Dama em perigo, mulher fatal e a garota final

Quando escrevi em defesa das mulheres no terror citei três estereótipos comuns no gênero: a damsel in distress, a femme fatale e a scream queen. São três tipos de mulheres utilizados exaustivamente principalmente em narrativas de terror, mas que podem ser encontradas em várias outras mídias (com exceção das scream queen, típicas dos slashers dos anos 80). Gostaria de falar um pouco mais de alguns problemas da dama em perigo (damsel in distress), da mulher fatal (femme fatale) e gostaria de acrescentar a garota final (a final girl), que não escrevi sobre no texto anterior por descuido.

Chivalry, 1885, Sir Francis Bernard Dicksee (WikiArt)

A ideia de dama em perigo funciona muito bem no gênero do terror. Vinda de outras narrativas, como dos romances de cavalaria medievais, a dama em perigo geralmente impulsiona um homem a cometer atos heroicos para salvá-la. É bastante óbvio do porque isso funcionaria no terror: uma mocinha é sequestrada por um monstro e precisa ser salva. Nos romances góticos, que serviram de base para umas construção do gênero, podemos observar uma série de damas em perigo: Isabela, de O Castelo de Otranto, publicado em 1764 e escrito por Horace Walpole (1717–1797); Emily, em Os mistérios de Udolpho (1794), de Ann Radcliffe (1764–1823); Antônia, em O monge (1796), de Matthew Lewis (1775–1818). A dama em perigo parece ter tido uma presença maior no cinema de terror do século passado durante os anos 1930 a 1970, mas ainda sendo utilizada como argumento ainda hoje.

Pouco depois da ideia de dama em perigo nos romances góticos, os romances de terror do século XIX, principalmente a partir de 1830, parecem ter um sentimento misto em relação às mulheres: o medo da figura feminina acaba sendo demonstrado na figura da mulher fatal, e ela aparece muitas vezes em conjunto com a dama em perigo. Talvez um dos primeiros romances a inserir essa ideia seja A Morte Amorosa, de Theóphile Gautier, apresentando uma vampira que seduz um padre para o pecado. A sexualidade é o grande elemento da mulher fatal: sua sexualidade, a forma como você se envolve e se relaciona com um homem (ou uma mulher, como no caso de Carmilla) é que vai apontar se você é pura ou se tem algum desvio moral. Em The Lair of White Worm e The Jewel of Seven Star, ambos de Bram Stoker, podemos observar a mulher fatal nas figuras de Arabella e da Rainha Tera, que procuram conquistar um homem para a conquista de poder. No cinema, este ano tivemos Ahmanet, em A Múmia, que representa bem a ideia de mulher fatal.

A garota final é uma mudança de ares incrível nos filmes de terror. Em um momento de revisão da história, no auge da segunda onda feminista nos anos 1970, surgem aquelas garotas sobreviventes, que precisam estar firmes ao final da narrativa e que vão desafiar o vilão. Elas não estão indefesas como as donzelas em perigo e não são más influências, como as mulheres fatais. Porém: as garotas finais tem seus problemas. Elas são, geralmente, agentes do bom comportamento: elas são boas, elas são virgens, elas não ficam fora até tarde e todas as desgraças que acontecem a elas não tem motivo, mas elas vão lutar contra e vão vencer. Não é um modelo que nos satisfaça hoje em dia, mas funcionou por algum tempo, e deu espaço para que outros tipos de terror surgissem, sem a necessidade de uma mulher em perigo e de um homem a salvando; ou de uma mulher querendo dominar o mundo através do sexo.

O problema desses tipos de personagens é a dependência e a predisposição que elas evocam. Se observarmos os romances góticos com damas em perigo podemos perceber a dependência feminina para que um homem a salve do tormento. A mulher fatal só conseguirá poder se conseguir subjugar o homem através do sexo. A garota final só consegue abater o monstro se for pura e de bom comportamento. Ou a mulher é doce e delicada e precisa de um homem para salvá-la, ou ela é má e é a vilã da história, ou ela até pode salvar sua pele sozinha, mas só se ela se comportar bem. Cada um em seu respectivo contexto histórico representam visões femininas que precisam ser superadas.

Há quem diga que o terror é um agente da norma (KING, Stephen), mas prefiro acreditar que ele serviu a esse propósito por um longo tempo, e as coisas tem mudado. Apesar de ainda existirem filmes que insistem em manter a velha fórmula de fazer terror, como A Múmia, que foi um baita desserviço, temos mudanças importantes no cinema e na literatura. Se olharmos os filmes das últimas décadas, poucos mantém a velha fórmula: tivemos Buffy caçando vampiros, Ripley contra aliens, Sidney Prescott contra Ghostface, Wynonna Earp e renascidos, e alguns outros bons exemplos; temos a ascensão do post-horror, que insere elementos e temas diferentes, possibilitando personagens diferentes; temos, enfim, certa pluralidade nas personalidades femininas que nos são apresentadas. Ainda falta muito. muito mesmo, mas estamos indo por um caminho bom. Filmes como Raw, XX, e até mesmo Happy Death Day e The Babysitter, dentre outros, são exemplos de que mulheres podem ter motivações além de homens e sexo. A sexualização, o machismo e a falta de representação e a superação de alguns estereótipos com mulheres negras e asiáticas ainda são problemas, mas é possível perceber um horizonte bom e representativo no futuro.

Obs: Existem vários textos sobre cada um desses casos, mas o importante por aqui é a apresentação desses nomes, desses tipos de personagens, que serão utilizados para análises futuras, para observar alguns filmes e livros. É horrível bater na mesma tecla, mas é necessário até que se compreenda do porque esses estereótipos e tropes são ruins, apresentam mulheres singulares e restringem a visão de ser mulher nessas obras.

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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