Sempre Vivemos no Castelo e a estranha história das irmãs Blackwood


Publicado originalmente em 1962, no livro Sempre Vivemos no Castelo, Shirley Jackson constrói de uma forma incrível a narrativa dessas duas irmãs, que foram vítimas de um crime horrível e estão tentando seguir com suas vidas. Foi publicado aqui no Brasil pela Suma em 2017, com tradução de Débora Landsberg.



A narradora da história é Mary Katherine Blackwood, irmã mais nova dos membros que sobraram da família Blackwood. Sua irmã, Constance, foi incriminada pelo assassinato de vários membros da família, incluindo seu pai, sua mãe, seu irmãozinho Thomas e a esposa de seu tio Julian, que não foi morto, mas ficou com sequelas terríveis e permaneceu vivendo no casarão. Desde então, mesmo tendo sido absolvida do crime, a cidade inteira persegue Constance, fazendo rimas e brincadeirinhas quando Merricat (apelido para Mary Katherine) passa pelo vilarejo.
Merricat odeia a todos na cidade. A vida só é suportável em sua casa, e quando tem que ir fazer compras ou levar os livros até a biblioteca, sua vontade é que todos estivessem mortos.

Sem olhar, eu conseguia ver os sorrisos e os gestos; queria que estivessem todos mortos e eu andasse sobre seus corpos."

[P. 18]

A vida das duas irmãs e seu tio é tranquila e sem ambições, vivendo com o que os pais deixaram e lidando com a casa da melhor forma que podem, cuidando de seu tio e do jardim. Merricat, porém, percebe que algo está para mudar em sua vida, e a chegada de um primo, Charles, acaba por mudar toda a rotina da casa, inclusive na forma das irmãs se relacionarem. É a partir disso que começamos a compreender melhor o que aconteceu naquela noite em que o jantar da família foi envenenado com arsênico.

Merricat percebe Charles como um intruso, como alguém de fora que não deveria perturbar o único lugar que ela ama. Toda a narrativa que Shirley Jackson desenvolveu para Merricat, inclusive, demonstra o quanto a personagem é infantil e tem problemas com suas emoções. Constance é sua irmã e talvez a figura mais importante da vida de Merricat, e ela se lembra o tempo inteiro que precisa ser mais gentil com seu tio, mas ela odeia a todos os outros, pois acreditam que ninguém ali deveria se intrometer em sua vida, e na de sua irmã.

O livro inteiro possui uma narrativa repetitiva propositalmente, como se fosse uma história narrada mesmo por uma criança, com diversos momentos em que o ódio de Merricat é a parte mais importante das frases. Talvez seja arrastada para quem prefira narradores mais ativos e diálogos mais rápidos, porém a história é incrível e e faz com que você queira descobrir o que aconteceu com aquela família. Constance seria realmente a culpada pelo crime, mesmo sendo considerada inocente? Merricat é apenas uma criança inocente?

Quem poderia ter tido o sangue frio de colocar o arsênico no açucareiro, naquela noite? Confesso que não foi muito difícil para descobrir o que poderia ter acontecido, mas isso não tira, de forma alguma, o mérito de Shirley Jackson de ter escrito um thriller interessante, com duas mulheres protagonistas e um crime como motivo principal.
Todos os momentos de sofrimento de Constance e Merricat, por parte dos moradores da cidade, são emocionante, e a partir das falas de Merricat conseguimos simpatizar com as duas protagonistas e querer que ambas consigam conviver longe dali.

Uma história interessante sobre como as relações familiares podem ser complicadas, como o mundo pode ser cruel a partir de supostas fofocas e como as pessoas tentam fazer o possível para se manterem em seus locais felizes.

Shirley Jackson foi uma autora norte americana, nascida em 1916 e que faleceu em 1965. Durante seus anos de carreira, influenciou diversos autores, como Stephen King e Neil Gaiman.
Após anos fora do catálogo, Assombração na Casa da Colina, da mesma autora, volta a ser publicado pela Suma, que também publicou Sempre Vivemos no Castelo.

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

2 comentários:

  1. Tenho sentimentos conflituosos com esse livro. Adorei/odiei Merricat e a relação doentia dela com a irmã, e toda aquela claustrofobia da casa e a história, mas meldels, que final broxante! Virei a última página achando que tinha faltado uma parte do livro.

    Mas tirando isso, o relacionamento de Merricat com o mundo renderia uma tese.

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    1. Eu esperava mais do final da Merricat mesmo. Pensei várias formas de terminar o livro hahahaha mas eu gostei demais do resto dele. A relação da Merricat e da Connie é assustadora em tantos níveis!

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