As mulheres na literatura de vampiros do século XIX

Marcilla ataca a adormecida Bertha, Ilustração do de D. H. Friston (1872) (Fonte: Wikipedia)

Se pensarmos na figura do vampiro como uma alegoria ao que acontece no contexto social e cultural de determinado momento, podemos compreender algumas escolhas de autores e diretores na hora de produzirem suas obras.



As histórias de vampiro começaram a ser produzidas na forma de poemas, no século XVIII. Apresentando homens que perderam um grande amor mas que voltaram para tentar recupera-lo, as histórias de vampiros estavam ligadas, principalmente, ao desejo e à sedução. Diferente, por exemplo, das histórias orais que corriam pela Europa, onde vampiros eram criaturas repugnantes e criaturas muito mais mortas do que vivas, o costume de vampiros sedutores nos poemas trouxe uma leva de preocupações com homens decadentes e de moral duvidosa. Podemos observar isso no poema "O Vampiro", de Heinrich August Ossenfelder, publicado em 1748, que conta a história de um jovem que quis se vingar de sua amada por te-la perdido; e podemos observar isso também no poema mais conhecido, chamado "Lenore", de Gottfried August Burger, publicado em 1774, e narra a história de uma jovem que se reencontra com seu amado após o mesmo ter morrido na guerra.

Pois se o vampiro do final do século XVIII e início do XIX é um homem com caráter duvidoso, e a sociedade precisa ser alertada desse perigo, as mulheres acabam sendo as maiores vítimas nessa circunstância. Nesse momento, as mulheres são tentadas e tratadas como pobres moças, frágeis, que não conseguem dizer não ao pedido do vampiro, como acontece no conto "O Vampiro", de Polidori, publicado em 1818, em que um jovem vê sua irmã ser arrastada para os braços de seu grande inimigo, Lord Ruthven, um vampiro (e ancestral de Drácula, podemos dizer), muito sedutor e rico.

Entretanto, algo muda no clima das histórias de vampiros na terceira década de 1800. A Morta Amorosa, de Theóphile Gautier, publicado em 1838, apresenta uma femme fatale de primeira linha, que decide desvirtuar um padre, mostrando para ele um universo de prazer que ele jamais imaginaria estando preso ao celibato. Temos uma personagem pouco lembrada, a vampira Clarimunda, mas que ajudou a forjar uma representação feminina que ainda seria muito utilizada muitos séculos depois. Não era uma novidade, mas era um alarme do que uma mulher poderia fazer com um homem, posta na alegoria do vampiro, ou seja, uma das criaturas mais exploradas para explicitar os medos da sociedade durante o século XIX (e até o século XX, dizem alguns textos)

Algumas décadas depois, em 1872, surgiria Carmilla. Sheridan Le Fanu, que não somente trouxe outra vampira mulher, como trouxe uma vampira mulher que ataca outras mulheres. Carmilla, sua vampira, escolhe Laura e sua atração por seu sangue não é menor que sua atração pela própria personagem. O que Carmilla sente por Laura e apresenta a ela, é atração física além de sede de sangue. Outro ponto começa a ser levantado nesse momento: as mulheres são perigosas não somente aos homens, mas também às outras mulheres.

No geral: mulheres são perigosas, tenham medo delas.

Esse medo será trabalhado novamente em Dracula, publicado em 1897, com a personagem de Lucy. Lucy é uma jovem encantadora, charmosa, que tem vários pretendentes, mas que não quer se ver ligada somente a um homem. Ela quer escolher e quer ser livre para seguir com sua vida. Apesar de apaixonada, Lucy prefere que ela mesma decida o que pode ser melhor para ela. Essa independência toda, não seria estranho, leva Lucy a ser a primeira vítima de Dracula na Inglaterra (Lembrando que Renfield foi vítima do Conde após ir até ele, e não exatamente na Inglaterra).

Sendo assim, Lucy seria a jovem perfeita para o Conde começar a colocar seu plano em prática, o plano de levar seu reinado de terror para a grande Inglaterra. Porém, com tantos homens másculos e viris a sua volta, a jovem recebe uma quantidade absurda de transfusões de sangue, mas não resiste e acaba falecendo. A segunda vítima do Conde passa a ser Mina, esposa de Jonathan Harker, quem o Conde mantém prisioneiro. Mina é doce, uma jovem professora, não tão rica quanto Lucy e bem menos ousada que ela, Mina só quer se casar com seu marido e ser útil a ele.

Durante todo o romance de Bram Stoker, Mina é posta como a mulher perfeita. Ela quer se casar e só tem um amor, um único pretendente, e permanece fiel e forte à ele mesmo que o Conde a force até o limite da tentação. Mina serve como secretária para Van Helsing, reúne os diários de seu futuro esposo Harker para que juntos todos possam deter o Conde, além de ajudar com os sentimentos difíceis dos outros três homens que ficaram viúvos de Lucy, agindo quase como mãe. Não somente para vingar sua amiga, que não é nem de longe uma questão para ela, mas para manter limpo o sangue da grande nação Inglaterra (e eu não estou sendo nenhum pouco exagerada aqui,  romance inteiro apresenta pistas de que o Conde Drácula é inimigo do país acima de ser inimigo da humanidade).

Temos um contraponto muito interessante entre as duas mulheres personagens em Dracula. Mina e Lucy correspondem a opostos muito bem definidos: Lucy é uma mulher independente que quer escolher o que fazer, Mina já sabe muito bem seu papel e não quer estar longe dele.
Bram Stoker era um homem de seu tempo, e retira-lo de seu contexto é um erro para compreender essas duas personagens. Foi um escritor que estava completamente contra qualquer tipo de discussão feminista (ainda na primeira onda feminista, neste momento, no final do século XIX, que ocorre na Inglaterra). É muito claro como ele usa seu romance para mostrar sobre o que era contra e o que era a favor. Assim como em grande parte das histórias de vampiros, existem camadas e sutilezas a serem exploradas.

Texto escrito a partir da monografia: O vampiro fin-di-siècle: História, Literatura e Imperialismo em Drácula, de Bram Stoker (1897)

Onde comprar as obras citadas:
Carmilla, de Sheridan Le Fanu: Amazon
Contos Clássicos de Vampiros, vários autores: Amazon
Herdeiros do Drácula, vários autores: Amazon


Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

2 comentários:

  1. Ótimo texto. Adoro vampiros e lendo seu texto me dei conta que nunca apreciei esses seres noturnos em poemas. Também lembrei lendo seu texto de duas personagens vampiras interessantíssimas, que não são de nenhum livro ou poema e, sim, de dois filmes. Estes são: a girl walks home alone at night e Only lovers left alive.

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    1. Olá, obrigada!
      Gosto muito de ambos os filmes que você citou, são ótimos. A Tilda Swinton tá ótima como vampira, não é? São dois filmes interessantes.
      Recomendo Kiss of the Damned, se ainda não viu. É um bom filme e segue essa linha de vampiros modernos

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