filmes foram importantes para o desenvolvimento da própria categoria do terror, como podemos ver em Pânico, de Wes Craven, que traz uma final girl um pouco mais humana que os exemplos de mulher que tinham anteriormente, ou mesmo Happy Death Day, que se tornou um slasher moderno interessante, no mínimo.

E se uma mulher escolhe não gostar desse tipo de filme, tudo bem. Ela pode sim continuar gostando e produzindo sobre terror sem gostar de slasher. Ponto. Se uma mulher prefere não gostar de clássicos do cinema de terror porque eles são machistas e abusam da boa vontade e da violência gratuita contra o corpo da mulher, ela tá certíssima de não querer ver o filme. Ela tem essa escolha, e pode continuar escrevendo para/sobre o gênero da maneira que ela quiser.

Você, que gosta de filmes de terror mas não gosta de assistir slasher porque considera um filme agressivo e acha que ele nada pode acrescentar na sua vida, se você prefere o terror psicológico, o terror com espíritos, o post-horror, tá tudo bem. Você não precisa gostar de slasher. Ninguém é especial por isso.

Se o terror se tornou uma arma para o confronto social, como alguns críticos alegam, então talvez seja hora de confrontar também o papel da mulher nesses filmes, como já tem tantas mulheres fazendo. Não precisamos ficar presos à subcategorias que foram importantes no passado, mas que hoje não fazem tanto sentido para nós. Como em todos os tipos de filmes e livros, seja o drama ou o romance, você deve consumir somente o que está confortável.

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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