O post-horror não é tão ruim assim se você der uma chance

O crítico Steve Rose, em um artigo do The Guardian, denominou de Post-Horror aqueles filmes que possuem uma série de temores existenciais, diferente dos filmes da década passada que eram cheios de sustos. Imagino que outros críticos tenham contribuído para essa denominação, mas estou utilizando o nome de Steve Rose e seu artigo porque foi o que me acendeu a fagulha de vontade para falar sobre isso. Enfim, esse subgênero, e chamo de subgênero somente porque se encaixa dentro da chave maior do gênero de terror, de alguma forma, acaba envolvendo muito mais temores pessoais, dilemas sociais, do que o gore propriamente dito. Ok. A questão mesmo é que os próprios fãs de terror não estão muito abertos para isso que ele denominou de post-horror, ou pós-terror.

Uma das imagens de divulgação do filme The Witch, de 2016

Mas eu entendo. Pra nós, que viemos de muitas décadas de terror apelativo e definido pelo jumpscare, pode ser difícil mesmo abrir a cabeça para um subgênero tipo o “post-horror”, que trabalha com estética e arrepios leves, que martela na sua cabeça depois de semanas que você saiu daquela sala de cinema, e não que vai visitar sua cama à noite. Mas me deem uns minutos e algumas linhas para demonstrar meus argumentos.

Stephen King uma vez diferenciou o terror e o horror da seguinte forma: o horror é quando pensamos e sentimos um monstro atrás da porta, com a porta entreaberta, aquele sentimento horrível de que algo está ali sem saber que está ali; o terror, por outro lado, é quando a porta se escancara, você vê o monstro, e ele avança na sua direção. Não foram exatamente nessas palavras, porque Stephen King nunca precisou de tantas palavras pra explicar um conceito tão simples, mas foi basicamente isso que ele escreveu nas primeiras páginas de Dança Macabra. Eu mesma não faço muito essa separação ao escrever sobre o assunto, mas é algo que martela bastante na minha cabeça antes de dormir.


Noel Carroll, filósofo que escreveu Filosofia do Horror ou Paradoxos do Coração, não fez a diferenciação de terror e horror, mas deixou bem claro em seu livro que o thriller e o horror são gêneros semelhantes, mas diferentes. E, se considerarmos suas palavras, o horror como gênero e como arte, está intimamente ligado ao nosso sentimento. O sentimento do horror, inclusive, foi o que deu nome ao gênero e o tornou popular por isso.

Afinal de contas: o que é horrível para as pessoas? Do que elas tem medo?

Eu não vou me arriscar na psicologia para defender um subgênero de filme, que pessoalmente eu não acredito ter necessidade para existir, e eu não quero estar sendo muito inocente ou genérica ao afirmar isso. Mas se você levar em consideração essa primeira pergunta, acho que o terror se torna um gênero bastante amplo, com muitas possibilidades de histórias, enredos e roteiros, tendo bastante espaço para que seus subgêneros, com seus filmes de monstros, filmes de psicopatas, filmes de animais assassinos, e etc, possam coexistir. E, mesmo não acreditando muito bem na necessidade desse subgênero, para mim, o post-horror é só mais uma classificação de um tipo de medo diferente.

O que eu mais vejo falarem na internet é que The Witch não presta porque não é horror de verdade. Hoje mesmo me perguntaram se Get Out não seria um filme de suspense, ao invés de horror. Parece-me que os fãs de terror tem uma mania de jogar para o lado do suspense/thriller tudo aquilo que não é terror para eles. Não tem sangue suficiente, não tem tripas sendo jogadas na tela o suficiente, então não é terror.

Pois eu sou obrigada a deixar avisado aqui que sim, terror não necessariamente precisa ter 8 litros de sangue despejados na nossa cara em cada filme. Os grandes clássicos da Hammer, da Universal e os melhores filmes de Vincent Price não contam com essa quantidade absurda de sangue escorrendo pela tela como a água do poço da Samara pela TV. Os tempos são outros, eu entendo, e é necessário que um filme seja visualmente apelativo para que ele funcione, inclusive dentro do terror. Mas, visualmente apelativo também precisa ser visualmente agressivo? Um filme de terror não pode ser um filme esteticamente bonito, como sem dúvida The Witch é? The Witch, inclusive, envolve tanto história e receios antigos x presentes que eu poderia transformar esse texto em uma grande defesa dele. Mas estou defendendo o subgênero inteiro. Os fãs de terror torcem o nariz para esse tipo de filme, e consequentemente não o assistem.

Afinal, o que vem a ser o horror de verdade? Esse gênero, tão pouco estudado academicamente, que dá muito pano pra manga. Isso é assunto para um texto maior, mais longo, com uma argumentação em cima desse assunto e somente. Mas, posso adiantar que o horror/terror é um gênero muito amplo para ser trabalhado e entendido, e é muito mais que tripas escorrendo pra fora de pessoas.

A única coisa que posso dizer, afinal, é que se um filme de post-horror consegue ser o melhor filme de terror de 2017 até agora, você poderia dar uma chance ao subgênero.

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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