The Love Witch e a falta de amor




Dia 14 de fevereiro, dia de São Valentim, é comemorado em vários países o dia dos Namorados. Importante, talvez, seja repensar o amor romântico e a separação de gêneros e deveres sexuais da qual essa data é carregada.



The Love Witch é um filme de 2016, dirigido por Anna Biller, que narra a história de uma mulher que tenta encontrar seu poder em meio a exploração que passa com os homens. Descobre, então, que seu único poder é o sexo. Elaine, interpretada por Samantha Robinson, é uma linda mulher que não teve muita sorte com os homens. Após envenenar seu marido, Elaine encontra na magia uma forma de utilizar seu corpo na busca do amor.

Quando vemos Elaine na cena de abertura do filme, ela dirige um carro por uma estrada costeira e narra que está começando uma nova vida, mudando de cidade, após seu marido tê-la deixado. Logo percebemos que Elaine o assassinou, mas não entendemos o por quê, pois ela afirma que o amava muito e não poderia viver sem ele. Ao longo do filme compreendemos que ela, afinal, sofria uma série de abusos psicológicos e absurdos. Seu marido, Jerry, em um dos flashbacks que Elaine tem, diz para ela que ele a ama, mas que ela precisa “ser mais cuidadosa”, já que o jantar havia atrasado três vezes aquela semana, a casa estava uma baderna e ela deveria se cuidar melhor, pentear seus cabelos e ser mais vaidosa. Logo em seguida quem fala com ela é seu professor de magia, que insiste que ela não precisa ter medo dele, que ele quer tocá-la e lhe dar prazer. Tudo isso nos induz a pensar em como era a Elaine naquele momento, totalmente fragilizada e tentando se reerguer com aquilo que ela havia aprendido: homens precisam das coisas e as mulheres devem dar a eles o que eles querem. Elaine leva esse pensamento adiante em sua “nova vida”.

Elaine foi condicionada a pensar dessa forma, e durante toda a narrativa do filme ela vai procurar algo que é impossível de se encontrar: o amor que Elaine procura não é o amor de algum homem. Em uma das conversas de Elaine com a personagem de Trish, primeiro contato de Elaine na cidade, Elaine diz que homens são crianças, e que dar a eles sexo é uma forma de libertar seu amor potencial e Trish responde a ela “você fala como se tivesse sido lobotomizada pelo patriarcado”, e essa é uma forma de se enxergar as coisas.

Elaine, apesar de toda a instrução e toda a orientação mágica, foi instruída por homens e se deixou cegar por algo que nunca iria encontrar: o amor romântico e utópico vindo dos romances de cavalaria e contos de fadas, onde um homem iria aparecer para salvá-la e dedicá-la todo o amor que poderia ter. Elaine não pensa em outras mulheres, pois foi condicionada a fazer o que os homens querem, e em determinado momento seduz até mesmo o marido de Trish, uma das únicas mulheres que ela mantinha contato. Elaine quer receber amor, e acha que através do sexo, e somente através dele, ela iria conseguir.

Não faço aqui uma defesa da personagem de Elaine, mas abro um momento de reflexão sobre tantas mulheres que são condicionadas a acreditarem que seu papel fundamental é o sexo, e que através dele vão conseguir o amor que tanto procuram. Mulheres são levadas a crer que seu papel como mãe e amante — algo que é dito pelo orientador espiritual de Elaine, Gahan, durante um discurso sobre como as mulheres são importantes nesse sentido — são o que as define, e tratam os homens como seres infantis que precisam de carinho e atenção. Infantilizar os homens e tratá-los como crianças, como Elaine faz em todas as suas relações ao longo de The Love Witch, é como retirar deles toda a responsabilidades de adultos que se envolvem com outros adultos.


Falta em Elaine algo que falta em muitas de nós, o amor próprio. Não devemos dar a ninguém o que não queremos, não precisamos disso. Elaine achava que precisava, pois sua necessidade era se sentir amada, não importando de onde viria esse amor. Elaine afirma que não tem medo de fazer o que for necessário para receber amor, e talvez esse seja um dos maiores problemas que a personagem carrega.

O filme inteiro tem um toque de ironia. Não acreditamos que Elaine, sendo a mulher que é, precisaria de feitiços e poções para ser amada, mas ela crê que sim, e as vezes é muito difícil de tirar esse tipo de coisa da cabeça de uma mulher que foi fragilizada.

Pode-se tirar muita coisa de The Love Witch, e o filme pode ser interpretado de diversas formas, mas, ao meu ver, talvez uma das principais situações incômodas é essa necessidade absurda de compreender os homens e encaixá-los na categoria de crianças mimadas, como se eles não soubesse realmente o que estão fazendo. A mulher não precisa ser somente mãe e amante, e ela não deve ser induzida a achar que seu único papel é esse.

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.

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